Espanha

‘Ronald Araújo disse já chega e creio que o Barcelona faz bem em escutá-lo’

Zagueiro holandês vive momento de exaustão emocional, e clube catalão adota postura louvável ao priorizar sua saúde mental

A expulsão de Ronald Araújo contra o Chelsea, resultado de dois cartões evitáveis — um por reclamação com a arbitragem, outro por uma entrada forte em Cucurella — foi o estopim para algo maior no Barcelona. O episódio não somente tirou o zagueiro de ação por algumas semanas, como também iluminou um desgaste que vinha se acumulando há anos.

Araújo, frequentemente colocado sob lupa em jogos decisivos da Champions League, como contra PSG, Internazionale e agora Chelsea, se viu outra vez no centro de críticas duras e constantes. O clube catalão, ciente desse ciclo, transformou sua situação em prioridade. Mais do que apressar seu retorno, a diretoria decidiu focar no essencial: reconstruir o bem-estar mental de um jogador que, há muito, carrega um peso que vai além do futebol.

Diante desse ambiente de reflexão, Gerard Piqué, em entrevista ao jornal “Sport”, abordou o tema com franqueza e experiência pessoal. Ele ressaltou que o futebol, apesar de ser um espelho da sociedade, costuma demorar a reagir a debates que já avançam em outras áreas.

— Temos que cuidar da nossa saúde mental… O tema está sendo cada vez mais discutido, e acho bom que as pessoas estejam se conscientizando mais. O esporte sempre foi mais lento para se adaptar a tudo isso. Lembro-me da época do racismo, da violência nos estádios… No âmbito dos torcedores, parece que no futebol somos os últimos a nos adaptar aos tempos. Já passou da hora de pararmos de ser uma terra sem lei, onde todos podem insultar ou fazer o que quiserem.

Ao revisitar seu próprio passado, Piqué lembrou os anos em que era criticado sistematicamente enquanto defendia a seleção espanhola, cenário alimentado pelo clima político do país — relacionado ao movimento separatista da Catalunha.

— Lembro que, com todo o movimento independentista, passei por isso enquanto jogava pela seleção, e você precisa desenvolver uma casca-grossa. Chega a um ponto em que é prejudicial, em que você nem se importa com o que as pessoas dizem, mas é a única maneira de preservar sua saúde mental. 

A memória trazida por Piqué serve de espelho para o que Araújo vive hoje. A decisão do uruguaio de se posicionar publicamente e admitir que atingiu um limite soou, para o ex-zagueiro e ídolo do Barcelona, como um passo necessário — e um chamado para que o ambiente do futebol mude.

— Nesse caso, Ronald se manifestou e disse que já chega, e acho que o clube está fazendo a coisa certa ao ouvi-lo e dar a ele todo o tempo que precisa. Acho que todos os torcedores de futebol na Espanha deveriam refletir um pouco sobre isso — concluiu Piqué.

Momento em que Araújo é expulso contra o Chelsea
Momento em que Araújo é expulso contra o Chelsea (Foto: Imago)

Ronald Araújo faz ‘viagem espiritual’ a Israel

Em meio ao turbilhão emocional que o afastou dos gramados, Ronald Araújo viajou a Israel em busca de um refúgio espiritual e cultural. A ideia, segundo a imprensa espanhola, é permitir que o zagueiro se afaste completamente do barulho que o cerca, recupere forças e encontre um espaço seguro para reorganizar pensamentos e sentimentos antes de retomar sua rotina no Barcelona.

Durante a estadia, Araújo deve realizar visitas religiosas, passeios turísticos e, sobretudo, procurar momentos de silêncio que lhe permitam processar tudo o que viveu nas últimas semanas. Seus agentes comunicaram a Deco, diretor de futebol do clube catalão, que o jogador precisava de paz e tranquilidade para se reconectar consigo mesmo, e o Barça reagiu com total apoio.

Foto de Guilherme Calvano

Guilherme CalvanoRedator

Jornalista pela UNESA, nascido e criado no Rio de Janeiro. Cobriu o Flamengo no Coluna do Fla e o Chelsea no Blues of Stamford. Na Trivela, é redator e escreve sobre futebol brasileiro e internacional.

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