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O Barça x Real vale mais que a rivalidade

Barcelona x Real Madrid é sempre um evento importante. Era mesmo em 1996, temporada em que o Real fez uma campanha ridícula e não conseguiu vaga nem na Copa da Uefa. Era também em 2007/08, quando os madridistas foram campeões com o pé nas costas, abrindo 18 pontos dos Barça. Nas últimas temporadas, a criação de dois supertimes, os dois melhores do mundo no imaginário do torcedor normal, ajudou a acirrar essa rivalidade. Um cenário que estará ainda mais quente neste domingo, no Camp Nou. Mas por motivos que vão além da rixa entre merengues e blaugranas.

O Barcelona lidera o campeonato com 100% de aproveitamento após seis rodadas. O Real Madrid já tropeçou além da conta, com um empate em casa e duas derrotas, e ficou oito pontos atrás dos catalães. Já há quem diga que a diferença é “intirável” e que os blaugranas já podem encomendar a faixa. Ou seja, esse jogo é uma decisão precoce? Não, é muito cedo. Faltam mais de 30 rodadas e nem uma vitória barcelonista deixa a liga decidida.

O Real Madrid se deu melhor nas duas últimas disputas diretas. Bateu o rival no Camp Nou para praticamente assegurar – e, de fato, confirmou a tendência rodadas depois – o título espanhol na temporada passada. E, em agosto, superou os culés na Supercopa da Espanha nos gols fora de casa (cada time venceu um jogo). Ou seja, o duelo de domingo é a revanche? Não, porque o Barcelona sabe que essa partida de início de campeonato não tem o valor decisivo da derrota da temporada passada e que a Supercopa da Espanha vale mais pelo orgulho do que pelo valor esportivo em si.

O que faz desse Barcelona x Real diferente dos demais é que as duas equipes têm questões que se arrastam discretamente desde o início da temporada, mas que estão prestes a se transformar em problemas reais. Uma derrota para o maior rival pode ser a faísca que falta.

O caso mais evidente é da crise nos vestiários merengues. Já ficou claro que a maior parte do grupo e José Mourinho andam se estranhando. Cresce a desconfiança sobre certas decisões do técnico, que estaria privilegiando jogadores de seu empresário e acabaria rifando membros do elenco por conta disso. Não é coincidência que, em duas semanas, Casillas e a imprensa madridista tenha demonstrado apoio a Kaká e Sergio Ramos tenha feito o mesmo com Özil. O espaço que o meia brasileiro tem ganhado no time desde o amistoso contra o Millonarios é um reflexo disso, uma forma de esfriar os ânimos.

Uma derrota agravaria a situação, até porque se daria para um time cheio de espanhóis, feito em casa. Mais que os 11 pontos que o Real teriam de desvantagem, essa questão pode dar mais força ao grupo de espanhóis do elenco merengue e aumentar os problemas com Mourinho, os portugueses e os demais agenciados por Jorge Mendes.

Do lado catalão, o problema é o que os números não mostram. O Barcelona tem 100% de aproveitamento nas principais competições que disputa (La Liga e Liga dos Campeões), mas o futebol não tem convencido tanto quanto nas temporadas anteriores. A defesa tem dado muitos espaços, sobretudo quando o adversário faz uma transição rápida para o ataque quando recupera a bola. Spartak Moscou e Sevilla fizeram a festa nesses buracos e poderiam ter vencido os culés.

Por mais que represente uma continuidade do trabalho anterior, é inegável que o Barcelona de Tito Vilanova terá diferenças do de Pep Guardiola. E é natural que surja instabilidade com a troca de comando, e essa falta de segurança em alguns momentos pode ser um sinal disso. Uma vitória sobre o rival não dá o título antecipado, mas pode dar o pouco de confiança que falta para a comissão técnica e o elenco decolarem nesse novo projeto. E uma derrota pode expor as oscilações que os números estão mascarando.

São questões internas dos elencos, que talvez passe batido ao público que só pensa mesmo na história dos dois clubes e nos craques que estarão em campo. Mas esse Barcelona x Real pode engatilhar uma série de acontecimentos no vencedor e no perdedor. E não apenas por ganhar ou perder moral pelo resultado final.

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Ubiratan Leal

Ubiratan Leal formou-se em jornalismo na PUC-SP. Está na Trivela desde 2005, passando por reportagem e edição em site e revista, pelas colunas de América Latina, Espanha, Brasil e Inglaterra. Atualmente, comenta futebol e beisebol na ESPN e é comandante-em-chefe do site Balipodo.com.br. Cria teorias complexas para tudo (até como ajeitar a feijoada no prato) é mais que lazer, é quase obsessão. Azar dos outros, que precisam aguentar e, agora, dos leitores da Trivela, que terão de lê-las.

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