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Piqué: “A Inglaterra precisa mudar para se dar bem na LC”

Gerard Piqué viveu realidades distintas em Old Trafford e no Camp Nou. Surgiu como promessa na base do Barcelona, mas acabou levado ao Manchester United aos 17 anos. Sem o espaço pretendido com os Red Devils, acabou revendido aos blaugranas quatro anos depois, para finalmente estourar. Experiências que dão peso a sua análise ao comparar Premier League e La Liga.

O que não significa que Piqué esteja completamente certo. Avaliando a eliminação precoce dos clubes ingleses na Liga dos Campeões, o defensor indicou que o fracasso poderia indicar mudanças na Premier League. Entre as críticas levantadas pelo jogador, está a relatividade entre a igualdade na distribuição do dinheiro da televisão na Inglaterra, que ainda assim não garante um campeonato nacional equilibrado.

“Talvez o futebol inglês precise ser repensado. Eles já tiveram três times nas semifinais da Liga dos Campeões e agora não têm nenhum nas quartas. A Premier League é punida em relação a La Liga pela forma como o dinheiro da televisão é distribuído, mas isso não explica totalmente a diferença do Real Madrid e do Barcelona para os ingleses. As pessoas dizem que a Premier League é mais equilibrada que La Liga, mas o Manchester United está 12 pontos à frente do segundo colocado”, afirmou o defensor, em entrevista ao Daily Telegraph.

Porém, ao comentar as quedas precoces dos ingleses na LC, Piqué caiu em contradição: “Talvez seja a situação dos técnicos. Eu não sei. Existe outra maneira de olhar para isso, cada clube tem que olhar para a própria realidade. O Arsenal, por acaso, tem renovado sua ideologia ou liderança? O United ganha a liga com frequência e sempre vai bem na LC. Não entendi por que isso não aconteceu nesse ano. O Man City tem um projeto similar ao do PSG, com várias estrelas. Cada clube precisa se questionar”.

Um problema mais específico do que geral

De fato, a resposta está bem mais na trajetória individual de cada clube do que nos mecanismos do campeonato. Nesta temporada, especificamente, ninguém questionaria se o Manchester United passasse pelo Real Madrid nas oitavas de final – o que era bastante possível, não fosse a controversa expulsão de Nani. Chelsea e Arsenal se afundaram em seus problemas internos, enquanto o Manchester City outra vez fracassou no misto de inexperiência e desorganização.

Talvez a Premier League hoje esteja mais parecida com La Liga na disputa pelo título, onde os clubes de Manchester dispararam muito cedo, assim como havia acontece costumeiramente com Real Madrid e Barcelona. Contudo, o abismo de Citizens e Red Devils para Chelsea, Arsenal e companhia é bem menor que o de merengues e blaugranes para Atlético, Valencia ou qualquer outra equipe do segundo pelotão espanhol.

Os números ajudam a demonstrar esse equilíbrio no pelotão de frente. Nas últimas dez temporadas, La Liga e Premier League foram decididas, no máximo, com três rodadas de antecedência. No entanto, em 70% das vezes o campeão inglês saiu na última ou na penúltima rodada, enquanto esta taxa de definição cai para 30% na Espanha – o que significa um torneio bem mais previsível e menos equilibrado na disputa pelo título.

Um reflexo disso também vem nas campanhas na Liga dos Campeões nas últimas dez temporadas. Das 11 aparições da Espanha nas semifinais da Liga dos Campeões, nove foram com Real Madrid ou Barcelona. Já a Inglaterra conta com 15 aparições, melhores distribuídas entre Chelsea (6), Manchester United (4), Liverpool (3) e Arsenal (2).

Nas últimas três temporadas, são cinco campanhas de Real Madrid e Barcelona rumo às semifinais, contra duas de clubes ingleses. O que, na verdade, mostra uma diferença maior de Real Madrid e Barcelona para o restante dos clubes do continente do que entre La Liga e Premier League. A não ser que os ingleses queiram sufocar os seus pequenos e médios clubes em troca de títulos continentais, a melhor forma de competir com os espanhóis está ligada à organização interna das equipes, e não aos mecanismos de suas ligas.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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