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Madrileaks: os bastidores merengues

O Real Madrid é um clube orgulhosamente arrogante. Monta times para ser o melhor da história ou, na pior das hipóteses, o melhor de sua geração. A diretoria se porta como se fosse integrante de uma família real do século XVI. E os súditos dessa realeza adoram isso. O termo que explica toda essa pose é “señorío”. O Real se diz señorío, porque está sempre seguro de si, por cima dos problemas, não se abala por questões menores, quando entra em um ambiente, todos sabem que ele é quem manda.

José Mourinho é o oposto disso. Tem a qualidade técnica e os títulos compatíveis com o que o Real Madrid deseja de seu comandante, mas a postura é muito diferente. O português adora um debate, alimentar guerras psicológicas, jogo de palavras, se altera com o sucesso do rival, valoriza a defesa e não liga em promover marcação demasiadamente agressiva no craque adversário. Alguns podem pensar “tudo bem, desde que ele esteja ganhando”, mas aceitar que os fins justificam os meios não é uma postura de señorío.

As diferenças filosóficas começam a incomodar. No primeiro ano, Mourinho teve carta branca porque consideravam que ele seria o único capaz de interromper o ciclo de decepções dos madridistas, sobretudo em competições continentais. Nessa segunda temporada, já há quem não digira bem o jeito de agir do lusitano, ainda mais depois dos indesculpáveis ataques a Tito Vilanova (dedada no olho), assistente técnico de Guardiola, e Fàbregas (pisada na cabeça) no empurra-empurra do mais recente Barça x Real.

A situação ficou mais delicada nas últimas semanas. Primeiro, o jornal El País (que, apesar de ser do mesmo grupo do As, é considerado isento e praticante de bom jornalismo) noticiou que Casillas teria entrado em contato com colegas de seleção espanhola que defendem o Barcelona para esfriar o clima entre os jogadores. Na mesma reportagem, é dito que o goleiro não gosta dos expedientes de Mourinho, mas defendeu o treinador na temporada passada porque julgou que seria o melhor para o time.

Após a derrota para o Levante, na semana passada, Mourinho responsabilizou Khedira pela expulsão infantil (o segundo amarelo lhe foi mostrado por reclamar demais de uma marcação do árbitro). Dois dias depois, o mesmo El País citou uma fonte dentro do elenco ao informar que o português havia dito antes da partida que era para os jogadores mostrarem união e defenderem os colegas em qualquer confronto no jogo. Khedira foi expulso assim, e estaria, segundo a versão do jornal, apenas cumprindo ordens.

Independentemente do fato de Casillas e Khedira estarem em divergência com Mourinho, é de assustar como dois casos de dentro do vestiário do Real Madrid vazaram ao maior jornal do país. Quando jogador começa a cochichar para jornalista, revelando assuntos que deveriam ser internos, é porque o relacionamento entre elenco e comissão técnica está bastante desgastado.

Claro que esse casamento entre José Mourinho e o Real Madrid ainda terá mais altos e baixos. Mas a sensação é que não deve durar muito. O Real já abriu muitas concessões em nome de um título continental. O português também parece cansado da pressão excessiva em Chamartín. Como ocorreu na passagem do técnico pela Internazionale, ele fica para a segunda temporada, na esperança de ela ser a vencedora. Mas pode terminar com despedida, mesmo que a taça tenha vindo.

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Equipe Trivela

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