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La Liga: Unai Simón faz questionamentos justos sobre câmeras nos vestiários

Goleiro do Athletic Bilbao e da seleção da Espanha, Unai Simón afirmou que as câmeras colocadas por La Liga nos vestiários prejudicam um local sagrado aos jogadores

La Liga tenta transformar sua imagem na atual temporada. Claramente o Campeonato Espanhol perdeu terreno em relação a outras ligas europeias, com a debandada de grandes astros, e o primeiro passo contundente da gestão do torneio é buscar uma pretensa “modernização da marca”. Há um novo pacote gráfico exibido a cada jogo na atual temporada, novas informações em tempo real e também uma tentativa de aproximar os espectadores dos atletas. Contudo, a invasão de câmeras ocorrida na primeira rodada causa incômodo nos próprios clubes da Espanha.

Uma das novidades de La Liga é mostrar mais de perto os momentos das equipes fora das quatro linhas. As câmeras passaram a registrar de maneira mais invasiva as conversas dos técnicos com os jogadores à beira do campo. Além disso, também começaram a acontecer filmagens dentro dos vestiários. Tal iniciativa de La Liga não é exatamente uma novidade, diante da forma como os documentários de bastidores se tornaram cada vez mais comuns nas grandes competições. Todavia, existe uma quebra de naturalidade e de rotina que se torna também um entrave. Além do mais, é tudo ao vivo, sem uma edição cuidadosa.

O primeiro a vocalizar o descontentamento foi Unai Simón. E o goleiro do Athletic Bilbao possui grande representatividade, não apenas por sua importância no clube, mas também pelo histórico recente na seleção. Em entrevista coletiva, o arqueiro dos Leones foi bem claro em suas ideias: para ele, as câmeras retiram a intimidade e aquilo que deveria ser vivido apenas entre os atletas. Quebra-se o que deveria ser um ambiente alheio à superexposição que os jogadores sofrem em campo.

“Para mim, os vestiários são algo pessoal, privado, só para nós. Isso tanto aqui no CT de Lezama e em San Mamés quanto em qualquer outro estádio. Quando você está se preparando para uma partida, precisa de seus próprios rituais, da meditação, da concentração. Você precisa das pessoas que você se sente confortável, e não ver câmeras filmando o que você está fazendo”, comentou Unai Simón.

O Pai Nosso da discórdia

O posicionamento de Unai Simón tem um contexto. Antes da partida contra o Real Madrid no último sábado, a transmissão de La Liga filmou os jogadores do Athletic Bilbao rezando um “Pai Nosso”. O clube possui uma tradição nesse sentido, relacionada inclusive com a comunidade católica do País Basco – e representada nos próprios símbolos da agremiação, a exemplo do estádio de San Mamés. Porém, como tantas coisas na internet, a reza gerou uma discussão exagerada nas redes sociais. E isso respingou sobre os jogadores.

Um ponto pertinente levantado por Simón é que os jogadores não querem que a audiência saiba de tudo o que eles fazem, mesmo detalhes banais. Não é só a crença de cada um. Há rituais que não precisam se tornar públicos, como os cuidados pessoais e a própria fé. O que deveria ser um momento de proteção antes da partida acaba se transformando em preocupação a mais, por aquilo que será exposto ou não.

“Não sei, mas você pode colocar suas caneleiras de um jeito específico que não gostaria que ninguém mais soubesse, ou amarrar seus cadarços de uma forma específica, ou rezar para um santo que você não gostaria que outros soubessem. Qualquer coisa. No fim das contas, como jogadores, temos muitas manias que não gostaríamos de revelar em público”, pontuou o goleiro.

Além disso, Unai Simón salientou como é importante manifestar o desconforto, mesmo que não seja alguém com poder de decisão. A primeira rodada do Campeonato Espanhol teve um foco grande sobre os longos acréscimos e a atuação das arbitragens. Entretanto, há entraves nos bastidores que os próprios atletas sentem. A postura do arqueiro da seleção talvez permita que outros colegas se posicionem contra as medidas de La Liga.

“Pessoalmente, não gosto disso, não me sinto confortável com isso. Acho que é nosso momento sagrado e alguém está invadindo. Mas, como no caso dos acréscimos mais longos, não sou ninguém para dizer que as câmeras deveriam ser proibidas nos vestiários. Estou apenas dando minha opinião que acho que estão invadindo nosso espaço pessoal. Estão invadindo nossos momentos solitários antes das partidas, em que precisamos estar calmos, bem. Não quero pensar muito sobre isso, mas é como sinto e sempre vivenciei os vestiários antes de entrar em campo”, concluiu o camisa 1.

“O futebol logicamente é um show para os torcedores. Entendo que as pessoas queiram ver partidas continuamente, mas não podemos nos esquecer que não somos máquinas. Somos humanos e temos limites, sofremos. Ultimamente estamos vendo mais lesões complicadas e creio que esse é um assunto para se prestar atenção. Não sou eu que tomo essas decisões, eu sou um funcionário. É muita carga em uma temporada, mas eu preciso jogar as partidas que me pedem”, finalizou Unai Simón.

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A falta de diálogo

Outra questão fundamental que fica implícita no discurso de Unai Simón é a falta de diálogo com La Liga. A decisão de colocar câmeras em todos os ambientes foi realizada de cima para baixo, sem conversar diretamente com os jogadores. E tal postura autoritária nem é exatamente uma novidade da entidade, que tem muito mais atritos com seus atletas do que tenta protegê-los. Um episódio mais do que evidente sobre isso se viu nas declarações públicas de Javier Tebas, presidente de La Liga, nos casos de racismo contra Vinícius Júnior. Se um jogador não é levado em consideração nem quando é vítima de um episódio desta magnitude e gravidade, dificilmente consideraram a privacidade nos vestiários, no que tende a ser visto como algo menor.

O problema de La Liga é pensar muito na roupagem e não no produto. É fato que a competição está perdendo espaço não pela maneira como se vende, mas pela qualidade das partidas que oferece. La Liga deveria estar mais interessada em melhorar os aspectos técnicos do campeonato que acabaram eclipsados nos últimos anos e, principalmente, evitar a debandada de jogadores. Há uma retração do mercado de transferências espanhol, que se nota em quase todos os clubes da competição, inclusive em comparação com a Serie A e a Bundesliga. Mesmo os novos acordos financeiros não auxiliaram. Sem os melhores jogadores, não é uma câmera nos vestiários que ajudará.

E não é apenas um entrave sobre o financiamento de La Liga. Há melhoras mais acessíveis. Por exemplo, a arbitragem da Espanha é claramente a pior das cinco grandes ligas da Europa. A primeira rodada da nova temporada só reitera essa afirmação. Mesmo no caso de proteger os interesses dos jogadores e deixá-los mais à vontade em campo, não há um olhar mínimo das entidades gestoras. Se os atletas sequer se sentem bem para performar, não é de se estranhar problemas que ocorram também fora de campo.

A tecnologia pode ajudar o Campeonato Espanhol a se tornar mais palatável e atrativo ao público. Entretanto, existe uma fronteira constantemente ultrapassada quando dirigentes dizem que querem tornar o futebol “mais interessante para os jovens”. Isso não vai acontecer com virais nos vestiários e picuinhas de bastidores, mas sim com uma qualidade maior do próprio esporte. E, para que as condições se tornem superiores, os jogadores também precisam ser ouvidos. La Liga não consegue fazer o mínimo para buscar esse equilíbrio e também novas medidas que não impactem no próprio ambiente.

Vale lembrar ainda que La Liga tem um pioneirismo muito legal em relação às transmissões. O Campeonato Espanhol foi um dos primeiros a investir em reações nas arquibancadas e em detalhes do que acontece entre os jogadores em campo – especialmente através do programa “El Día Después”. Foi uma maneira de trazer mais espectadores para dentro do estádio e apresentar novos ângulos dos 90 minutos. Diante disso, as câmeras nos vestiários ou qualquer quebra de privacidade neste sentido soam supérfluas. A relação com a competição se criou fazendo mais gente sentir a atmosfera de verdade, não tentando forçar uma presença indesejada. La Liga vai por um caminho de se tornar um evento midiático e de bastidores, quando só precisava valorizar mais a tradição de seus clubes e aquilo que instiga a paixão dentro dos estádios.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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