
Foi uma temporada heroica. Não há predicado melhor para definir a façanha do Atlético de Madrid, campeão espanhol pela décima vez, a primeira em 18 anos. O exército de Diego Simeone enfrentou 38 batalhas para, enfim, vencer a guerra. O batalhão era limitado, e isso estava claro desde o início. Os rojiblancos conseguiram se superar na base da entrega, do suor, do sangue. Nem mesmo a perda de dois de seus comandantes em campo derrubou o time no épico decisivo. Cambaleante, o Atleti arrancou o sofrido empate por 1 a 1 contra o Barcelona, diante de 97 mil olhares atônitos no Camp Nou. Colocou a medalha no peito e volta para uma grande festa em Madri. Sua missão está cumprida.
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Diego Simeone nunca escondeu que, para ele, o Campeonato Espanhol tem um valor mais especial até do que a Liga dos Campeões. O glamour e a importância podem não ser tão grandes quanto no torneio europeu, mas o prêmio pelo esforço é bem maior. O Atlético precisou atravessar um ano inteiro com regularidade, mantendo um aproveitamento espetacular, para poder se consagrar. Nem mesmo os tropeços contra Levante e Málaga atrapalharam o triunfo dos colchoneros. Méritos de um time marcado pela superação a cada partida, contra um rival que teve uma campanha bem mais destacada pela queda de nível.
Apesar dos jogos muito abaixo do que seu elenco pode fazer, o Barcelona chegou à rodada final com chances de título. E o Atleti tinha plenas consciências disso. Enfrentava um adversário que não convenceu o suficiente, mas que mesmo assim tinha muito talento à disposição para arrancar a vitória decisiva. Aos rojiblancos, restava crescer contra os blaugranas dentro do Camp Nou. Não seria o mosaico enorme feito pela torcida catalã ou a presença de Messi do outro lado que os intimidaria.
A vantagem do empate não fez Simeone escalar uma equipe mais defensiva para a ocasião. Seu time já tinha sido bom o suficiente para não perder do Barça nos cinco jogos anteriores que fizeram na temporada. Durante os primeiros minutos de partida, a tensão era evidente, ainda que o Atleti equilibrasse as ações no ataque, tentando o gol que lhe desse tranquilidade. Contudo, recebeu duros golpes nos primeiros 22 minutos.
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Primeiro, foi Diego Costa quem sentiu. De volta ao time justamente para este jogo, o artilheiro se machucou sozinho, sentindo a coxa ao correr. Caiu no gramado e foi substituído, aos prantos no banco de reservas. Pouco depois, o Atlético perdeu outro protagonista. Arda Turan também se lesionou e as lágrimas caíram antes mesmo de sair de campo. No banco, Simeone mostrava a cara de preocupação, enquanto os torcedores dos rojiblancos se desesperavam nas arquibancadas. O baque foi sentido pelo time, sem os seus dois maiores guerreiros.
O Atlético ficou de joelhos. Nem tanto pelas entradas de Raúl García e Adrián, mas sim pelo abalo psicológico. E o Barcelona se aproveitou muito bem disso. Passou a dominar o jogo no meio-campo, botando os visitantes contra a parede. Não ameaçava tanto o gol de Thibaut Courtois, mas fazia a bola rodar, buscando uma mínima brecha. Ela veio aos 33 minutos, em linda trama que acabou em um chutaço de Alexis Sánchez, indefensável. A morte do Atleti parecia ter hora marcada, só esperando os 90 minutos se esgotarem.
Simeone, no entanto, não é o comandante de tantos jogadores marcados pela raça à toa. O técnico é importante por ter montado o esquadrão, mas principalmente por saber tirar o máximo de seus soldados. Exatamente o que conquistou no segundo tempo. O Atlético era outro, com a faca entre os dentes. O bombardeio à área do Barcelona começou, capitaneado por David Villa. O veterano esbarrou na trave. Ainda assim, os colchoneros conseguiram minar os blaugranas na fraqueza mais evidente durante toda a temporada, os ataques aéreos. Diego Godín se encarregou de dar o golpe fatal, em uma cabeçada certeira.
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A partir daquele momento, o Atleti tinha o que precisava, o empate que já lhe dava o título. Era o momento de confiar em sua principal virtude, a solidez defensiva, e se entrincheirar na própria área. Também, de desafiar o ataque do Barcelona, tão temido em outros tempos, mas que não parece ter o mesmo arsenal. Messi pouco fez, Neymar saiu do banco e mal apareceu. Quem se sobressaia era a muralha rojiblanca, bloqueando cada chute dos catalães. E, quando ela foi furada, Courtois apareceu para fazer grande defesa, em bomba de Daniel Alves de fora da área. O Atlético se fechou até o último instante. Para abrir um enorme sorriso ao apito final.
A comemoração misturava alegria e lágrimas. O esforço tinha sido recompensado, mas também deixado as marcas no corpo de boa parte dos soldados. Simeone aplaudia seus homens, reconhecendo tudo o que fizeram. Acabou jogado para o alto, festejado como o comandante que possibilitou a conquista. Agora, o Atleti tem uma semana para se recobrar. Em outra frente, a última batalha, para tentar vencer a guerra contra o Real Madrid e fazer história na Liga dos Campeões. Se conseguir, um dos maiores esquadrões dos colchoneros se eternizará ainda mais.
Formações iniciais
Destaque do jogo
A raça do Atlético de Madrid. Em uma campanha de 38 jogos, não dá fugir da principal qualidade da equipe para conquistar o título. A entrega do elenco de Diego Simeone é emblemática. Neste sábado, ela foi fundamental para recobrar o ânimo em busca do empate. O baque após as perdas de Diego Costa e Turan foi perceptível, mas os colchoneros renovaram suas forças para reverter a situação desfavorável e arrancar o resultado heroico. Depois, se entregaram ao máximo na defesa para segurar o empate. Soltaram o grito de campeão.
Momento chave
O intervalo. Não dá para saber o que Diego Simeone falou nos vestiários, mas é possível imaginar muito bem. A forma como o Atleti mudou sua postura foi notável, partindo para a pressão, em busca do gol que lhe daria o título. Villa carimbou a trave, a zaga do Barcelona ia bloqueando o bombardeio de chutes como dava. Até Godín marcar, de cabeça, o gol do título.
Os gols
33’/1T – GOL DO BARCELONA! Fàbregas domina no meio-campo e lança para Messi dentro da área. O camisa 10 se antecipa a Miranda e ajeita com o peito para Alexis Sánchez. Chute de primeira do chileno, rente à trave, sem tempo de reação para Courtois. Um golaço.
4’/2T – GOL DO ATLÉTICO! Escanteio pelo lado direito do ataque. Koke cruza em direção ao segundo pau, no meio da área. Godín sobe sozinho e cabeceia cruzado, longe de Pinto.
Curiosidade
Diego Simeone é o terceiro a conquistar La Liga como jogador e técnico do Atlético de Madrid. Em 1995/96, marcou um dos gols na vitória por 2 a 0 sobre o Albacete, que garantiu o título.
Ficha técnica
BARCELONA 1×1 ATLÉTICO DE MADRID
Barcelona
Juan Manuel Pinto, Dani Alves, Gerard Piqué, Javier Mascherano e Adriano; Sergio Busquets (Alex Song, 12’/2T), Cesc Fàbregas (Xavi, 32’/2T)e Andrés Iniesta; Alexis Sánchez, Lionel Messi e Pedro (Neymar, 17’/2T). Técnico: Tata Martino
Atlético de Madrid
Thibaut Courtois, Juanfran, Diego Godín, Miranda e Filipe Luís; Arda Turan (Raúl García, 22’/1T), Gabi, Tiago e Koke; David Villa e Diego Costa (Adrián, 16’/1T; José Ernesto Sosa, 27’/2T). Técnico: Diego Simeone.
Local: Camp Nou, em Barcelona
Árbitro: Antonio Mateu
Gols: Alexis Sánchez, 33’/1T; Diego Godín, 4’/2T
Cartões amarelos: Piqué, Messi, Busquets, Song e Mascherano (Barcelona); Godín, Tiago, Filipe Luis e Raúl García (Atlético de Madrid)
Cartões vermelhos: Nenhum





