‘Mal necessário’ e ‘só nos dizem para vender’: O que clubes de LaLiga pensam sobre teto salarial
Regra é elogiada por garantir sustentabilidade, mas gera queixas por limitar investimentos e forçar vendas
O debate sobre as regras de limite salarial de LaLiga voltou ao centro das atenções após a última janela de transferências. A liga espanhola possui o sistema mais rigoroso entre as grandes ligas europeias, e o impacto tem sido evidente para clubes de todos os tamanhos, desde gigantes como o Barcelona até equipes de meio de tabela, como Getafe e Osasuna.
Na prática, o regulamento limita quanto cada clube pode gastar com salários, com o teto sendo calculado de acordo com as receitas anuais de cada um. Se o clube excede esse valor, não pode registrar novos jogadores — o que significa que contratações só podem ser utilizadas em campo quando há espaço na folha salarial.
Para a temporada 2025/26, por exemplo, o Barcelona, ainda acima do limite, recorreu a manobras criativas para registrar atletas. Usou a cláusula que permite inscrever jogadores em caso de lesão grave de outro atleta para registrar Joan Garcia, substituto de Ter Stegen, e contou com uma garantia bancária de 7 milhões de euros para viabilizar a chegada de Marcus Rashford, emprestado pelo Manchester United.
Enquanto isso, o Real Madrid investiu cerca de 180 milhões de euros em reforços, e o Atlético de Madrid desembolsou outros 170 milhões em novos nomes — todos devidamente inscritos, já que os dois clubes têm grande capacidade de receita.
Regra financeira de LaLiga é elogiada por evitar colapso financeiro
O presidente de LaLiga, Javier Tebas, defende que o sistema foi crucial para salvar o futebol espanhol. Quando foi implementado, em 2013, os clubes deviam mais de 2 bilhões de euros, incluindo 750 milhões em impostos atrasados.
“A coisa de que mais me orgulho é de ter tornado o futebol espanhol sustentável”, afirmou Tebas em 2023. Para ele, o controle garante que os clubes paguem salários e impostos em dia, evitando um cenário de caos financeiro como o que assolava a liga há pouco mais de uma década.

Dirigentes de clubes como Valencia, Elche e Osasuna concordam que as regras eram um “mal necessário” para evitar falências e corrigir distorções do passado, em entrevistas anônimas ao “The Athletic”.
“O controle econômico de LaLiga deu sustentabilidade à indústria. Basicamente, paga o que pode. E nós próprios estabelecemos as regras”, disse um dirigente.
“É um mal necessário. O futebol precisa de regras porque a experiência mostra que, sem elas, os clubes entram numa corrida descontrolada em que o mercado inflaciona, os salários disparam e os clubes registam perdas que comprometem as suas finanças”, afirmou uma fonte do Osasuna.
Queixas por limitação de investimento e fuga de talentos da Espanha
Apesar dos elogios, muitos executivos apontam que o regulamento prejudica a competitividade internacional. Os clubes promovidos nesta temporada, Levante, Elche e Real Oviedo, gastaram juntos cerca de 16 milhões de euros em reforços — enquanto times que subiram para a Premier League como Sunderland, Leeds e Burnley investiram mais de 300 milhões no mesmo período.
El vuelo del 𝒉𝒂𝒍𝒄𝒐́𝒏 hacia el gol. 🦅@fedeevalverde 🤍 @RealMadrid #LALIGAEASPORTS | #TalDíaComoHoy pic.twitter.com/2o3Uj0rHt0
— LALIGA (@LaLiga) September 11, 2025
O Getafe é um dos clubes em situação mais ccrítica. Para registrar todos os reforços, precisou vender o zagueiro Omar Alderete ao Sunderland por 11,6 milhões e o volante Christantus Uche ao Crystal Palace por 17,5 milhões, negócios considerados abaixo do valor de mercado.
“O controle financeiro é bom, mas LaLiga não pode nos forçar a vender jogadores a qualquer preço”, reclamou um dirigente do clube.
A rigidez do sistema também tem levado jovens talentos a buscarem outras ligas. Jogadores como Cristhian Mosquera (Arsenal), Yeremy Pino (Crystal Palace) e Miguel Gutiérrez (Napoli) deixaram a Espanha em busca de melhores salários e oportunidades de crescimento.
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Sugestões para melhorar no sistema
Há consenso de que o modelo espanhol é referência internacional, mas clubes pedem ajustes. Dirigentes sugerem maior flexibilidade no cálculo do limite e uma distribuição mais equilibrada das receitas de TV, hoje fortemente concentradas em Real Madrid e Barcelona — que receberam, juntos, mais de 320 milhões em 2023/24.

Outro ponto levantado é o fechamento da janela de transferências antes do início da temporada, para evitar que clubes menores sejam obrigados a vender suas principais peças já com o campeonato em andamento.
Mesmo com as críticas, LaLiga segue sendo um exemplo de controle financeiro bem-sucedido, e os resultados esportivos continuam positivos: clubes espanhóis seguem competitivos na Champions e a seleção nacional vive um de seus melhores momentos.
O desafio agora é equilibrar estabilidade financeira e capacidade de investimento para manter o produto atrativo no cenário global. “Há 12 anos, quando Tebas entrou, os clubes estavam comprando jogadores que não pagavam, havia dívidas que nunca eram pagas, era um drama e a indústria não era sustentável“, lembrou um dirigente.



