Espanha

Mou flamejante, parte 2

“Ele deixa-se querer.” É essa expressão, que não diz nada do ponto de vista jornalístico, que o Marca usa para dizer que algum jogador estaria perto do Real Madrid. O modo como ela aparece é simples. Digamos que “ele” seja um grande jogador que não pertence ao clube merengue, como Rooney. Algum repórter do diário esportivo pergunta o que ele acharia de defender o Real. A resposta é a mesma que qualquer jogador daria se referindo a qualquer grande clube: “É um grande clube quem qualquer um gostaria de defender um dia”. Pronto, é o suficiente para se tratar como prova cabal de desejo incontido de vestir o branco e azul-marinho da equipe de Chamartín.

Se é assim, então dá para o Marca dizer que José Mourinho “deixa-se não querer” pelo Real Madrid. O Marca não o faz, claro, mas é mais ou menos o que tem acontecido nos últimos tempos no Santiago Bernabéu. Mourinho gosta de ser técnico do clube, sabe que é a oportunidade de chegar em um ponto de sua carreira que nenhuma outra equipe permitiria por toda a repercussão que envolve o Real – e seu sonho de vencer na Espanha. Mas é fato que o português está louco para arrumar encrenca com certas figuras dentro da direção merengue.

O técnico deixou vazar a membros da imprensa que cogita a hipótese de mudar de ares ao final da temporada. Esperto, sabe como mexer suas peças no tabuleiro. Ao fazer isso sub-repticiamente, tudo fica como boato. Ele não se suja, mas pode avaliar a reação de todos. No caso, cria um clamor da torcida em torno de seu nome e constrange parte da direção, que seria incapaz de prover as condições de trabalho necessárias ao português.

Ainda que seja difícil saber o que se passa na cabeça de Mourinho, é provável que ele queria ficar em Madri. Mas prefere mudar algumas coisas a seu redor. A primeira é Jorge Valdano, diretor esportivo do Real Madrid. Para usar termos da época da minha avó, “o santo dos dois não bateram”. Eles têm estilos opostos e um é visto como empecilho para o trabalho do outro. E chegou em um momento que é quase “ele ou eu”.

A gota d’água é a discussão a respeito do centroavante. Desde a contusão de Higuaín, Mourinho está descontente com o clube. Primeiro, por demorar a definir o tipo de tratamento do atacante, o que pode levar a uma demora extra em seu retorno. Depois, pela falta de iniciativa em buscar no mercado um substituto. O nome de Van Nistelrooy surgiu como possibilidade, mas o Hamburg não quis fazer negócio. E o impasse está criado.

O técnico não confia em Benzema e não tem pudor em expor o francês. Primeiro, ao colocá-lo quase sempre em situações pouco relevantes. Depois, ao considerar sua saída para a entrada de Kaká – com Cristiano Ronaldo deixando o meio-campo para assumir como atacante. Tática e tecnicamente, ele tem alguma razão. Mas Benzema foi uma das grandes contratações do então recém-eleito Florentino Pérez na temporada passada e, desde então, o jornal Marca faz campanha aberta para que ele vingue como grande homem-gol do time.

Nos últimos dias, o assunto ganhou força na mídia, e se transformou em briga. O jornalista Siro López revelou em um programa de TV que Mourinho deixou vazar na imprensa que quer sair. Pouco depois, o As – outro veículo pró-Real – também publicou a informação. O El País (dono do As, mas praticante de jornalismo sério em seu caderno de esporte) foi na mesma linha, e reforçou ao informar que tal situação já estaria preocupando Pérez.

Eduardo Inda, diretor do Marca, foi uma voz destoante. Ele disse que todas as notícias eram mentirosas, motivadas talvez por vingança. López atacou Inda, mesmo sabendo que isso lhe custaria o emprego de comentarista da Rádio Marca.

O maior jornal esportivo da Espanha mantém sua posição, e vibra com resultados como o deste domingo, com vitória do Real Madrid por 1 a 0 graças a um gol de Benzema. No entanto, não tem como ignorar as faixas que torcedores levaram pedindo a permanência de Mourinho e a contratação de outro atacante. E não tem como não falar sobre a declaração do português, que diz não reportar a Valdano, mas apenas a Florentino Pérez e ao diretor-geral executivo José Ángel Sánchez, braço direito do presidente há anos.

Mourinho é esperto o suficiente para evitar que tal disputa atrapalhe o desempenho de seus jogadores, mesmo que ela postergue a definição da contratação ou não de um novo centroavante. Mas o caso serviu para expor o modo como parte da imprensa espanhola se envolve com o Real Madrid (e, óbvio, há o lado que faz o mesmo pelo Barcelona). Já é alguma coisa.

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Equipe Trivela

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