Espanha

O diferencial?

Volte três anos no tempo. É final de 2007, começo de 2008. Kaká acabou de liderar o Milan a uma tranqüila vitória por 4 a 2 (o placar foi mais apertado que o jogo em si) sobre o Boca Juniors na final do Mundial de Clubes. Também não fazia tanto tempo que, com um futebol espetacular, levara um envelhecido Milan a eliminar com autoridade o Manchester United nas semifinais Liga dos Campeões. O título veio na decisão contra o Liverpool, e o jogador acabou o torneio como artilheiro. Para coroar o momento, ele recebeu a Bola de Ouro da France Football e de ser eleito o melhor jogador do mundo pela Fifa. Aliás, ganhou os dois prêmios de lavada: 44 pts x 277 de Cristiano Ronaldo para a France Football e 1247 x 504 de Messi na Fifa.

Lembrou-se? Lembrou-se do que você pensava na época? Ou do que se falava na época? Com Ronaldinho dando sinais de melancolia, ficava aberta a briga pelo posto de melhor jogador do planeta. Dizia-se que Kaká era mais completo que Cristiano Ronaldo e Messi, que armava e concluía, que aparecia nos momentos decisivos, que trabalhava melhor coletivamente, que era mais consistente. Tudo bem, tais análises tinham um toque de nacionalismo e eram precipitadas, pois o português e do argentino ainda estavam em ascensão. Mas, no final de 2007, início de 2008, muita gente (e você, leitor, talvez tenha sido um) colocava o meia do Milan como o maioral do futebol.

Desde então, Kaká não teve tanta sorte. Na segunda metade da temporada 2007/08, o Milan caiu nas oitavas de final da Liga dos Campeões e acabou em quinto na Serie A. Na temporada seguinte, o Milan caiu na segunda fase da Copa Uefa e foi terceiro no Italiano. O brasileiro já dava sinais de problemas físicos. No Real Madrid, em 2009/10, atuou em apenas 25 dos 38 jogos do time no Campeonato Espanhol. Ficou de fora de muitos jogos por contusão e a imprensa espanhola chegou a acusar o jogador de atrasar seu retorno pelo clube para estar bem na Copa do Mundo. Ah, e, no Mundial, Kaká não fez gol algum, apesar de ter atuado bem para quem estava no sacrifício.

Hoje, em janeiro de 2011, a imagem que se tem de Kaká é a dos últimos três anos. Do jogador que não é fisicamente confiável, que não foi capaz de liderar um Milan decadente ou um Real Madrid que precisava superar um Barcelona quase insuperável. Mas não é preciso ir longe para se encontrar um dos melhores jogadores do mundo, um meia que acelera o jogo de sua equipe como um dínamo, que chuta bem de fora da área, que chega para concluir, que arma o jogo, que aparece em jogos decisivos.

É nisso que José Mourinho pensou quando disse que o retorno de Kaká seria a grande contratação do Real Madrid no inverno, e que ninguém teria uma contratação desse porte. Relatos de pessoas próximas ao jogador dão conta que a demora na volta aos gramados se deve a uma verdadeira intenção de resolver completamente os problemas físicos do jogador, evitando agravamento por precipitação (mais detalhes em reportagem de Luís Augusto Simon na revista ESPN deste mês).

Só que não basta ter Kaká em condições físicas ideais. É preciso saber como utilizá-lo. Na temporada passada, Manuel Pellegrini teve esse problema. Demorou a encontrar um modo de colocar o brasileiro e Cristiano Ronaldo no mesmo meio-campo. Mourinho teve mais sorte. Primeiro, montou uma equipe em que isso se tornaria mais fácil. Depois, teve um jogador contundido que naturalmente abrirá espaço.

O Real Madrid joga com três jogadores na armação: Cristiano Ronaldo pela esquerda, Özil pelo meio e Di María pela direita. Em princípio, Kaká entraria no meio, com Özil substituindo Di María na direita. Com o grande futebol apresentado pelo argentino desde novembro, a mudança automática passou a ser a saída do alemão. Qualquer que fosse a formação adotada, é um time leve, dinâmico e técnico.

No entanto, Higuaín sofreu uma grave contusão que o tirará dos gramados por três meses. Benzema, seu reserva, não inspira confiança. Na realidade, ele tem sido daqueles centroavantes que aparecem bem em jogos pouco importantes, mas somem nos momentos decisivos. Assim, Mourinho tem uma opção muito simples: Cristiano Ronaldo vai ao ataque, com o trio Özil-Kaká-Di María se responsabilizando pela criação.

Pela quantidade industrial de gols que vem fazendo, Cristiano Ronaldo pode muito bem ficar como atacante. Já exerceu, com sucesso, essa função no Manchester United. Ele não seria um centroavante fixo, mas pode trabalhar na frente com naturalidade. Se o meio-campo não funcionasse, o português é recuado e Benzema assume o ataque. E, na reta final, Higuaín está de volta.

Considerando que o Real Madrid tem 22 vitórias, quatro empates e duas derrotas (uma delas do time reserva, em duelo mata-mata cujo jogo de ida terminara em 8 a 0) na temporada, a melhora no time não teria como produzir resultados melhores que os já conquistados. Mas ela pode dar o que o time precisa para vencer o Barcelona em 17 de abril, no confronto direto que pode decidir o título espanhol. E também em eventual reencontro com os catalães pela Copa do Rei e a Liga dos Campeões.

Se o Kaká de 2011 é o mesmo de 2007, é perfeitamente cabível a tese, e o Real se torna candidato ainda mais viável aos títulos que disputa. Aí, o brasileiro nem precisa ser comparado com Cristiano Ronaldo, Messi ou Val Baiano. Ele já terá sido fundamental para atender às expectativas do torcedor.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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