Espanha

Mapa estelar

A partir do Big Bang, a matéria se espalhou por todos os lados em um momento em que o próprio espaço estava sendo criado. Tudo poderia se espalhar igualmente e o universo não passaria de partículas vagando pelo nada. Mas há uma força invisível que mantém a matéria unida dentro do possível. Desse modo surgiram planetas, estrelas e, claro, galáxias. É assim na cosmologia, é assim no Real Madrid de Florentino Pérez, versão 2.

Depois de uma série de amistosos, neste sábado foi dado o primeiro sinal real do que será o time que o dirigente megalomaníaco construiu para a temporada 2009/10. Foi a estreia pelo Campeonato Espanhol, contra o Deportivo de La Coruña no estádio Santiago Bernabéu. Claro, as atenções se concentram nos recém-chegados Cristiano Ronaldo e Kaká. Mas essa galáxia, que ainda tem Raúl, Benzema, Casillas e Xabi Alonso, só funcionou porque, discretamente, Lassana Diarra deu unidade ao conjunto de estrelas.

O volante francês não é um gênio. Muito pelo contrário: nunca foi reserva em Chelsea e Arsenal, só conseguindo um lugar de titular em equipes médias para fracas, como Le Havre e Portsmouth. Mas, no Real Madrid (onde chegou no início de 2009), “Lass” rapidamente se tornou uma figura importante. E, no FlorenTeam, ainda mais.

É uma questão simples: ele se dispõe a fazer o “jogo sujo”. Em um time cheio de jogadores que exalam talento e fazem questão de mostrar isso ao público (até porque são quase que obrigados a isso), é preciso alguém que fique atrás e marque como se a vida dependesse disso. Caso contrário, o Real Madrid pareceria um dragster: poderoso na aceleração, mas não sabe como fazer curva, dar ré ou mesmo frear.

Na vitória por 3 a 2 sobre o Deportivo, Manuel Pellegrini escalou o Real Madrid com uma formação que parece ser a básica para a temporada. Casillas ficou no gol, claro. Na defesa, uma linha de quatro tradicional, com Arbeloa, Albiol, Garay e Marcelo. Esse setor deve mudar quando Sérgio Ramos retornar de contusão e Pepe, de suspensão. Aí, Arbeloa deve ir para a lateral-esquerda e Garay e Marcelo perderiam lugar.

No meio-campo, Lassana Diarra e Xabi Alonso ficaram mais atrás, com Cristiano Ronaldo e Kaká na armação. A dupla estelar trocou muito de lado, mas sempre com uma característica: o português com a tendência a cair pela ponta e o brasileiro buscando o jogo no meio. No ataque, Benzema ficou mais fixo e Raúl se movimentava mais, muitas vezes recuando e ficando como uma espécie de terceiro homem de criação.

Nesse setor ofensivo, são quatro jogadores que marcam pouco. Xabi Alonso ajuda no combate, mas não chega a ser um especialista nessa função (como volante, é muito melhor em lançamentos e na ligação entre defesa e ataque). Assim, Diarra fica sobrecarregado, tendo de arcar com a responsabilidade de fazer quase toda a proteção da defesa.

Florentino sabe como o equilíbrio de seu time depende do francês. Foi assim com sua primeira versão de galáticos. Enquanto o Real tinha o incansável Makélélé no meio, os craques conseguiram jogar com tranquilidade e os blancos conquistaram tudo. Quando ficou sem um volante de marcação, o time ruiu, por mais que tivesse Ronaldo, Beckham, Figo, Zidane e Raúl na frente.

Desde então, Chamartín esteve carente desse “xerife”. Guti, Gravesen, Pablo García, Mahammadou Diarra, Gago… Todos fracassaram, ou por serem técnicos demais, ou por serem pesados (é preciso velocidade para cobrir todo o meio-campo), ou simplesmente por serem ruins. Lassana Diarra já teve impacto imediato na segunda metade da temporada passada, ao ajudar na arrancada do Real sob o comando de Juande Ramos.

Uma relevância que, pelo visto, não se alterará, até porque a retaguarda madridista está muito longe de ser a melhor da Europa e mostrou sua vulnerabilidade contra o apenas mediano Deportivo. Tanto que tomou dois gols e quase sabotou a estreia merengue. O ataque também deu sinais de que precisa melhorar, até porque o entrosamento entre o quarteto ofensivo ainda é pequeno.

Por enquanto, o Real Madrid galático ainda é uma equipe em formação. São estrelas que brilham isoladamente, mas ainda estão aprendendo a formar um conjunto. Assim, o jogador mais importante tem sido o limitado Lassana Diarra.

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O Valencia está afundado em dívidas e é difícil de entender como o clube chegou ao último dia do mercado de verão (data de publicação deste artigo) sem ter vendido David Silva e Villa. Mesmo assim, é difícil imaginar que os ches passem perto do rebaixamento. Simplesmente porque o clube tem um sistema de funcionamento eficiente até para os momentos de aperto.

Isso ficou evidente na partida contra o Sevilla. Foi um jogo horroroso, daqueles que o telespectador tem de estar com muita disposição – ou ciente do dever profissional – para não dar uma pescada. Mas o Valencia se impôs com relativa facilidade diante de uma das melhores equipes da Espanha.

O grande trunfo valencianista é trabalhar com jovens e de talento (alguns contratados, outros revelados no Mestalla), dando a eles um time sempre com estilo de jogo parecido: rápido, confiante e ofensivo. Tanto uma filosofia muito clara na cabeça, a comissão técnica consegue identificar os jogadores de que precisa com mais facilidade. E o funcionamento se torna muito mais orgânico.

Essa é a marca dos dois principais nomes dos ches contra o Sevilla: Mata e Pablo Hernández. Ambos foram desenvolvidos nas categorias de base do Valencia. O primeiro foi lançado por Ronald Koeman, em uma das raras atitudes bem sucedidas do holandês em sua tenebrosa passagem por Mestalla. O segundo não teve espaço por causa da concorrência com Vicente e Joaquín, foi vendido ao Getafe e mostrou seu potencial. Rapidamente os valencianos o recontrataram.

Ambos jogam como abertos na linha de quatro do meio-campo. Com velocidade e técnica, dão fluidez às jogadas do time e chegam com facilidade para auxiliar a dupla de ataque – que, na estreia pelo Campeonato Espanhol, foi formada por Villa e David Silva.

Com um elenco reduzido e sem grandes extravagâncias, o Valencia terá sorte se brigar por uma vaga na Liga dos Campeões. Mas, considerando a situação financeira do clube, ter uma temporada sem sobressaltos já é um sinal de que seu modelo é adequado.

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Equipe Trivela

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