Mentalidade de segunda
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Bernd Schuster está fora dos noticiários desde que foi demitido do Real Madrid. Mas, na última sexta, o alemão reapareceu, e de modo inusitado. Especulações dão conta que o técnico fez uma proposta para comprar o Xerez, clube no qual se destacou no início da década e que é, no momento, o último colocado no Campeonato Espanhol. Uma situação inusitada, mas que expõe definitivamente a confusão por que passa o time andaluz e explica a péssima campanha.
O Xerez nunca foi uma potência regional. Apenas na Andaluzia, é possível citar ao menos oito clubes mais tradicionais e com mais torcida: Sevilla, Betis, Málaga, Cádiz, Recreativo de Huelva, Almería, Córdoba e Granada. Ainda assim, os jerezanos encontraram uma fórmula de trabalho eficiente. Com pouco dinheiro, encontrou comandantes fortes e equipes determinadas a se superar. Desse modo, ficou na beira da promoção à elite por várias temporadas. Normalmente, soçobrava por atraso de salários ou falta de investimento em elenco, mas, em 2008/09, a equipe conquistou o acesso.
O problema é que, na primeira divisão, o Xerez continuou agindo como se estivesse na segunda. Desorganização, falta de investimento e mudança de rumos continuaram comuns. Por exemplo, a diretoria não entrou em acordo financeiro com o técnico Esteban Vigo, responsável pela promoção que trocou a Andaluzia pelo Hércules. Entre os grandes, não há como passar impune por esse tipo de erro.
O principal personagem dessa história é Joaquín Morales. O empresário controla as ações do Xerez, mas faz anos que não parece mais disposto a seguir. Nas últimas duas temporadas, chegou a anunciar a venda do clube, mas os negócios foram desfeitos posteriormente. Nesta semana, ele voltou a fazê-lo, no mesmo dia em que foi noticiado o interesse de Schuster nos azulinos.
Menos de 24 horas antes, Carlos de Osma, presidente do Xerez, havia pedido demissão. O dirigente alegou motivos pessoais, pelos quais passariam, inclusive, ameaças a ele e sua família. De Osma admitiu que a mentalidade em Jerez de la Frontera ainda é de Segundona: “Desde que subirmos à primeira divisão há um ambiente negativo. Não é normal. Não estamos aproveitando que o Xerez está na primeira”.
Nesse contexto, não há como jogadores e comissão técnica realizarem um trabalho consistente. O treinador José Ángel Ziganda, ex-Osasuna, não conseguiu dar um padrão ao time, que une fragilidade defensiva e improdutividade ofensiva. Os números são cruéis: em 14 jogos, os xerecistas marcaram apenas 4 gols e sofreram 25. É o pior ataque com sobras e a segunda pior defesa.
A perspectiva de sair dessa situação é minguada. Tecnicamente, o clube está sem presidente e o maior acionista só fala em abandonar o barco. Para piorar, a Justiça da província de Cádiz ensaia uma intervenção nas contas do clube, de modo a assegurar o pagamento das dívidas. Assim, não se imagina que o Xerez possa investir no mercado de janeiro para reforçar o elenco. Resta à torcida esperar o rebaixamento e torcer por algum milagre.
Desprotegidos
A crise do Xerez tem uma grande vítima, para o olhar do brasileiro. O goleiro Renan, ex-Internacional, acaba se afundando na mediocridade da equipe. Algo parecido com o que vive Diego, ex-Atlético Mineiro e atual guarda metas do Almería. Ambos têm enorme potencial, técnica apurada e poderiam perfeitamente estar brigando por uma vaga na Seleção que vai à Copa. Mas a falta de qualidade de suas equipes os tirou do radar de Dunga.
Renan pode reclamar de azar. O gaúcho trocou o Colorado pelo Valencia, uma oportunidade que não poderia deixar passar. Ele foi bem no início da temporada passada, deixando o alemão Hildebrand na reserva. No entanto, uma grave contusão o tirou de todo o segundo turno. Sem confiar na sua forma física após o retorno, os ches decidiram repassá-lo ao Xerez.
Diego (chamado de Diego Alves na Espanha) foi direto do Galo ao Almería. Tecnicamente, não foi uma troca que valeu a pena, mas o clube mineiro precisava do dinheiro que a venda rendeu. Ainda assim, o paulista teve uma primeira temporada excepcional, ficando vários jogos sem sofrer gols, colecionando algumas defesas espetaculares e chegando a fazer sombra a Casillas na disputa do troféu Zamora, de melhor goleiro do Campeonato Espanhol.
Não é possível, porém, segurar um time inteiro nas costas. Com o tempo, a fragilidade do Almería acabou ficando mais evidente. Ainda mais depois da saída de Unai Emery, que deixou a equipe menos sólida coletivamente. De qualquer modo, o ex-atleticano mostrou neste sábado, contra o Real Madrid, que é um grande goleiro. Não fosse sua atuação, os madridistas fariam um placar muito mais elástico que os 4 a 2.
É uma pena que ambos estejam desaparecidos. Em uma seleção que tem apenas Júlio César como goleiro com vaga assegurada, era possível ambos brigarem com Doni, Victor e Gomes. Mas, pelo visto, terão de esperar até 2014. E, até lá, precisam escolher melhor os times em que vão jogar.