Não há mocinho nesta história

Depois de um silêncio estratégico, Robinho resolveu falar. E foi cirúrgico. Deixou absolutamente claro que não quer ficar no Real Madrid, abrindo as portas para uma negociação com o Chelsea. O brasileiro foi tão certeiro que nem deu para colocar a declaração na conta dos exageros do Marca. O Real Madrid não hesitou. No mesmo dia, colocou em seu site um comunicado em que liberava o jogador caso fosse paga a multa rescisória. A torcida do clube acompanhou a diretoria e repreendeu o meia-atacante em seu primeiro treino na temporada.
O comportamento dos madridistas é até compreensível neste caso. Não há justificativa para a decisão do jogador. Ele teve as oportunidades que mereceu e, se não se tornou titular absoluto e indiscutível dos Merengues, foi porque não teve um futebol consistente e com continuidade em Chamartín. Seus bons momentos justificavam o status de fora-de-série com o qual chegou a Madri. Mas as atuações brilhantes se revezaram com desempenhos apagados.
De qualquer modo, Robinho ainda seria um jogador importante ao Real Madrid. Schuster soube trabalhar com o ex-santista, sobretudo no caso do atraso da reapresentação após defender o Brasil contra Colômbia e Equador nas Eliminatórias. A imprensa e a torcida pediam punições duras, mas o alemão resolveu a questão internamente, o que até ajudou o meia-atacante a entrar em uma de suas boas fases.
Ainda que o clube tenha contratado Van der Vaart e flertasse com Cristiano Ronaldo, era provável que o brasileiro tivesse espaço. Sneijder e Robben, mais o segundo, se contundem com alguma facilidade e não têm tanto carinho da torcida merengue. Bastava a Robinho mostrar que pode ser melhor que os companheiros de posição.
O que o brasileiro e seu empresário, Wagner Ribeiro precisam entender que está passando a hora que o jogador tem para estourar definitivamente e se tornar um dos melhores do mundo. Por enquanto, ele ainda é um grande talento que não se consolidou definitivamente. O problema não é o Real Madrid ou o Chelsea, mas o próprio meia-atacante. Por isso, pressionar a saída desse modo é injustificado. Ele tem contrato a cumprir e o Real Madrid não fez nada que merecesse um rompimento imediato do acordo.
A situação só não é mais clara porque o Real Madrid também não é inocente. No caso, o clube não errou com Robinho, mas seu modus operandi no mercado é tão agressivo quanto o que o brasileiro tem usado para deixar a capital espanhola. Assim, não dá para dizer que os merengues sejam vítimas de um “jogador malvado e sem consideração orientado por seu empresário demoníaco”.
A própria ida de Robinho ao Real já foi parecida. O clube acertou com o jogador e o convenceu a forçar sua saída do Santos, que queria mantê-lo por mais um ano. O meia-atacante chegou a se trancar em casa para obrigar o Santos a aceitar os US$ 30 milhões oferecidos pelos espanhóis, que equivaleriam à participação do Peixe na multa rescisória.
Foi mais ou menos desse jeito que os madridistas tentaram tirar Cristiano Ronaldo do Manchester United. Acertaram com o jogador e o fizeram dar declarações insistentes na imprensa de que estaria “descontente”, “infeliz”, “com vontade de comer paella” ou qualquer outra coisa que servisse de argumento para ir a Madri. Sempre com colaboração da imprensa madrilena. Os red devils bateram o pé e mantiveram o português, mas chegaram a acusar – com razão – o Real Madrid de aliciamento.
O expediente não é novo em Chamartín. Kaká, Figo e Heinze também foram alvos dos merengues, que não tiveram pudor em passar por cima dos clubes aos quais pertenciam os jogadores. No caso, Kaká acabou ficando no Milan, mas Figo e Heinze foram efetivamente a Madri. No momento, esse assédio agressivo é utilizado com Cazorla, do Villarreal, e Villa, do Valencia.
Desse modo, Robinho até está errado no modo de tentar sair do Real Madrid. Mas não é errado dizer que o clube está apenas sentindo o gosto de seu próprio veneno. Isso significa que Robinho está certo em sair? Ou que ele deveria ficar? Nem uma coisa, nem outra. Isso é algo que clube, jogador e empresário têm de resolver entre eles. O Real Madrid não vai acabar se perder o jogador, que ainda tem tempo para construir sua carreira. É só uma constatação de como, na lógica do mercado de futebol, não há mocinhos e bandidos. Apenas um monte de gente pensando em seus interesses.
Valencia x Real
A Supercopa da Espanha não serve de parâmetro para muita coisa. Ano passado, o Sevilla passou por cima do Real Madrid. No resto da temporada, os madridistas caminharam tranqüilamente para o título, enquanto que os sevillistas se contentaram com a classificação para a Copa Uefa. Ainda assim, há um sinal bastante preocupante na vitória por 4 a 2 do Real Madrid sobre o Valencia.
O problema não foi o placar em si. Para um Valencia em instabilidade político-administrativa, perder do Real Madrid no Santiago Bernabéu é naturalíssimo. O difícil de entender é como isso ocorre quando se joga pelo empate (o jogo de ida foi 3 a 2 para os ches), está com dois jogadores a mais em campo e tem o placar favorável.
No primeiro tempo, David Silva abriu o marcador e Van der Vaart foi expulso. Depois do intervalo, Van Nistelrooy empatou a partida, mas foi expulso depois. O cenário era favorável aos ches, que conseguiram tomar três gols de uma equipe com nove jogadores. Apenas nos minutos finais veio o segundo gol valencianista.
Uma derrota nessas condições deixa marcas. No caso do Valencia, que já convive com instabilidade interna, é prelúdio para uma crise prematura. O moral do elenco foi para o subsolo depois da partida. Além disso, já surgem notícias de ruídos na comunicação entre Unai Emery, técnico do time, e Vicente Soriano, novo presidente.
Se o clube continuar quabrando mais vasos ao invés de juntar os cacos que já estão pelo chão, será difícil fazer uma boa temporada. E potencial para isso haveria.



