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A grande entrevista de Simeone: “Muitos jogam bola, mas poucos realmente jogam futebol”

Completando 10 anos de carreira à beira do campo, o Cholo falou sobre as suas filosofias e a sua evolução como treinador

Algumas semanas antes, ele ainda vestia o manto albiceleste dentro de campo. Já em fevereiro de 2006, Diego Simeone seria chamado de volta ao Cilindro para apagar um incêndio. O Racing vivia um péssimo momento, ameaçado na tabela do descenso e sem vitórias nas cinco partidas anteriores. E o meio-campista talentoso e enérgico, recém-aposentado, seria alçado ao posto de técnico. Estreou perdendo dentro de casa o fervilhante clássico contra o Independiente, com show de Sergio Agüero, enquanto passou os seis primeiros jogos sem vencer. Mas triunfou contra o San Lorenzo. E, depois, teve uma excelente sequência de vitórias, que encerrou a temporada da Academia em ascensão. Ali, eclodia um grande treinador.

Dez anos depois, Simeone viveu diferentes experiências na carreira. Teve passagens notáveis também por Estudiantes, River Plate e San Lorenzo, conquistando o Campeonato Argentino pelos dois primeiros. Depois, causou impacto em sua chegada ao Catania. Mas se afirmou mesmo entre os melhores técnicos do mundo no Atlético de Madrid, um clube que também alçou a outro patamar desde a sua contratação, em 2011/12. Ao Cancha Llena, o Cholo concedeu uma excelente entrevista, pensando sua trajetória e discutindo as suas filosofias como treinador.

“Meu estilo é ganhar. A partir dos jogadores, vou buscando potencializar uma ideia, ganhar. Não me interessa se eu gosto ou se os demais gostam. Por exemplo, no debate sobre a posse ou se direto, não se trata de dizer o que os demais querem escutar, mas trabalhar com a verdade. E se eu não tenho jogadores para sustentar a posse, não devo tentar o que não posso realizar. Não se pode jogar igual em todos os jogos, não é o mesmo enfrentar o Sevilla, o Valencia ou o Barcelona. Não se pode jogar da mesma maneira com os mesmos jogadores”, afirmou.

“A condição inegociável para os meus jogadores é a paixão. Ser amador. Muitas vezes eu explico a eles que é difícil encontrar em um elenco importante alguém que jogue mal. Mas não se trata apenas de jogar bem, se trata de sentir. E, para sentir, deve ter paixão, ter um senso de amadorismo, não deve tratar tudo como igual. Deve sentir que o treino te prepara para ser melhor. Que 20 minutos, às vezes, são muito mais que 90 ruins. E o melhor que nos passou nestes quatro anos e meio no clube é que elegemos um conceito de vida. Aqui não se negocia o trabalho, não se negocia a indolência. Porque pode jogar mal, mas o real valor está na capacidade de cada um para entender como se joga o futebol, e não a bola. Muitos jogam bola, mas poucos jogam futebol. Quanto mais jogadores que joguem futebol, mais gente teremos e seremos cada vez mais competitivos”, complementou Simeone.

Diego Simeone, técnico do Atlético de Madrid (AP Photo/Lalo R. Villar)

Ao longo da entrevista, Simeone enfatizou o trabalho com as emoções dos jogadores. O argentino declarou que não é só o técnico que ajuda a melhorar o jogador, mas os jogadores também melhoram os técnicos e fazem crescer a capacidade de ensinar.

“Às vezes, escuto que sou um grande motivador. Não. A motivação é interna, é de cada um. É muito difícil que você contagie a outro com a sua motivação. Você desperta a sua motivação interna. E em cada caso isso é distinto. A alguns precisa falar de uma maneira, a outros de outra. O grande desafio é ler as emoções de cada um”, analisou. “O melhor técnico é o que interpreta o estilo do clube. E agregaria que o melhor é o que explora as características dos jogadores. Quem é bom treinador? Eu creio que as diferenças entre os técnicos não são muitas. Pode analisar como transfere cada um de seus conceitos, como exerce a liderança, mas somos parecidos. O melhor treinador é o que faz seu jogador render ao máximo”.

“Ao jogador que todos chamam de rebelde, eu prefiro chamá-lo de diferente. Outro dia eu escutava Sampaoli e ele dizia que os técnicos administram emoções. E é assim. No nosso papel vai além das explicações de jogo, temos que saber manejar essas emoções. Esse jogador que chama de rebelde, na realidade, é diferente e possivelmente tem muito mais coração que os outros. Estará no botão que eu posso apertar para convidá-lo a ser mais um do todo. Nada é mais importante que a equipe. Nem mesmo Messi, porque segue sendo o melhor de todos, mas melhorou quando Suárez e Neymar alcançaram o nível que estão mostrando. Isso nos convida a insistir que até os grandes craques necessitam do conjunto”. Ainda assim, se irrita com o desleixo: “Se eu tenho uma virtude, é a intuição e a sensibilidade para a mensagem corporal do jogador. E se eu percebo a sua preguiça… Isso é o que me irrita. E não que eu não perdoo, mas porque eu não posso admitir isso”.

Diego Simeone, técnico do Atlético de Madrid (AP Photo/Andres Kudacki)

Já sobre o Atlético de Madrid, Simeone prefere ver o processo que comanda como uma evolução gradual. E fruto de um trabalho intenso que provocou não apenas o crescimento do clube, como também dele mesmo e dos jogadores. No mais, perguntado sobre o seu futuro no Vicente Calderón, o argentino ressaltou que não pretende sair no momento, embora contraponha dizendo que sua ida a outra equipe será um processo natural para o futuro.

“Quando escuto de outros treinadores que o Atlético tem um estilo de jogo, isso me deixa contente. Não é fácil ter um estilo de jogo. Um estilo pode ter vários funcionamentos, diferentes posturas táticas. Mas nosso estilo de jogo está absolutamente marcado e são as formas que podem variar”, declara. “Nosso desafio é com nós mesmos: superar. Como aconteceu nas temporadas anteriores, outra vez competimos com Real Madrid e Barcelona. E isso não é casualidade, há uma equipe intensa, que trabalha bem defensivamente, há um trabalho muito maior que já se verá. Há uma confirmação”.

“Eu me vejo como um treinador jovem, que hoje está no lugar onde quer estar. Eu me motivo muito a dar ao clube o que estamos dando: seu crescimento, sua permanência sustentada nas competições europeias. Mas sei que o caminho de treinador tem muitos lugares e algum dia me tocará estar em um time diferente. É parte da vida”, pontua.

Simeone também comentou a oportunidade de ensinar ao jovem grupo que tem em mãos: “No elenco, temos muita gente jovem. E se eles aprenderem rapidamente o jogo de equipe, vão deixar rápido de jogar só com a bola. Eu preciso ver que eles cresçam e, para isso, é preciso ter inteligência. Por exemplo, Kranevitter chegou de um River fantástico e, no começo, não era nem relacionado. Mas ele observa e tem olhos de coruja: está absorvendo todo o tempo, te pergunta tudo, quere aprender. Outro dia fez uma partidaça contra o Valencia. Está agregando um montão de coisas às muitas que já trazia. Vai ser o melhor, porque tem a inteligência de saber escutar, e não é fácil saber escutar. Você crê que todos escutam? Não, todos te olham, mas nem todos te escutam”.

Por fim, Simeone olha para trás e destrincha a própria evolução na carreira. Ressalta como as diferentes situações ajudaram a moldá-lo. E também o tornaram um treinador melhor, que não se furta a dizer que seguirá aprendendo a cada dia, até o final da carreira.

“Eu não sou muito de me olhar no espelho. Mas, com o acúmulo de situações de vida, sem dúvida que demos dado um importante passo adiante. A ida ao Catania me fez compreender que existia algo a mais. Porque saí de equipes como o River, o San Lorenzo ou o Estudiantes, preparadas para serem campeãs, e entrei em outra que custava muito ganhar como visitante. Sou muito mais equilibrado agora. O Simeone treinador vai seguir mudando. Vou atrás das características dos jogadores. Jogava de maneira ofensiva no Catania, hoje o que me convém pelos jogadores que tenho é atuar com mais meio-campistas. Quando enfrento times que jogam como eu jogava há 10 anos, vejo que tenho mais base”, finaliza.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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