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O que faz La Liga ser mais difícil para Barcelona e Real Madrid nesta temporada?

O Campeonato Espanhol é visto como um dos menos equilibrados do mundo, ao menos entre as grandes ligas. Era uma corrida de apenas dois cavalos, até que o Atlético de Madrid se enfiou entre eles e levou o título em 2013/14. Mesmo assim, parecia ainda haver uma distância grande para os demais. Nesta temporada, os gastos dos times médios e pequenos foram maiores e havia uma tendência a tornar a liga mais equilibrada. Depois de oito rodadas, é exatamente o que está acontecendo.

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O líder após a oitava rodada é o Atlético de Madrid, com 18 pontos, empatado com o Real Madrid, mas com vantagem no saldo de gols – em La Liga, o primeiro critério de desempate é o confronto direto, mas ainda não aconteceu o jogo entre ambos. Logo depois vem o Sevilla, com 17 pontos, seguido pelo Barcelona, quarto colocado, com 16, mesma pontuação do quinto, Villarreal. O sexto, Athletic Bilbao, tem 15. Ou seja: a diferença entre o primeiro e o sexto é de apenas três pontos.

“O Real Madrid e o Barcelona irão perder mais jogos nesta temporada”, afirmou Esteve Calzada, consultor da Prime Time Sport, empresa responsável pelo estudo Soccerex Transfer Review.  A conclusão é que a liga espanhola se democratizou, com mais times gastando e se reforçando mais, tornando-se, assim, mais competitivos.

A razão para isso é simples: a venda centralizada dos direitos de TV. A diferença entre Barcelona e Real Madrid (e mesmo o Atlético de Madrid) diminuiu. Mais do que gastar com transferências, o que mais fez diferença foi a capacidade dos times de manterem seus jogadores.

Isso foi possível graças ao chamado Real Decreto, que mexeu na forma como a negociação de TV era feita. A renovação de contrato fez com que o valor total aumentasse, mas também que a divisão ficasse menos desigual.

 

Nesta temporada, os times dividiram € 1,303 bilhão. Deste total, 22,8% foram para a dupla Barcelona e Real Madrid. Uma porcentagem ainda alta, mas menor que os 28,9% da última temporada e os 35% da temporada anterior, quando a negociação ainda era individual. Segundo Javier Tepas, presidente da liga espanhola (LFP), o objetivo a médio prazo é que nenhum clube receba quatro vezes mais que os rivais. Mais do que apenas dividir mais o bolo, há um critério para que isso aconteça. Todos os times dividem € 32,5 milhões igualmente, totalizando € 650 milhões (cerca de 50% do valor total). Outros € 324,8 milhões (24% do total) são distribuídos de acordo com o desempenho esportivo. Por isso, o Barcelona levou € 55 milhões pelo título, enquanto o Las Palmas recebeu € 800 mil. Por fim, a última parte do bolo, € 320,5 milhões, é dada por “implantações sociais”, por promover a liga. Neste aspecto, Barcelona e Real faturam bem mais que os demais: € 65 milhões para cada. O Barcelona foi o que mais gastou na janela de transferências no meio do ano, com € 123 milhões, seguido pelo Atlético de Madrid, com € 81 milhões. O terceiro e quarto colocados na lista são Villarreal (€ 56,3 milhões) e Sevilla (€ 56,2 milhões). O Real Madrid vem apenas em quinto, com € 30 milhões. Em 2014/15, os quatro clubes que mais gastaram no mercado de transferências (Barcelona, Atlético de Madrid, Real Madrid e Sevilla) representavam um total de 88,5% dos gastos de toda a liga. Na temporada seguinte, 2015/16, Barcelona, Atlético de Madrid, Valencia e Real Madrid, os quatro que mais gastaram chegaram a 72,5% dos gastos da liga. Nesta temporada, os quatro primeiros (novamente Barcelona, Atlético de Madrid, Villarreal e Sevilla) representaram 66,3% dos gastos. A porcentagem diminuiu porque os outros times também investiram.

Isso não quer dizer que Barcelona, Real Madrid e até o Atlético de Madrid estão ameaçados na disputa pelo título. Os três devem ser os candidatos e ficarão com a taça ao final da temporada, muito provavelmente.

A questão é que os concorrentes não devem ser apenas coadjuvantes das goleadas desses times. É claro que eventualmente elas acontecerão, como foi na oitava rodada. O que não deveremos ver mais é um dos times fazendo mais de 100 pontos, como já aconteceu algumas vezes na última década.

A longo prazo, a liga espera que mesmo o título desses três times seja ameaçado. Em princípio, só aguentar segurar a onda e não vender os destaques dos times médios ou pequenos já é motivo para se comemorar. Melhor para a liga, melhor até para o futebol do país.

Foto de Felipe Lobo

Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!). Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009, onde ficou até 2023.

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