Espanha

Os trabalhos do Hércules

O Barcelona 1996/97 era um timaço. Ronaldo fazia gol de todo jeito (menos de cabeça, claro). Foram 34, que lhe valeram a artilharia do Campeonato Espanhol. A equipe ainda tinha craques como Figo e Stoitchkov, além de grandes jogadores como De la Peña, Luís Enrique e Guardiola. Conquistou a Copa do Rei e a Recopa Europeia, mas perdeu a liga nacional para o Real Madrid por dois pontos. Ah, não fossem aquelas duas derrotas para o vice-lanterna Hércules…

Bem, a última aparição do Hércules na elite espanhola ficou marcada basicamente por botar uma cachoeira de água no chope barcelonista. Desde então, o tradicional clube de Alicante caiu para a terceira divisão, quase faliu, retornou à segunda e ficou esquecido do público internacional. Pois os herculinos podem reaparecer em breve. Foram apenas 25 das 42 rodadas da Segundona espanhola, mas os alicantinos já dão toda a pinta de que serão promovidos. O time tem 48 pontos, oito a mais que o Levante, o terceiro colocado. Basta administrar a vantagem para retornar à elite após 13 anos.

O mais interessante no Hércules é que o trabalho é consistente e vem mostrando resultados graduais (o que normalmente é bom). Em 1999, o clube quase fechou as portas devido a enormes dívidas. O Luís Bernardo Díaz Alepri, prefeito de Alicante, pediu um favor a Enrique Ortíz, empresário do setor de construção local e fanático por futebol: comprasse o time mais tradicional da cidade e o salvasse da falência. Ortiz gostou da ideia e adquiriu 95% das ações herculinas.

Não houve grande injeção de dinheiro para ascender rapidamente o clube. Aliás, até demorou. Apenas em 2005 os blanquiazules deixaram a terceira divisão, depois de quase ser ultrapassado pelo Alicante como principal clube da cidade. A partir daí, o trabalho começou a ter resultados mais visíveis. O time se tornou ocupante rotineiro da primeira metade da tabela. Em janeiro de 2007, construiu um centro de treinamento. Quatro meses depois, o Hércules recomprou o estádio José Rico Pérez (uma das sedes da Copa de 1982) da prefeitura.

Não é acidente que esse Hércules tenha feito boa campanha na temporada passada, terminando a segunda divisão em quarto lugar (um abaixo da linha de promoção). E não é acidente que esteja confirmando o favoritismo para ascender em 2009/10, mesmo com a concorrência de equipes mais tradicionais ou que tiveram mais espaço na elite nos últimos anos (Real Sociedad, Celta, Betis, Cádiz, Numancia, Las Palmas, Murcia e Recreativo de Huelva).

O time é bom (provavelmente melhor até que o Xerez, lanterna da primeira divisão), com experiência de sobra para lidar com a luta pela promoção. O goleiro é Calatayud, que teve boa passagem pelo Racing de Santander em 2007. A defesa conta com Paco Peña, que já subiu quatro vezes de divisão em sua carreira (por Jerez – de Jerez de los Caballeros, não confundir com o Xerez, de Jerez de la Frontera –, Levante, Albacete e Murcia). Os volantes são Farinós, ex-Valencia, Internazionale e seleção espanhola, e Rufete, ex-Sevilla, Valencia e Espanyol. O ataque conta com Delibasic, ex-Benfica e seleção de Sérvia-Montenegro, e a dupla Tote e Portillo, criada no Real Madrid.

Para comandar esse grupo, foi contratado Esteban Vigo, que, como jogador, foi companheiro de Maradona e Schuster no Barcelona. Como treinador, “Boquerón” veio credenciado por montar o time do Xerez que conquistou o inédito acesso à elite na temporada passada.

Esse grupo experiente entendeu bem o que é preciso fazer na segunda divisão: arrancar todos os pontos possíveis em casa e evitar tragédias como visitante. E é isso que o Hércules tem feito. Em Alicante, venceu 11 jogos, empatou um e perdeu outro. Fora de casa, venceu apenas duas partidas, mas perdeu apenas duas também (foram oito empates). É a receita para uma campanha segura e consistente, sem oscilações ou sustos que possam criar crise de confiança.

Se mantiver o ritmo, o Hércules será promovido com relativa facilidade. E, se souber fazer a transição para a elite, é até candidato a não cair na primeira temporada na elite (ainda que seja arriscado dizer isso, pois os três caçulas da primeira divisão nesta temporada estão nas quatro últimas posições). Seria até justo pelo trabalho paciente e estruturado feito pelo time de Alicante.

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Equipe Trivela

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