Quando Ángel Maria Villar foi eleito presidente da Real Federación Española de Fútbol, Ricardo Teixeira era apenas um genro de João Havelange que começava a mostrar aspirações políticas. José Sarney era o presidente do Brasil e Ronald Reagan o dos Estados Unidos. A União Soviética ainda existia e Alemanhas ainda eram duas. Ayrton Senna era vivo. Aliás, ele nem tinha conquistado título de Fórmula 1.

Nesta quinta, Villar foi eleito mais uma vez para o comando da RFEF. Será seu sétimo mandato. Ao dele, terá completado 66 anos, 28 deles no poder, e poderá se aposentar. Uma passagem de fazer inveja a qualquer dirigente brasileiro acostumado com perpetuação no poder. Atualmente, apenas Roberto Gesta de Melo, na CBAt desde 1987, está há mais tempo na presidência de uma confederação esportiva brasileira. E, ainda assim, o amazonense deve deixar o cargo neste ano. Ou seja, ficaria menos que os 28 anos projetados para Villar.

O mandachuva da RFEF tem a seu favor as conquistas recentes. Na última década, a Espanha foi campeã mundial e europeia de futebol, bicampeã europeia sub-17, pentacampeã europeia sub-19, campeã europeia sub-21, campeã mundial e tetra europeia de futsal e bicampeã europeia de futebol de areia.

Bem, tudo isso é vistoso, mas é exatamente o mesmo argumento utilizado por Ricardo Teixeira (e, agora, com a concordância de Ronaldo) para justificar a atual gestão da CBF. Acontece que as conquistas não podem ser tiradas de contexto. O trabalho da RFEF no desenvolvimento do futebol tem competência, mas se beneficia muito de dois outros fatores: o trabalho que os clubes fazem por sua conta e o trabalho do esporte espanhol como um todo. Sem esses dois elementos, a federação espanhola teria muito menos o que exibir.

Outro fato que chama a atenção é sua capacidade de dominar politicamente o colégio eleitoral. Nesta semana, ele recebeu por 161 votos de 167 possíveis (houve cinco brancos e um nulo). Nas sete vezes em que foi eleito, apenas em duas (1988 e 2004) ele teve um concorrente, sendo que na segunda, o oponente era seu ex-secretá-geral, com quem havia rompido meses antes.

Tudo isso se deve ao modo como o ex-jogador do Athletic Bilbao, advogado e fundador da Associação de Futebolistas Espanhóis sabe como se segurar no poder. Em 2003, despediu seu secretário-geral por supostamente vazar à imprensa documentos da RFEF. Em 2007, trombou com uma determinação do governo espanhol que todas as federações esportivas deveriam ter eleições após os Jogos Olímpicos e que seu mandato de 20 anos (na época) deveria ser encerrado ali. Villar trocou farpas com Jaime Lissavetzky (secretário de esportes da época), manteve a eleição da RFEF para o começo de 2008 e conseguiu a reeleição. Em 2012, ele antecipou o pleito, minando qualquer possibilidade de um candidato de oposição aparecer.

Não é apenas no apego ao cargo que Villar se assemelha a colegas brasileiros. Sua gestão também desperta suspeitas na Espanha, com acusações de irregularidades econômicas e suspeitas na gestão de recursos públicos (tanto que os repasses do Conselho Superior de Esportes estão congelados pela Justiça). Na política externa, o presidente da RFEF é um dos principais aliados de Joseph Blatter na Fifa e de Michel Platini na Uefa, mas toma cuidado para que eventuais escândalos não respinguem nele (uma lição não aprendida por Teixeira). Além disso, é tido nos corredores das entidades como uma pessoa simpática, falastrona e habilidosa em fazer lobby para seus aliados.

Com essa atuação politicamente habilidosa, Ángel María Villar conseguirá se manter quase três décadas no poder. Talvez tivesse problemas com investigações e gestão de dinheiro público se a Espanha ganhasse o direito de co-organizar a , ainda mais com a crise econômica que pegou o país. Mas ele pode se considerar sortudo de ter escapado dessa.