Parece que Piqué cometeu um contra o . Pelo menos é a sensação que passa a quem vê as manchetes dos dois grandes esportivos de Madri. Ele aceitou mala preta? Ele entregou o jogo para favorecer uma máfia de apostas clandestinas do Sudeste Asiático? Ele burlou as regras sem que o árbitro percebesse? Ele usou termos racistas para desestabilizar um adversário? Nada disso. Ele apenas forçou o cartão amarelo para ficar suspenso na próxima partida e estar em condições de jogo para o clássico contra o Real Madrid.

Pode-se condenar o zagueiro pela atitude antiética, ainda que esse expediente tenha surgido dois minutos depois de a Fifa criar o sistema de cartões amarelos e vermelhos para advertir . De qualquer modo, a questão não é essa. É que, há exato 1 ano e uma semana, o Real Madrid fez a mesma coisa em uma partida contra o Ajax pela Liga dos Campeões. Já vencia por 4 a 0 (e garantia a primeira posição do grupo com uma rodada de antecipação) quando Xabi Alonso e Sergio Ramos forçaram seus segundos amarelos para cumprirem suspensão na última rodada e, claro, ficarem limpos para as oitavas de final.

É de se entender se o torcedor deixa de lado a coerência para defender seu , mas os meios de comunicação poderiam ter um pouco mais de pudor ao comprar um lado no que virou a briga Real Madrid x Barcelona nas últimas temporadas. E a crítica não vai apenas aos jornais madrilenos. Os barceloneses teriam a mesmíssima atitude se necessário fosse. Ninguém é santo nessa história.

Em princípio, isso soa como um tema menor, pois se trata apenas da suspensão ou não de Piqué neste fim de semana. No entanto, serve como um pequeno elemento de algo maior: como o maniqueísmo da imprensa esportiva espanhola tem ajudado a manter o atual estado das coisas no futebol espanhol, na autoproclamada “Liga das Estrelas”.

Por mais que os jornalistas saibam (e eles sabem) que há situações que deveriam ser debatidas, o importante é defender os interesses do clube que ajuda a pagar as contas. Se o jornal é de Madri, o Real. Se é de Barcelona, o ça. Os jornais regionais têm comportamento parecido, mas o alcance é local e acabam tendo influência quase zero. Nesse cenário, o que se entende por “boa prática do jornalismo” fica de lado.

O Brasil, com todos os seus problemas (e a imprensa esportiva tem vários, muitos deles vistos nesta quinta, na patética entrevista coletiva de apresentação de Ronaldo como “conselheiro” do COL-2014), não sofre tanto com isso. Torcedores cariocas e paulistas reclamam da atuação da Flapress e da Timãopress.

Em muitos momentos, têm razão. Flamengo e Corinthians têm uma presença na mídia desproporcional e muito maior do que há uma década. É a lógica do mercado falando: quem vende, aparece. Essa mesma lógica, porém, faz que esses dois também sejam superexpostos em momentos ruins. Tanto que, entre quem não tem ligação com a CBF ou os dois clubes, houve muitas críticas ao novo modelo de negociação de direitos de TV do Brasileirão. Um sistema que tende a aumentar a diferença econômica de Fla e Corinthians em relação aos demais clubes.

Na Espanha, apenas veículos independentes na área esportiva (jornais gerais, que não dependem dos cadernos de esportes para se sustentar, como o El País) levantam de verdade temas como os exageros surgidos nas disputas entre os dois gigantes locais. E mantém a coerência a ponto de não defender um código de ética liberal para um clube e um muito mais rigoroso para o outro.