Espanha

Melhor impossível

A semana não poderia ter sido melhor para os torcedores barcelonistas. Ela começou com a grave denúncia feita pelo jornal Marca, de que o presidente do Real Madrid, Ramón Calderón, teria manipulado a aprovação de contas do clube para 2008 e 2009. Na sexta-feira ele renunciou. Enquanto isso, o Barcelona se preparava tranquilo para se tornar o time com a melhor campanha em um primeiro turno do Campeonato Espanhol em todos os tempos. Fato confirmado em grande estilo, no sábado, com a goleada por 5 a 0 sobre o Deportivo de La Coruña.

E para colocar a cereja no bolo blaugrana, a antiga marca pertencia, justamente, aos rivais madridistas. Na temporada 1968/69, o Real conquistou 12 vitórias em 15 jogos, tendo empatado os demais. Fazendo uma projeção para 19 partidas, número disputado atualmente, e dando três pontos por triunfo, a equipe somaria 49 pontos. Este Barcelona foi além. Foram 16 vitórias, dois empates e uma única derrota (Numancia, na primeira rodada), que deixa os comandados de Pep Guardiola com longínquos 50 pontos.

Para se ter idéia da folga que o time tem, os segundos colocados, empatados com 38 pontos, são Real Madrid e Sevilla, que já perderam cinco e três vezes, respectivamente. Essa tranquilidade garante ao Barça, também, um planejamento seguro na Copa do Rei, onde segue firme e forte, e na Liga dos Campeões – encara o Lyon nas oitavas-de-final.

Mais algumas estatísticas que a mídia espanhola alardeia que o Barcelona pode quebrar. Por enquanto, com 59 gols, média de 3,1 por partida, a equipe sonha em manter esse nível e bater os 107 marcados pelo Real em 1989/90, comandados por John Toshack. Mais um pouco: desde 1987, quando a Liga passou a ser disputada por 20 times, somente o Real (sempre eles…) terminou com apenas uma derrota, em 1988/89.

De qualquer modo, dados são apenas complementos e evidências de um bom futebol. Em algumas das últimas colunas, cansamos de debater sobre os méritos barcelonistas. Guardiola se mostrou uma surpresa extremamente positiva, já que, talvez, sua maior virtude tenha sido recuperar o futebol de atletas como Eto'o e Henry, além de prover ao mundo todo o talento de Lionel Messi sem qualquer obrigação de marcação. Aliado a tudo isso, Xavi e Iniesta são dois jogadores pouco valorizados, mas que formam o pilar fundamental dessa equipe no meio-campo. Até mesmo o goleiro Victor Valdés, tão criticado nos últimos anos, tem demonstrado confiança e feito boas atuações.

Enquanto isso, mais ao centro do país, seus rivais não sabem mais o que fazer. Pela segunda gestão seguida, seu presidente é obrigado a deixar o cargo antes do término previsto – Florentino Pérez o precedeu, entre 2000 e março de 2006, quando abandonou. E desta vez foi bem feio.

Ramón Calderón é acusado de infiltrar pessoas de sua confiança na assembléia que votou e aprovou as contas do clube para 2008 e 2009. Entre os acusados, está, até mesmo, um sócio do Atlético de Madrid. O agora ex-presidente nega todas as acusações, mas diante das evidências é difícil acreditar em sua inocência. “Diante das recomendações da Junta Diretiva, decidi deixar a presidência”, afirmou Calderón em entrevista coletiva. “Cometi erros, não irregularidades, e saio de cabeça erguida”.

Vicente Boluda, vice-presidente, assumiu o cargo. O mais provável é que ele convoque novas eleições. E, se isso acontecer, o favorito ao cargo é… Florentino Pérez. O ex-dirigente, famoso pela formação dos Galácticos, quando contratou Zidane, Figo, Ronaldo e Beckham, desponta como o nome natural. Talvez, até mesmo, pela bomba política que se tornou o clube.

Afundado em sua megalomani, o Real vive uma crise ideológica acima de tudo. Seus dirigentes são um reflexo da postura elitista de seus torcedores, também. A exigência por ter sempre o melhor time do mundo, com as contratações mais caras, faz com que toda uma preparação se perca entre erros bobos e desnecessários – como a insistência em contratar Cristiano Ronaldo, do Manchester United.

Enquanto isso, o Barcelona caminha a passos largos para uma temporada que pode ser memorável. Por suas conquistas e pela desgraça alheia.

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Equipe Trivela

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