Espanha

Os erros e acertos de Aragonés

Como esperado, a Espanha vai sem Raúl para a Eurocopa. Por tudo o que aconteceu no último ano e meio, era o lógico e coerente, ainda que o atacante do Real Madrid tenha feito uma excelente temporada. No entanto, isso não significa que a convocação de Luis Aragonés não tenha tido suas surpresas. E algumas decisões bastante discutíveis.

A estrutura do time foi mantida. No entanto, os prováveis reservas não passam muita confiança. Ou seja, a Espanha tem um elenco vulnerável como um todo, dependendo de mais de seus titulares em algumas posições. Uma situação perigosa para um torneio em que os times têm número limitados de jogadores.

Veja abaixo uma rápida análise, setor por setor, da seleção espanhola que vai à Áustria:

Goleiros

Convocados: Casillas (Real Madrid), Reina (Liverpool) e Palop (Sevilla)

É o setor em que os espanhóis podem ficar mais tranqüilos. Casillas é um dos melhores goleiros do mundo na atualidade e demonstra muita constância. Mesmo se algo ocorrer com ele, Reina é um substituto confiável. Ainda que falhe em alguns momentos, é um goleiro que cresce nos momentos decisivos. A convocação de Palop é a única que pode ser contestada. No entanto, é facilmente defensável. Há goleiros mais jovens que poderiam ir e ganhar experiência, como Valdés. No entanto, Casillas e Reina não são veteranos e dão a sensação de que a Espanha não precisa priorizar uma eventual renovação no setor. Aí, pode ser preferível contar com a experiência do camisa 1 do Sevilla.

Defensores

Convocados: Albiol (Valencia), Marchena (Valencia), Capdevila (Villarreal), Sergio Ramos (Real Madrid), Juanito (Real Betis), Fernando Navarro (Mallorca), Puyol (Barcelona) e Arbeloa (Liverpool/ING)

Nas laterais, a Espanha está bem servida. Pela direita, Sergio Ramos fecha bem seu lado e ainda é criterioso para decidir quando avançar. Só precisa conter um pouco o ímpeto faltoso. Na esquerda, Capdevila sempre foi constante (sobretudo pela capacidade no apoio), mas cresceu ainda mais na última temporada. O problema é o resto do setor, o que inclui até as laterais (quando se fala em opções). Puyol é um zagueiro menos seguro do que a torcida espanhola crê. Ainda assim, é a melhor figura do miolo de zaga. Albiol, Marchena e Juanito não inspiram confiança e podem comprometer. Além disso, Arbeloa e Fernando Navarro, reservas nas laterais, não têm a consistência e experiência exigida para uma Eurocopa. Se Sergio Ramos ou Capdevila não puderem jogar, a Espanha sentirá muito.

Meio-campistas

Convocados: Xavi (Barcelona), Iniesta (Barcelona), Fàbregas (Arsenal/ING), David Silva (Valencia), Xabi Alonso (Liverpool/ING), De La Red (Getafe), Marcos Senna (Villarreal) e Cazorla (Villarreal)

O meio-campo da Espanha é um desafogo. Pode-se reclamar da falta de um craque de nível internacional (Fàbregas caminha para isso, mas ainda precisa confirmar tal condição em uma grande competição), mas sobra talento. Prevê-se uma linha de quatro das mais interessantes, com Xavi, Fàbregas, Iniesta e David Silva. São jogadores criativos, que sabem se aproximar do ataque e fechar no momento de defender. No banco, Cazorla e De la Red não são dos mais experientes, mas, pelo que mostraram na última temporada, mereciam a convocação. O problema está na posição de volante que ficaria atrás dessa linha de armação. Albelda sempre foi o preferido de Aragonés, mas o jogador ficou meia temporada afastado no Valencia e só foi reintegrado ao elenco a quatro rodadas do final do Campeonato Espanhol. Fora de forma e sem ritmo de jogo, era uma temeridade chamá-lo. E Aragonés não errou ao deixá-lo de fora. O problema é que as opções que restaram não inspiram total confiança. Xabi Alonso é experiente e técnico, mas ficou contundido durante boa parte da temporada e é um jogador mais leve, que talvez se encaixasse melhor como reserva na linha de armação. Marcos Senna tem as características necessárias para ser esse volante fixo, mas o ex-corintiano não teve tantas oportunidades pela Espanha no último ano e não tem tanta familiaridade com os companheiros e com o 4-1-4-1.

Atacantes

Convocados: Fernando Torres (Liverpool/ING), Villa (Valencia), Güiza (Mallorca) e Sergio García (Zaragoza)

Fernando Torres fez uma temporada enorme no Liverpool e ganhou força como possível estrela mundial, deixando um pouco de lado a suspeita de que se trataria de mais uma farsa espanhola. Villa não teve uma temporada das mais felizes, como todo mundo no Valencia. No entanto, se posiciona e finaliza com extrema naturalidade quando está dentro da área. Além disso, pode ser reserva de Torres se houver apenas um atacante ou ainda fazer dupla com “El Niño”. Güiza é relativamente surpreendente, mas sua convocação se justifica pelo fato de ele ter sido o artilheiro do Campeonato Espanhol e viver grande fase desde a virada do ano. A polêmica é na escolha de Sergio García. O zaragocista não é mau jogador. Inteligente, ele sabe buscar o jogo no meio-campo para tabelar ou lançar os companheiros. No entanto, ele simplesmente não é tão bom assim para uma Eurocopa. Raúl seria, claro, a melhor opção. Mas, por tudo o que envolveria a ida do madridista à Áustria (clique aqui para entender), é compreensível que fique de fora. De qualquer modo, os espanyolistas Tamudo (que retorna de contusão, é verdade) e Luis García são jogadores muito mais incisivos, talentosos e bem sucedidos na seleção espanhola. Bojan, do Barcelona, também leva vantagem no talento e ainda poderia ganhar experiência. Seria uma opção válida, até porque o blaugrana mostrou naturalidade ao jogar em competições importantes.

Castigo merecido

Clubes médios como o Zaragoza fazem falta na primeira divisão. Eles têm capacidade de investimento para trazer algum bom jogador à liga, têm tradição e torcida para criar dificuldades aos grandes em algum momento e passam credibilidade técnica ao torcedor. No entanto, o Zaragoza mereceu cair.

Pela base que montou na temporada passada, os aragoneses teriam condições de lutar por um lugar na Copa da Uefa. Aliás, até na Liga dos Campeões, considerando o baixo nível técnico desta temporada. No entanto, conseguiram se enfiar em uma crise de confiança e de gerenciamento que impediram que vencessem equipes fracas como Valladolid e Recreativo de Huelva na luta contra o rebaixamento.

Os motivos da queda dos maños já foram tratados por essa coluna. De qualquer modo, vale a pena repisar alguns temas. Dá para trocar duas vezes de técnico na mesma temporada? Qual o objetivo de escolher um jogador claramente decadente como Ayala para o lugar Gabriel Milito? Não dava para procurar uma opção na armação, já que Aimar e D’Alessandro não estavam bem?

A única medida que teve efeito positivo foi trazer Ricardo Oliveira para dar uma ajuda no ataque, já que Diego Milito teve uma temporada infeliz. No mais, o Zaragoza fez tudo errado. Ficou mais preocupado nas movimentações políticas dentro do clube e perdeu o foco no resultado em campo. Caiu merecidamente. Vai fazer falta na elite, mas pode voltar rapidamente. Quem sabe isso não acontece depois de se reorganizar?
 

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Equipe Trivela

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