Espanha

Língua queimada

Antes de começarmos, uma confissão: essa coluna já estava programada há mais ou menos um mês. Mas os fatos de cada semana a atrasavam. Ou era um Real x Barça, ou a demissão de Guardiola, ou o título do Real. E, no final das contas, ficou para dois dias após a final da Liga Europa. Mas o resultado do duelo rojiblanco de Bucareste não pauta esse texto, e ele existiria mesmo se o Athletic que metesse 3 a 0.

O Atlético de Madrid adora gastar dinheiro sem pensar direito. Contrata jogadores medianos como se fossem craques, e pagam como se fossem craques. É o primeiro passo para superestimar seu próprio elenco, o que inevitavelmente leva à decepção pelos resultados e, em última instância, à crise. Para o início da temporada 2011/12, esse problema crônico se manifestou na compra de Falcao García por € 40 milhões após duas temporadas pelo Porto.

Bem, esta coluna já bateu nisso várias vezes, criticando a falta de paciência da diretoria colchonera, que gastou boa parte do que havia faturado com a venda de De Gea e Agüero em um jogador não tão novo que vinha de um ano fora do comum para ele próprio. Mas Falcao García se pagou. E ainda pode se pagar mais.

O colombiano se tornou o grande centroavante do Campeonato Espanhol. Não o centroavante que muitos imaginam, pesadão, imóvel, um poste com capacidade de botar a bola no gol. Falcao se movimenta, sabe usar a habilidade para compensar a falta de porte físico (ele é parrudo, mas tem apenas 1,77 metro de altura) e faz gols, muitos gols. E foi decisivo, resolvendo partidas em que o sempre enrolado Atlético estava com problemas.

Sua presença de área foi fundamental para dar qualquer sentido ofensivo às jogadas do time. Ele foi responsável por 23 dos 52 gols (44,2%) do clube em La Liga. Na Liga Europa, a participação foi semelhante: 9 dos 22 gols (41%). O impacto no Campeonato Espanhol foi enorme, e só não apareceu tanto devido aos caminhões de gols trazidos pro Messi e Cristiano Ronaldo. Excetuando os dois melhores jogadores do mundo, o camisa 9 colchonero foi o artilheiro da competição (23), além de líder em finalizações por jogo (3,7). Como homem de frente, também ficou na ponta em estatísticas negativas, como impedimentos por jogo (segundo no geral, atrás de Hélder Postiga).

Dificilmente o Atlético de Madrid encontraria no mercado outro jogador que tivesse uma participação desse porte no seu jogo. Roberto Soldado seria um bom candidato, mas o espanhol já estava acertado com o Valencia quando os madrilenos puderam ir ao mercado. Assim, até fez algum sentido gastar tanto dinheiro em um jogador, porque ele acabou dando retorno em bilheteria e levando o time de Manzanares longe em uma competição internacional.

Mas o melhor, para os colchoneros, é que o desempenho de Falcao foi chamativo. Seus números, seu estilo de jogo, sua presença de área, chamaram a atenção do mercado, até porque centroavantes eficientes são sempre muito cobiçados. O nome do colombiano certamente aparecerá na lista de compras de clubes zilionários e imediatistas, como Manchester City, Barcelona, Real Madrid e talvez Paris Saint-Germain.

Se qualquer uma dessas equipes transformar a compra do atacante em questão de honra, pagará mais que os € 40 milhões que o Atlético desembolsou – com ajuda de investidores – para tirá-lo do Porto. Um dinheiro que seria bem vindo aos endividados colchoneros, sobretudo se a quarta vaga espanhola na Liga dos Campeões ficar com o Málaga.

Não importa por que caminho, jogando ou se colocando para uma possível revenda, Falcao García se pagou ao Atlético de Madrid. E queimou a língua do colunista da Trivela, ainda que isso não tenha a menor importância e só tenha sido usado para justificar o tema deste texto.

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Equipe Trivela

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