Espanha

‘Estou em primeiro lugar de piores contratações da história do Real Madrid, ao lado do Hazard’

Brasileiro relembra passagem por Madri, cita lesões e concorrência com astros do elenco como fatores para desempenho abaixo das expectativas

A trajetória de Kaká no futebol europeu foi marcada por momentos de brilho intenso, especialmente durante sua passagem pelo Milan, onde atingiu o auge da carreira e conquistou o prêmio de melhor jogador do mundo em 2007.

No entanto, a história escrita pelo brasileiro no Real Madrid seguiu um roteiro diferente. Em entrevista ao programa “Rio Ferdinand Presents”, o ex-meia fez uma análise sincera de sua experiência no gigante espanhol e reconheceu que ficou distante do desempenho esperado quando desembarcou em Madri.

Contratado em 2009 por cerca de 65 milhões de euros após anos de destaque no futebol italiano, Kaká chegou ao Santiago Bernabéu cercado por enorme expectativa. O brasileiro fazia parte de uma geração de reforços estrelados que incluía nomes como Cristiano Ronaldo e Karim Benzema. Apesar do status de principal jogador do planeta poucos anos antes, ele não conseguiu repetir o mesmo nível de atuação na Espanha.

Ao relembrar o período, o ex-jogador afirmou que compreende por que muitos torcedores o colocam entre as contratações menos bem-sucedidas da história do clube merengue.

— Minha passagem pelo Real Madrid foi muito completa. Houve questões pessoais e profissionais. Cheguei vindo do Milan como o melhor do mundo e, se você pesquisar hoje pelas piores contratações da história do Real Madrid, vai me encontrar em primeiro lugar ao lado do Hazard. Você pode ver: Kaká e Hazard.

Por que Kaká não foi bem no Real Madrid?

Kaká em ação pelo Real Madrid
Kaká em ação pelo Real Madrid (Foto: Depositphotos / Imago)

Durante a conversa com o ex-zagueiro inglês, Kaká apontou os fatores que, em sua avaliação, impediram uma trajetória mais consistente no Real Madrid. O principal deles foi a série de problemas físicos que enfrentou logo nos primeiros anos no clube. As lesões comprometeram sua sequência de jogos justamente em um momento de adaptação ao futebol espanhol.

Além da questão física, o brasileiro destacou a forte concorrência interna e as escolhas feitas por José Mourinho, treinador que comandou o Real entre 2010 e 2013. Segundo Kaká, a preferência do técnico por outros atletas acabou reduzindo suas oportunidades de atuar regularmente.

— Meu problema no Real Madrid foi, primeiro, as lesões e, segundo, as decisões do treinador. Mourinho preferia outros jogadores: Özil, Di María, Benzema, Cristiano… E eu estava ali. Todos nós disputávamos duas vagas no time titular. Ele optou por outros jogadores. Esse período foi muito importante para mim, porque tentei mostrar a ele, fiz tudo o que pude para provar que poderia jogar mais e ter mais continuidade.

Mesmo sem alcançar o protagonismo imaginado quando foi contratado, Kaká acumulou números relevantes durante os quatro anos em que vestiu a camisa branca. Entre 2009 e 2013, disputou 120 partidas, marcou 29 gols, distribuiu 39 assistências e participou das conquistas de uma LaLiga, uma Copa do Rei e uma Supercopa da Espanha.

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Reflexão sobre identidade e legado no clube merengue

Kaká durante treino do Real Madrid
Kaká durante treino do Real Madrid (Foto: Chema Rey / Imago)

Se dentro de campo os resultados ficaram abaixo das expectativas, fora dele o período serviu como um importante aprendizado pessoal. Kaká revelou que enfrentou momentos de reflexão sobre sua própria identidade profissional, especialmente diante do contraste entre o reconhecimento conquistado no Milan e as críticas recebidas na Espanha.

— Ao mesmo tempo, eu enfrentava uma questão pessoal de identidade. Quem eu era: o melhor do mundo ou uma das piores contratações do Real Madrid nos últimos anos? Eu pensava nisso. A fé foi muito importante nesse momento. Eu não era nem o melhor do mundo nem uma das piores contratações da história do Real Madrid. Eu era um filho de Deus.

— Minha identidade estava na fé. Deus me amava em qualquer situação. Eu rendi no Milan e Deus me abençoou. Se no Madrid eu não conseguia render, eu não podia controlar o resultado, mas Deus continuava comigo e eu seguia abençoado. Emocionalmente e pessoalmente, vivi de tudo nesses quatro anos. Foi um período incrível.

Apesar de reconhecer que sua passagem não atingiu o nível esperado por clube e torcida, o ex-jogador garante que deixou o Real Madrid mantendo o respeito de dirigentes, funcionários e torcedores. Kaká destacou especialmente a relação construída com o presidente Florentino Pérez e afirmou que continua sendo recebido de forma calorosa sempre que retorna ao clube.

— Gosto de ver Florentino, os jogadores e os funcionários que continuam no clube e perceber que as portas seguem abertas para mim. Sempre que me veem, dizem: ‘Este é o seu clube, é ótimo tê-lo aqui’. No dia em que deixei o Real Madrid, Florentino me chamou ao seu escritório e disse: ‘Olha, as coisas não saíram como todos nós queríamos, mas estou muito feliz por você ter jogado por nós. Você sempre foi profissional e íntegro. Nunca falou mal do treinador, do clube ou de ninguém daqui’.

— Eu nunca disse nada e nunca vão me ver falando mal do clube ou do treinador. Tive que passar por aquilo. Estou muito feliz com a pessoa que sou hoje e isso se deve, em parte, àquela época — concluiu.

Foto de Guilherme Calvano

Guilherme CalvanoRedator

Jornalista pela UNESA, nascido e criado no Rio de Janeiro. Cobriu o Flamengo no Coluna do Fla e o Chelsea no Blues of Stamford. Na Trivela, é redator e escreve sobre futebol brasileiro e internacional.

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