Espanha

Não priemos cânico

O Barcelona é o atual campeão europeu – o que, na cabeça dos europeus, significa dizer que é o melhor time do mundo –, tem o favorito a título de melhor do mundo em 2009 e manteve sua base para esta temporada. O Real Madrid contratou Kaká e Cristiano Ronaldo para estar à altura do rival. Isso não é novidade, como também não é novidade que a torcida e a imprensa esperam que essas duas equipes atropelem tudo o que passe pela frente. Assim, como explicar derrotas em casa na Liga dos Campeões para adversários que, em teoria, não vinham botando muito medo?

É muito tentador escrever uma enorme tese desancando as duas equipes, falando sobre uma eventual decadência do Barcelona e de Messi, de como Ibrahimovic não encaixou no esquema e que Guardiola foi fogo de palha. Igualmente tentador seria decretar o fracasso dos galáticos, que estariam repetindo a trajetória da gestão anterior de Florentino Pérez. Mas… mas o mundo não vai acabar amanhã e as análises não devem ser definitivas.

Contra o Rubin Kazan, o Barcelona usou uma parte de sua cota de mau futebol que todo time tem por temporada. Apática e assoberbada, a equipe catalã não digeriu bem o gol que sofreu logo no início do encontro. Até tentou a reação, mas pareceu desligada, sem o nível de concentração necessário para um jogo da Liga dos Campeões. O que não significa que os Culés tenham perdido seu favoritismo na competição.

Foi isso que os jogadores quiseram mostrar na partida contra o Zaragoza, no último domingo. Como um lobo faminto, o Barça foi para cima da presa sem pudores. O 6 a 1 do placar serviu como recado a todos do que os blaugranas ainda são capazes de fazer em campo. E, mesmo com a derrota para os russos dias antes, não há motivos para achar que o time campeão europeu na temporada passada deixou de ser competitivo.

O caso do Real Madrid é diferente. Os resultados de início de temporada podem ter dado uma falsa impressão, mas a equipe de Chamartín ainda está em formação e é normal que alguns deslizes ocorram. Kaká varia atuações muito boas com outras em que não encontra seu lugar em campo. Cristiano Ronaldo tem sido mais decisivo, mas se contundiu. E o resto do time precisa de entrosamento e ritmo para atuar em nível semelhante ao do rival da Catalunha.

Contra o Milan, houve um erro básico de estratégia. Depois de abrir o marcador em um gol dado de presente por Dida, o Real Madrid tinha de cadenciar a partida. Mas os espanhóis fizeram o contrário. Entraram no ritmo acelerado proposto pelo Milan e o jogo ficou aberto. Aí, a falta de consistência defensiva dos madridistas ficou mais saliente, e o fato de os milanistas terem talento (por mais bagunçado que seja o time coletivamente) tornou o duelo caótico.

O resultado teve forte impacto na confiança merengeue. No empate sem gols com o Sporting Gijón, no sábado, a equipe pareceu fragilizada psicologicamente, sem força para ousar diante de um adversário limitadíssimo tecnicamente.

Pensando em longo prazo, os dois gigantes espanhóis devem se reencontrar. Passar de fase na Liga dos Campeões continua sendo algo provável. Assim, os maus resultados devem servir mais de alerta para o futuro, não como sinal de que o trabalho já estaria comprometido.

Reformular, reformular, mudar ou…

Qualquer irritação foi pouca. O torcedor do Atlético de Madrid tem todos os motivos do mundo para estar descontente com sua equipe. Não apenas pelo empate diante de um Mallorca com nove jogadores, mas pelo fato de isso fazer parte de uma temporada para lá de discreta. Em cerca de dois meses, o time conseguiu estar virtualmente eliminado da Liga dos Campeões e brinca de perambular perto da zona de rebaixamento do campeonato doméstico. É esse o clima que encontra Quique Sánchez Flores.

A situação na margem do Manzanares é complicada. A diretoria, acreditando mais na mística do clube do que em projeto com cabeça, tronco e membros, apostou em Abel Resino para comandar o time na temporada. O técnico teve bons momentos e, como goleiro, havia sido identificado com o clube. No entanto, faltava experiência para segurar a crônica pressão do Vicente Calderón. Considerando que a equipe da temporada passada já era uma bagunça, o treinador precisava fazer muita coisa.

Não deu certo. A equipe continua igual a das duas últimas temporadas. Ou seja, até tem algum talento, mas não vale o preço que a diretoria pagou para montá-la – nem tem o poderio que a torcida imagina. Na frente, Forlán e Agüero seguram as pontas. Maxi Rodríguez é um bom meia e o resto do time é composto por “cumpridores”.

O Atlético, para ser grande como imagina, precisa de mais. Enrique Cerezo, presidente do clube, afirmou que a equipe atual é limitada porque a diretoria priorizou a manutenção da dupla de ataque, mesmo que isso significasse abrir mão de propostas milionárias. Meia verdade, porque foi gasto muito dinheiro em outros jogadores.

O que falta aos colchoneros é uma política estruturada para desenvolver jogadores em casa e identificar talentos baratos em outras equipes. Justamente o que sobra a Sevilla e Valencia. A contratação de Sánchez Flores tem esse significado. Como técnico do Valencia, ele montou uma equipe competitiva – com Villa e David Silva, por exemplo – sem gastar tanto dinheiro. Além disso, o time tinha padrão de jogo, mesmo que não fosse um esquema tático dos mais criativos.

O problema é que, nos últimos anos, o treinador parece ter “perdido a mão”. Sua última temporada no Mestalla foi muito atribulada, com a torcida o pressionando muito pelo futebol apático do time. Depois, passou pelo Benfica e sofreu do mesmo mal: equipe que não convencia e apresentava dificuldades crônicas de dominar a defesa adversária.

Sánchez Flores pode recuperar seu caminho e fazer um bom trabalho no Vicente Calderón. No entanto, mais do que montar um esquema de jogo, ele precisará comandar uma reformulação em boa parte do elenco colchonero. Algo complicado para uma temporada que ainda está começando, mas já teve uma quantidade grande de decepções.

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Equipe Trivela

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