Orgulhos feridos

Vicente del Bosque era o amigão de todos. Juan Antonio Camacho era o durão com história por trás. Fabio Capello era o durão com mais história ainda por trás. Mariano García Remón e Juan Ramón López Caro eram os desconhecidos que não atrapalhariam ninguém. Manuel Pellegrini era o discreto e inteligente. Bernd Schuster era a estrela ascendente. Vanderlei Luxemburgo era a aposta inesperada. E José Mourinho é o supercampeão da moda.
Nos últimos oito anos, o Real Madrid já tentou trabalhar com técnicos dos mais diversos perfis. E nenhum deles foi capaz de criar uma relação plenamente saudável com a filosofia de trabalho do time. Alguns, por não fazerem o time jogar bonito como a torcida exige. Outros, por não conseguirem se impor em um elenco cheio de jogadores estrelados – e, muitas vezes, mimados. Mourinho parecia imune a isso, mas bastou uma derrota para o Barcelona na Liga dos Campeões para o velho fantasma voltar.
No rescaldo dos 2 a 0 do Barça no Santiago Bernabéu, o que eram críticas de parte da imprensa espanhola começou a se manifestar mais explicitamente dentro do clube. Pouco antes do primeiro treino após a partida, jogadores conversaram entre si sobre o modo como a equipe era montada pelo técnico português. As contestações, porém, se davam em voz alta, aparentemente propositalmente para os jornalistas presentes ouvirem. “É uma vergonha”, “não podemos voltar a jogar assim”, “esses sistemas fazem parecer que somos inúteis”.
É uma questão de orgulho. Alguns analistas criticaram a estratégia defensivista de Mourinho nos clássicos das últimas semanas por representar um apequenamento do Real Madrid. A ala descontente do elenco sente que o ataque é a eles próprios, pois jogar atrás significaria que eles não seriam capazes de superar o Barcelona em um jogo de igual para igual. A dificuldade em montar um esquema que encare o rival catalão é considerada uma falha do técnico, uma mostra de incapacidade.
Cristiano Ronaldo é um dos que mais contestam o técnico dentro do clube. Ele não esconde seu descontentamento por estar isolado em um esquema que prioriza a marcação. Como resposta, o treinador não o colocou na lista de convocados para a partida do último sábado, contra o Zaragoza. O descanso normalmente seria bem-vindo, mas o atacante não quer perder terreno para Messi na disputa pela artilharia do Campeonato Espanhol. Ficar de fora de uma partida em casa contra um time que luta para fugir do rebaixamento é uma baita oportunidade perdida.
A diferença do caso atual para os outros é que o treinador está com um lastro curricular muito grande. A maior parte da torcida e a diretoria do Real Madrid sabem que o português tem motivos para estar no comando do time e que pode acabar com o jejum de oito anos sem título da Liga dos Campeões. E aí, o alinhamento automático de cartolas e torcida com os jogadores fica abalado. Muitos defendem Mourinho, e a instabilidade começa a dar as caras.
Por enquanto, é um foco de tensão resultante de uma derrota em partida decisiva. Não significa que haja um rompimento definitivo, ou que não há mais clima entre comissão técnica (fiel a Mourinho) e jogadores. Até porque, se o Real vencer o Barcelona (mesmo com desclassificação), já pode criar um clima mais otimista para o futuro desse trabalho, até porque o contrato de nenhum dos personagens importantes da história se encerra agora.
Agora, uma nova derrota, com atitude frágil do Real, pode esquentar ainda mais o ambiente no clube…



