O agitador
/https%3A%2F%2Ftrivela.com.br%2Fapp%2Fuploads%2Fhttps%3A%2F%2Ftrivela.com.br%2Fapp%2Fuploads%2F2010%2F11%2Fimg_10826_jose-mourinho-inicia-mais-um-desafio-na-carreira.jpg)
José Mourinho parece sempre um sujeito sério, sisudo, elegante. Passa até uma imagem conservadora. Por isso, é difícil imaginar que adore o Drakkar, uma banda portuguesa de heavy metal, e toque a música “Vingança do Dragão” no vestiário para seus jogadores ouvirem antes dos jogos. A letra fala de árduas batalhas, companhia de bravos guerreiros e conquistas de novos mundos, sem deixar de citar a mitologia escandinava (é heavy metal, né?).
Tudo bem, até se encaixa com o espírito de luta que os jogadores precisam ter antes de um jogo, mas não parece ter tanto a ver com o trabalho do técnico lusitano. Talvez ele entre na sua sala ao final de cada treino, vá ao “j” de John Lennon em seu iPod e relaxe ouvindo “We're playing those mind games together / Pushing the barriers, planting seeds / Playing the mind guerrilla / Chanting the mantra, peace on earth / We all been playing those mind games forever…”
É difícil encontrar no futebol europeu algum personagem que goste tanto de usar suas ações e declarações pensando unicamente na reação que pode ter nos demais. Não importa se é para chocar, provocar, tirar de si a responsabilidade, desestabilizar, promover o espetáculo ou simplesmente mudar o foco da discussão. O importante é mexer com o psicológico dos outros para atingir seu objetivo.
A última semana teve dois exemplos claros desse modus operandi. Primeiro, nas vésperas do encontro contra o Murcia pela Copa do Rei. O torneio vem perdendo importância ano a ano, mas ainda tem valor para Mourinho. É a possibilidade mais realista de fechar seu primeiro ano na Espanha com um título – e um que o Real não vence desde 1993. Mais que isso, é o caminho mais explícito de mostrar que seu trabalho já foi superior ao de seu antecessor, Manuel Pellegrini (o Real desta temporada talvez fique atrás do Barcelona, talvez faça menos pontos que os 96 – recorde para o clube – de 2009/10 e talvez caia nas oitavas da Liga dos Campeões – porque depende do sorteio –, mas certamente não cairá na Copa do Rei tomando de 4 a 0 do Alcorcón ou similar).
Desse modo, o português não deu de ombros à partida contra o Murcia. Depois de empatar por 0 a 0 no sul, o Real precisava de uma vitória simples. Mas Mourinho escalou um time quase titular e disse que o título da copa é uma das metas. Resultado: a diretoria baixou o valor dos ingressos, a torcida se agitou e os merengues meteram 5 a 1 diante de 75 mil torcedores. Na mesma noite, na mesma cidade, apenas 5 mil pessoas foram ao Vicente Calderón ver o Atlético de Madrid eliminar a Universidad de Las Palmas (tudo bem que o jogo de ida foi 5 a 0 e a vaga estava mais que decidida, mas os colchoneros são fanáticos e fiéis). Com uma atitude do treinador, a Copa do Rei virou importante para o Real. E um jogo morto se transformou em gloriosa goleada que ajudou a manter o embalo da equipe.
Dois dias depois, outra bomba verbal de Mourinho explodiu. Na realidade, uma que ele havia disparado ainda em setembro, mas teve efeito retardado. Na quarta rodada, o Sporting de Gijón colocou alguns reservas para enfrentar o Barcelona no Camp Nou. O motivo alegado foi dar ritmo ao pessoal que fica no banco, além de poupar os titulares (era a rodada do meio de uma série de três em oito dias). O Barça não vinha bem ainda e sofreu para fazer 1 a 0. No dia seguinte, o treinador do Real acusou o Sporting de dar a partida de presente aos catalães.
Gijoneses e merengues tinham duelo marcado para este domingo. E os sportinguistas resolveram se manifestar. Manolo Preciado, técnico do Sporting, chamou o colega de “canalha” e disse que, por sua língua solta, iria encontrar “um forno ardente”, em referência ao clima que os madridistas encontrariam no estádio El Molinón. A direção merengue rebateu, lamentando o comportamento de Preciado.
De fato, a partida foi quente. A torcida foi muito mais agressiva com os visitantes que o normal, o que passou para o campo. Houve várias jogadas ríspidas dos dois lados e o Sporting mostrou um espírito de luta notável. Perdeu por 1 a 0, gol de Higuaín a nove minutos do fim, mas o jogo poderia ter placar mais generoso (desde que mantendo a diferença apertada). Após a partida, as comissões técnicas se encontraram no estacionamento do estádio. Mourinho fez um “V” de vitória para Preciado, que não gostou e partiu para a discussão.
O Real sofreu desnecessariamente, mas Mourinho mostrou como não passará batido o clube que poupar jogadores contra o Barcelona. E ainda deu uma causa para motivar seus torcedores e jogadores, transformando um fato aparentemente trivial em mais uma história de superação.
Esse tipo de atitude não é novo. Ele fez quando dirigia o Porto e desfazia do Benfica, quando se intitulou “The Special One” na época de Chelsea e quando acusou a imprensa italiana de “prostituição intelectual” ou cutucava Cláudio Ranieri, então técnico da Juventus. Em todos esses casos, ele estava preparado para absorver a polêmica, enquanto montava times vencedores. É o que ele já começa a fazer em Madri.