Espanha

O rei morreu. Viva o rei!

“O que será do Atlético de Madrid sem Fernando Torres?” No minuto seguinte à venda de El Niño para o Liverpool, a imprensa espanhola e a torcida colchonera começou a fazer essa pergunta. Como se o futuro do clube estivesse em risco, como se a esperança de o clube voltar a ser grande tivesse acabado, como se o Messias fosse para outro lugar antes de realizar seus milagres. Não demorou nem dois meses para essa sensação sumir. É a Agüeromania.

Sergio “Kun” Agüero está carregando o Atlético nas costas. Em seis rodadas do Campeonato Espanhol, o argentino já marcou cinco gols e assumiu a artilharia do campeonato ao lado do compatriota Messi. Para se ter uma idéia do que isso representa, na temporada passada inteira, Agüero marcou apenas seis gols no Campeonato Espanhol. E tal índice não se deve a uma anomalia estatística de um ou dois jogos. Cada um dos cinco gols foram marcados em jogos diferentes, sinal inequívoco de consistência e confiabilidade.

É nítido o crescimento do futebol de Kun. Para a torcida, esse início de temporada foi o suficiente para que fosse eleito o novo ídolo. A camisa de Agüero já é a que mais vende na loja oficial do Atlético de Madrid. O presidente do clube diz que prefere Kun ao barcelonista Messi. A imprensa trata o argentino como futuro craque internacional, projetando o potencial de crescimento técnico de um jogador de apenas 19 anos.

Há um certo exagero nisso tudo. Ou, no mínimo, precipitação. De qualquer modo, Agüero realmente é outro jogador em comparação ao que, há 12 meses, começava sua trajetória em Manzanares depois de estourar no Independiente. O atacante parece mais maduro, mais bem colocado taticamente e mais confiante.

Vários fatores contribuem para esse cenário. O mais relevante é o fato de o jogador ter disputado, em julho, o Mundial Sub-20 no Canadá. Um torneio em que Agüero foi a grande estrela, levando a Argentina ao título. A participação nesta competição deu mais confiança ao jogador, que se sentiu algo intimidado com o futebol europeu na temporada passada e precisava se sentir importante novamente para apresentar seu melhor futebol.

Além disso, o argentino não teve férias. Projetando para o final da temporada, é um dado bastante preocupante. No entanto, enquanto o estresse acumulado não se manifesta, Kun está em melhor forma física e técnica que os demais jogadores. O atacante está claramente mais rápido, com fundamentos mais calibrados e com nível de concentração acima da média. Resta saber até quando isso dura.

Outro fator importante para o crescimento de Agüero foi justamente a saída de Fernando Torres. Quando ambos faziam a dupla de ataque do Atlético, o espanhol era o ponto de referência e o time tinha de se adaptar a isso. O jogo era mais lançado, aproveitando as arrancadas individuais de El Niño. O argentino não se sentia tão confortável, até porque era obrigado a voltar ao meio-campo armar as jogadas em vários momentos. Kun até tem repertório técnico para isso, mas não é a função em que se sente mais confortável.

Com a saída de Fernando Torres e a chegada de Diego Forlán, Agüero ganhou um companheiro de ataque um pouco mais lento, que prefere cadenciar um pouco mais o jogo. Com isso, a aproximação entre ambos é facilitada e o argentino pode jogar mais à frente. Desse modo, quando ele recebe a bola e parte para jogadas individuais, está mais próximo ao gol adversário e fica mais fácil finalizar.

Desse modo, o atacante argentino tem conseguido, quase sozinho, conduzir o Atlético à reação. Depois de um início de temporada incerto, com dois pontos em três partidas da liga espanhola e a quase demissão do técnico Javier Aguirre, os colchoneros construíram uma série de quatro vitórias seguidas, com 12 gols feitos e nenhum sofrido. O futebol do time ainda não convence, mas o fato de já ter um novo ídolo dá esperança de que alguém pode reconduzir o clube de Manzanares à elite do futebol europeu.

Telespectadores na mão
Está difícil acompanhar o futebol espanhol pela televisão. A Sky comprou os direitos das principais partidas de cada rodada e pretendia vender o pacote em pay-per-view. No entanto, teve de cancelar transmissões na primeira rodada e, depois, adiar o plano do PPV. Enquanto isso, os canais ESPN transmitem apenas os jogos secundários da rodada. Nos noticiários, as imagens dos gols de algumas partidas são pobres, feitas com câmeras localizadas no nível do gramado. O torcedor brasileiro fica irritado, mas saiba que parte da culpa dessa confusão vem lá da Espanha.

Em 2006, a Sogecable comprou os direitos de transmissão do Campeonato Espanhol por três temporadas (ou seja, entre 2006/7 e 2008/9). Como a empresa possui apenas canais por assinatura, negociou com a Mediapro (dono da emissora La Sexta) para a transmissão de uma partida de cada rodada para a TV aberta. O acordo entre os grupos de mídia previa ainda as imagens de resumos da rodada e negociação para televisões de outros países.

Ao final da temporada passada, a Sogecable acusou a Mediapro de tentar puxar seu tapete e negociar separadamente com os clubes já para a temporada 2009/10. A empresa de TV por assinatura considerou esse um descumprimento do contrato assinado em 2006 e cobrou uma multa de € 58 milhões por descumprimento do acordo, além de retirada dos direitos da Mediapro sobre o Campeonato Espanhol 2007/8. A Mediapro não aceitou.

Desde então, as duas empresas brigam na Justiça pelo direito de transmitir a liga nacional e a Copa do Rei desta temporada. Há momentos caricatos, como seguranças contratados pela Sogecable impedindo a entrada da equipe da La Sexta nos estádios para realizar as coberturas.

Enquanto a disputa está em andamento, ninguém é dono dos direitos de um pacote de jogos previstos para a TV aberta. Houve casos em que nenhuma emissora pôde ir às cabines para fazer imagens “normais” do campo e a saída foi contar com câmeras na beira do gramado. Até no clássico Real Madrid x Atlético de Madrid, na primeira rodada, ocorreu isso.

As emissoras internacionais que têm o pacote de jogos em litígio acabaram ficando na mão. Para não prejudicar ainda mais os torcedores, a LFP (liga espanhola) se comprometeu a ela própria montar uma equipe para transmitir as partidas ao exterior enquanto o impasse não se resolve.

O problema é que a situação interna só se agrava. Na última semana, o canal La Sexta anunciou a transmissão de Real Madrid x Betis. Apresentadores e comentaristas ficaram no estúdio comandando o programa pré-jogo, enquanto a equipe de transmissão tentava entrar no Santiago Bernabéu. A diretoria do Real Madrid não deixou os jornalistas e equipe técnica entrarem no estádio, alegando que tinham de cumprir o contrato assinado com a Sogecable. Em cima da hora, o La Sexta cancelou a transmissão do jogo.

Esse fato provocou reação do governo. María Teresa Fernández de la Vega, vice-presidente da Espanha, enviou uma advertência às duas empresas, pois a briga levou ao descumprimento da Lei de Retransmissões Esportivas, que prevê que, no mínimo, uma partida de cada rodada do Campeonato Espanhol tem de ser transmitida por canal aberto. O que não ocorreu na 5ª rodada.

Ainda assim, parece pouco. Mediapro e Prisa (proprietária da Sogecable) são dois gigantes das comunicações da Espanha. A Prisa controla o El País (principal jornal de Madri), o As (segundo maior jornal esportivo espanhol), a Cadena SER (rádio) e o Canal Plus (TV por assinatura). A empresa ainda é dona de 15% das ações do jornal francês Le Monde e da rádio Caracol, a maior da Colômbia. A Mediapro tem grande penetração na produção cinematográfica espanhola, mas controla importantes canais regionais do país.

O primeiro-ministro José Luis Zapatero é acusado de ser próximo à Mediapro, mas não busca atritos com uma potência como a Prisa. O governo “morde e assopra”, sem tomar atitudes contundentes. Desse modo, o impasse não se resolve e o torcedor espanhol (e até de fora da Espanha) é que acaba sofrendo.

CURTAS

– O Barcelona lançou o projeto de modernização do Camp Nou. Será feito pelo premiado arquiteto inglês Norman Foster. Ele é famoso no meio do futebol por ter projetado o novo Wembley, mas é um dos mais importantes do mundo, com projetos como a restauração do Reichstad (Berlim), Millennium Bridge (Londres), sede da McLaren (Woking), Ponte Millau (França), Torre de Collserola (Barcelona) e sede do Commerzbank (Frankfurt).

– Para o Camp Nou, Foster imaginou criar uma camada externa, que uma cobertura e fachada com pequenos elementos coloridos. A inspiração seria na obra do arquiteto catalão Antoni Gaudí, que criou edifícios como a Sagrada Família, Parc Güell e Casa Milá, todos símbolos de Barcelona. Clique aqui para conhecer o projeto do novo Camp Nou.

– Um marroquino morador de Ceuta acertou sozinho os 15 pontos da loteria esportiva espanhola no fim-de-semana de 23 de setembro. O prêmio era de € 101.338, mas o apostador perdeu o volante.

– A administração de loterias na Espanha já anunciou: quem encontrar o papel com a aposta vencedora é dono do prêmio. E o rapaz marroquino ficará chupando o dedo.

– Veja a seleção Trivela da 5ª rodada do Campeonato Espanhol: Kameni (Espanyol); Cannavaro (Real Madrid), Alexis (Valencia) e Josetxo (Osasuna); Iniesta (Barcelona), Jonás (Mallorca), Martins (Recreativo de Huelva), Felipe Melo (Almería) e Deco (Barcelona); Rossi (Villarreal) e Agüero (Atlético de Madrid).

– Veja a seleção Trivela da 6ª rodada do Campeonato Espanhol: Casillas (Real Madrid); Sergio Ramos (Real Madrid), Fuentes (Villarreal), Garay (Racing de Santander) e Licht (Getafe); Juande (Betis), Cazorla (Villarreal) e D’Alessandro (Zaragoza); Messi (Barcelona), Henry (Barcelona) e Agüero (Atlético de Madrid).

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Equipe Trivela

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