Espanha

Laporta se candidatará novamente à presidência do Barcelona, agora em um contexto que lhe parece mais favorável

Joan Laporta anunciou, nesta segunda-feira, que buscará novamente se candidatar à presidência do Barcelona. Supervisor da restauração econômica e esportiva do clube na primeira década do século, foi derrotado pro Josep Bartomeu, em 2015, mas agora, se conseguir confirmar a sua chapa, encontrará um contexto diferente para tentar retornar ao poder.

Laporta foi eleito em 2003 e serviu dois mandatos como presidente do Barcelona. Sob sua supervisão, o clube aumentou significativamente as suas receitas e teve sucesso esportivo sem precedentes, com dois títulos da Champions League e a primeira Tríplice Coroa, na temporada inaugural de Pep Guardiola.

Promover o inexperiente Guardiola do time B em 2008 foi uma das duas decisões mais marcantes do seu mandato que corrigiram o curso do Barcelona. A outra foi, ao não conseguir contratar David Beckham, sua principal promessa de campanha na primeira eleição, voltar as atenções a Ronaldinho Gaúcho, com a ajuda de Sandro Rosell, seu ex-aliado e importante executivo da Nike que ajudou a intermediar a negociação.

Rosell rompeu com Laporta e renunciou ao cargo de vice-presidente, dois anos depois da primeira eleição. Em 2008, com a decadência do time de Frank Rijkaard, duas temporadas seguidas sem título e ataques ao seu estilo de liderança, pouco transparente e democrático, segundo os críticos, Laporta precisou sobreviver a um voto de confiança para terminar o seu segundo mandato. E o fez por muito pouco: 60,6% dos votos foram contra sua permanência, mas eram necessários pelo menos dois terços – 66,7%.

Alguns meses depois, Laporta efetivou Guardiola, ganhou todos os títulos com um futebol exuberante, Lionel Messi começou a pintar como um dos maiores jogadores da história e, pelo menos em campo, terminou a sua presidência em alta. Fora dele, Rosell baseou sua candidatura em críticas à irresponsabilidade fiscal do dirigente. Uma auditoria da Deloitte encomendada por Rosell, após vencer as eleições, identificou que Laporta havia deixado dívidas na casa dos € 440 milhões.

Rosell não terminou o seu mandato. Precisou renunciar por irregularidades na contratação de Neymar. Josep Bartomeu assumiu interinamente como presidente e começou a supervisor a rápida decadência de um dos maiores clubes do mundo. No entanto, em 2015, quando Laporta fez a sua primeira tentativa de voltar à presidência, o Barcelona havia acabado de vencer a Tríplice Coroa com Luis Enrique. Bartomeu acabou se confirmando no poder com 54,6% dos votos contra 33% de Laporta.

Agora, porém, o contexto é diferente. O Barcelona está novamente em profunda crise esportiva e financeira, similar a 2003. E também política, com a renúncia de Bartomeu no final de outubro. Laporta tem o histórico a seu favor, além de ser um político mais carismático e com um declarado apoio à independência da Catalunha, o que pega bem em alguns setores.

“Eu me apresento como candidato porque gosto do Barça e porque acredito que somos preparados o bastante para fazer as mudanças que o clube precisa. E porque temos um plano para devolver o clube ao primeiro patamar. O plano é trabalhar”, afirmou, na entrevista coletiva em que anunciou a candidatura. “Acho que a situação é parecida com a de 2003, embora a magnitude econômica tenha disparado. Tem que ser corajoso para assumir esse desafio e nós somos. Teremos que tomar decisões para reduzir gastos e temos que ver como está a estrutura da dívida”.

“Trabalharemos para recuperar a situação econômica do clube, que é dramática, mas a reverteremos com esforço e trabalho. Temos um plano de choque detalhado. Reconduziremos a economia quando voltarmos a vencer e, então, tomaremos as decisões adequadas”, completou.

Laporta tem outros dois trunfos. Um futuro retorno de Guardiola ao Barcelona sempre esbarrou na relação ruim que o treinador do Manchester City tem com o grupo político de Rosell, presidente quando saiu do clube em 2012. Isso não seria mais um problema. Ao contrário, Guardiola é próximo de Laporta e inclusive o apoiou na eleição de 2015. O dirigente falou novamente que gostaria que um dia o ex-volante retornasse ao Camp Nou. “Como todos os catalães, gostaríamos que voltasse ao clube e, se eu ganhar, talvez um dia eu consiga”, afirmou.

O outro é Lionel Messi. Com contrato chegando ao fim, o argentino deixou claro o desejo de sair do clube no começo da temporada. Ficou por uma tecnicalidade do seu contrato, mas precisará ser muito bem persuadido pela próxima administração a assinar um novo vínculo. Laporta era o presidente quando Messi subiu ao time principal e já adotou um discurso conciliador, tocando em alguns pontos cruciais.

“Messi queria ir embora, estava muito decepcionado com a maneira como o trataram, mas não entro nessa questão. Messi gosta do Barcelona e tenho certeza que dará uma oportunidade. Pelo respeito e estima que temos um pelo outro, teremos uma conversa para ajudar a decidir o melhor para ele e para o Barça. Sei que nos dará uma margem (para conversar)”, disse.

“Eu sei que ele tem propostas de outros clubes, mas Messi sempre as teve. Em 2005, (Massimo) Moratti (ex-presidente da Internazionale) pagaria € 250 milhões por ele e eu disse não. Ele e sua família gostam daqui, da Catalunha, gostam da vida que levam em Barcelona. E Messi não é uma questão de dinheiro, mas que estejamos à altura como clube. Se as eleições fossem antes, não estaríamos nessa situação”, acrescentou.

Laporta também expressou respeito por Ronald Koeman, atual treinador do Barcelona, e prometeu recuperar La Masia, outrora uma máquina formadora de jogadores como Xavi, Iniesta, Puyol, Piqué e o próprio Messi e que há tempos não alimenta o time principal com a mesma qualidade.

Laporta é o oitavo a apresentar uma pré-candidatura. Os outros são Victor Font, provavelmente seu maior adversário, Jordi Farré, que emplacou a moção que levou à renúncia de Bartomeu, Toni Freixa, Emili Rousaud, Xavi Vilajoana, Lluis Fernández Alá e Pere Riera. Para confirmar a chapa, o candidato precisa de 2.257 assinaturas e apresentar garantias de 15% do orçamento da temporada 2020/21, o que dá aproximadamente € 125 milhões. O pleito está marcado para 24 de janeiro.

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Foto de Bruno Bonsanti

Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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