Pedra cantada

A diretoria do Barcelona não fazia a menor questão de manter Ibrahimovic. Pior, não fazia questão nem de fingir isso, o que ficou evidente desde a contratação de David Villa, dias depois do final da temporada passada. O sueco fazia o mesmo. O técnico Pep Guardiola também. Só faltava um comprador disposto a pagar um valor minimamente decente para reduzir o prejuízo blaugrana. Foi quando o Milan apareceu e levou o atacante.
A maneira como o Barcelona se desfez de seu jogador é uma espécie de admissão de culpa. Desde o começo, o “investimento” era duvidoso ao extremo. O clube pagou € 65 milhões pelo jogador (€ 40 milhões mais a cessão de Eto’o, avaliada em € 25 milhões), o que deveria diminuir a empolgação madridista com a compra de Kaká e Cristiano Ronaldo. Pelo marketing, não funcionou tão bem, porque a torcida já tinha seus ídolos a quem devotar. Pelo futebol, foi pior ainda.
Ibrahimovic é craque, mas seu estilo de jogo claramente não encaixava com o estilo de jogo rápido do Barcelona de Xavi, Messi e Iniesta. Ele foi titular no início, mas perdeu a posição rapidamente. Seu grande feito foi marcar o gol da vitória catalã no clássico contra o Real Madrid (1 a 0 no primeiro turno), assegurando pontos que se mostraram decisivos no final da temporada. Agora, foi emprestado ao Milan por um ano, com transferência definitiva estipulada em € 24 milhões.
Curioso é como o Barcelona gosta de fazer esse tipo de aposta furada, mas não aparece. O clube acabou de contratar Mascherano, volante que terá problema para se encaixar em um elenco bem servido no meio-campo. Há um ano, Ibra não foi a única contratação de vulto do clube. Joan Laporta pagou € 15 milhões por Keirrison, que não fez uma partida sequer com a camisa azul-grená e hoje está no Santos, e € 27 milhões pelo zagueiro Chygrynskiy, que retornou ao Shakhtar Donetsk por € 16 milhões. Em 2008, o Barça comprou o meia Hleb por € 16 milhões e o uruguaio Cáceres por pouco menos de € 18 milhões. Um ano antes, havia gasto € 26 milhões em Henry.
Claro que, no meio desses erros, houve grandes sucessos como Daniel Alves e Piqué ou sucessos aceitáveis, como Abidal e Yayá Touré. Mesmo assim, é evidente que o Barcelona tem seus momentos de Real Madrid. Aquele desejo incontrolável de atender à pressão da imprensa por contratações midiáticas, mesmo que façam pouco sentido técnico. Mesmo Henry, jogador já consagrado, era tecnicamente incompatível com o estilo do time de Rijkaard.
Não fossem os erros ainda mais clamorosos do Real e o sucesso das categorias de base barcelonistas, a atuação blaugrana no mercado seria passível de crítica. Mostra de como o clube precisa trabalhar com o que faz de melhor, e não fingir ser quem não é.
Investimento hercúleo
Respeitando as proporções, quem vai por caminho parecido é o Hércules. O clube alicantino já havia montado um time mais caro que o convencional para a disputa da segunda divisão na temporada passada. Disparou na ponta, mas caiu de rendimento na reta final e quase deixou a promoção escapar.
O retorno à elite (sua última temporada na primeira divisão havia sido em 1997), porém, ficou marcado pela suspeita de compra de resultado de um jogo contra o Córdoba nas rodadas finais. O caso ainda está sob investigação das autoridades. Enquanto isso, o time vai cumprindo a tabela, como se nada tivesse ocorrido.
Isso explica muito como os herculanos se tornaram o time pequeno da Espanha a mais agitar o mercado. De uma vez, contratou o atacante francês Trezeguet, o meial-lateral holandês Drenthe e o paraguaio Nélson Haedo Valdez, também atacante. O trio se junta a um elenco que já contava com bons nomes como o goleiro Calatayud, os meias Farinós e Rufete e o atacante Portillo.
Tecnicamente, tal investimento é duvidoso. O Hércules está gastando um dinheiro maior que pode arrecadar por meios futebolísticos – TV, bilheteria e venda de produtos, sem contar aporte direto de seus dirigentes. Além disso, cria uma expectativa de resultado que talvez não seja atendida.
Entre equipes pequenas e médias, essa mistura costuma ter resultados ruins no futebol espanhol. Em 2007, o Murcia contratou Carini, Fernando Baiano, Pablo García e Regueiro. No mesmo ano, o Zaragoza apostou em Ricardo Oliveira, Matuzalém, D’Alessandro, Ewerthon e Diogo. No ano seguinte, o Betis gastou um dinheiro considerável em Ricardo Oliveira e Sergio García. Os três acabaram a temporada rebaixados.
Isso não significa que o futuro próximo da equipe de Alicante seja tão pessimista. O elenco é bastante decente e, se a diretoria e a comissão técnica souberem gerenciá-lo, dá para fazer uma campanha decente.
Mas a sensação que passa é que a ousadia no mercado tem outro objetivo. O Comitê Disciplinar da LFP (liga espanhola) anunciará no meio de setembro – data ainda não definida – se o Hércules será punido no caso de suborno. Com tanto investimento, o clube se coloca em posição mais forte política e economicamente, inibindo punições mais severas. E, se elas forem evitadas, as contratações bombásticas podem ter valido a pena.



