Espanha

A jornada espiritual de capitão do Barcelona para tratar ansiedade e ser campeão sobre o Real Madrid

Após afastamento por questões emocionais, zagueiro retorna com título e é celebrado pelo elenco blaugrana

Ronald Araújo foi o último jogador do Barcelona a subir ao pódio em Jeddah para receber a medalha da Supercopa da Espanha. O gesto não foi protocolar. Minutos antes, após a vitória por 3 a 2 sobre o Real Madrid, o elenco havia se reunido ao redor do zagueiro uruguaio, arremessado para o alto como símbolo de uma conquista coletiva — e pessoal.

Ao passar pelo pódio, Araujo recebeu um abraço longo do presidente culé, Joan Laporta, sob o olhar do executivo rival, Florentino Pérez. Em seguida, ergueu o troféu que abriu a temporada espanhola com título para o Barça, o quarto doméstico consecutivo do clube. Para um jogador que vinha de um dos períodos mais difíceis da carreira, era mais do que uma taça: era um retorno.

O peso das críticas e a pausa necessária no Barcelona

O ponto de ruptura aconteceu em 25 de novembro, na derrota por 3 a 0 para o Chelsea, pela Champions League. Expulso ainda no primeiro tempo, Araújo tornou-se o principal alvo das críticas após a eliminação. Dias depois, não voltou aos treinos. Inicialmente, falou-se em gripe. Mas o afastamento se prolongou.

Não era a primeira vez que o uruguaio carregava esse peso. Na temporada anterior, já havia sido responsabilizado por lances decisivos nas eliminações contra Inter de Milão e Paris Saint-Germain, em uma Champions que o Barcelona encara como obsessão desde o último título, em 2015.

Uma semana após o jogo em Stamford Bridge, os agentes do jogador se reuniram com Deco, diretor esportivo do clube. A mensagem foi clara: Araújo não se sentia em condições emocionais de seguir.

Ronald Araujo comemora título da Supercopa com Gavi
Ronald Araujo comemora título da Supercopa com Gavi (Foto: Imago)

O Barça concordou com uma licença por tempo indeterminado. Conforme informado pelo site inglês “The Athletic”, com aval do próprio atleta, o diagnóstico era ansiedade. O clube optou por blindá-lo. Pediu respeito, reduziu a exposição pública e deixou claro que o retorno só aconteceria quando o jogador estivesse pronto.

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Fé, reconexão e reconstrução de Ronald Araújo

Araújo é cristão e decidiu usar parte do afastamento para uma jornada espiritual. Viajou ao Oriente Médio e visitou locais sagrados em Belém e Jerusalém. Foi uma busca por silêncio, longe do ruído que havia tomado conta de sua carreira nos últimos meses.

A única manifestação pública veio depois da final da Supercopa. Em uma postagem nas redes sociais, escreveu:

“Aprendi que parar no momento certo é amor-próprio. Cuidar da mente e do coração não é desistir. Confiar que Deus trabalha mesmo no silêncio me permitiu voltar mais forte.”

Após alguns dias fora, retornou à Espanha e, durante a pausa de Natal, viajou ao Uruguai para ficar com a família. Manteve a rotina de treinos com um preparador físico e um coach pessoal, seguindo também um plano enviado pelo clube, para que o afastamento não comprometesse sua condição física.

O retorno ao grupo e o simbolismo contra o Real Madrid

A volta oficial aconteceu em 29 de dezembro, no primeiro treino aberto ao público após o Natal. Araujo completou a atividade, ainda sem estar pronto para jogar, mas sob aplausos dos torcedores. Dias depois, Hansi Flick foi cauteloso:

“Ele está bem, talvez não 100% fisicamente, mas está bem. É ele quem decide o ritmo do retorno.”

Com a Supercopa se aproximando, jogador e treinador conversaram novamente. Araujo pediu para viajar à Arábia Saudita, mesmo sem garantia de minutos. Queria estar com o grupo. Evoluiu nos treinos e, antes da final contra o Real Madrid, foi relacionado no banco.

No vestiário, assumiu um papel que sempre foi seu: liderança. Fez o discurso pré-jogo, agradeceu o apoio dos companheiros e reforçou o significado coletivo daquela temporada. Vamos continuar fazendo história, disse.

Com a expulsão de Frenkie de Jong nos minutos finais, Flick recorreu a ele. Araújo entrou para segurar o resultado e participou diretamente do momento decisivo da conquista.

A vitória valeu um título. Para Ronald Araújo, significou algo maior: a confirmação de que parar também pode ser um ato de força — e que voltar, às vezes, exige muito mais do que simplesmente estar em campo.

Foto de Guilherme Ramos

Guilherme RamosRedator

Jornalista pela UNESP. Vencedor do prêmio ACEESP de melhor matéria escrita de 2025. Escreveu um livro sobre tática no futebol e, na Trivela, escreve sobre futebol nacional, internacional e de seleções.

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