Jonas: “Ninguém sabia da multa”

Aos 27 anos, Jonas passa pelo melhor momento da carreira. A boa fase começou no Grêmio, nas duas últimas temporadas, resultou na artilharia do Brasileirão, a tão sonhada transferência para o futebol europeu e a primeira convocação para a Seleção Brasileira. Hoje, o atacante nascido no interior de São Paulo conquista, aos poucos, seu lugar no Valencia.
E ele explicou como ocorreu sua saída do Grêmio no início do ano, com uma multa baixa para os padrões internacionais (€ 1,250 milhão). “Se eu tivesse ido mal, esse valor seria até alto hoje em dia”, lembra o jogador.
Em entrevista exclusiva à Trivela, o jogador falou também sobre seu atual momento, a ideia de permanecer na Europa pelo menos até depois da Copa do Mundo de 2014 e, até mesmo, sobre o rótulo de “pior atacante do mundo” dado por um jornal espanhol há dois anos. “Claro que na época fiquei chateado, mas provei em campo o contrário”, diz Jonas, que, realmente, tem mostrado aos espanhóis que eles estavam errados.
Você, aos poucos, tem conquistado mais espaço no Valencia, e recentemente foi chamado pelo técnico Mano Menezes. Passados alguns meses, acha que essa transferência para a Europa veio no momento certo da sua carreira?
Sim, por isso que acabei saindo do Grêmio. Tenho um carinho enorme pelo clube, e é difícil sair de um clube que você gosta tanto. Mas era um plano de carreira meu, e eu não já não era tão jovem. Acho que aconteceu na hora certa.
Você tem enfrentado algum tipo de dificuldade na adaptação à Espanha, tanto no futebol como na vida social?
Por incrível que pareça, não tive dificuldades. Sou bem caseiro, tranquilo, e a língua é bem parecida, isso ajuda muito. O estilo de jogo é um pouco diferente, mais rápido. Aqui eles sempre molham o gramado antes dos jogos e fica mais rápido. Até nos treinos eles molham também, para nos acostumarmos. Minha família também está aqui, meu irmão cuida de tudo pra mim, fala espanhol, se preparou. E a cidade tem um clima parecido com Porto Alegre, assim como a cultura.
O que você achou do nível do Campeonato Espanhol? Muito superior ao Brasileirão?
Eu diria que em termos de títulos não, aqui só dois times brigam, estão bem na frente. Muitos times brasileiros lutam pelo título, dá para apontar oito, dez. Agora, a qualidade na média não tem tanta diferença, mas o nível do futebol aqui é muito alto. Acho que talvez esteja um pouco à frente.
E em termos de estrutura?
Aí estão bem à frente. Os grandes clubes no Brasil têm essa mentalidade, sabem que um campeonato não se ganha somente nas quatro linhas. Aqui os estádios, centros de treinamento são muito bons, estão bem à frente da gente. Acho que, com a Copa no Brasil, isso vai dar uma mudada, não sei se vai ficar igual, mas vai ficar muito bom para jogar.
Já que você citou a Copa no Brasil, espera estar atuando no futebol brasileiro nessa época?
Quero ficar aqui o máximo possível. Tenho contrato até julho de 2015, espero cumprir meu contrato até o final. Estou em um clube com uma estrutura muito boa, está sempre jogando a Champions. Ao final do meu contrato estarei com 32 anos, uma idade legal para voltar. Mas não volto antes da Copa.
Qual é a expectativa no Valencia para a próxima temporada, já que a classificação para a Liga dos Campeões está praticamente assegurada? Fala-se em reforços e investimentos?
O grupo do Valencia é muito forte. Em julho, no início da temporada, vários jogadores chegaram. O time caiu para o Schalke nas oitavas da Champions, lutou bastante. Claro que pensamos em títulos, mas a Champions é sempre o principal objetivo, até porque Barcelona e Real Madrid estão bem à frente. Se ficamos na quarta posição, o pessoal reclama. Os torcedores cobram muito. Depois do jogo com o Real Madrid, que perdemos de 6 a 3, a torcida depois protestou. Claro que até certo ponto, não como no Brasil.
E o que aconteceu nesse 6 a 3?
O time se expôs muito, esqueceu de marcar. Contra o Real, se você deixa espaços, sempre fica 4 contra 2, 4 contra 3 nos contra-ataques, e foi o que aconteceu. Nós quisemos definir no começo, acavamos levando quatro gols e aí abalou muito todo mundo. Contra o Real tem que atuar igual contra time grande, fechadinho atrás.
Sua fase no Grêmio, que culminou com a artilharia do Campeonato Brasileiro, foi a melhor da carreira?
Sem dúvida. Vinha numa crescente desde a Portuguesa. Claro que é sempre bom atuar por times grandes, mas meu empréstimo para a Portuguesa foi maravilhoso, ganhei muita confiança para voltar ao Grêmio. No Brasileiro fizemos uma grande temporada, um segundo turno sensacional.
Como é o Renato Gaúcho no dia a dia? Ele foca mais a parte tática ou motivacional?
Os dois. Ele sabe o que o jogador gosta, como gosta de ser tratado. Ele faz tanto a parte tática como motivacional, dava moral para os jogadores que estavam em baixa. No Brasileiro ele fez isso, passou moral para quem estava em baixa, e o Grêmio foi muito bem. O grupo era bomo, não mudou nada. Só que ficou baqueado com a eliminação nas semifinais da Copa do Brasil com o Silas, que vinha fazendo um bom trabalho. Daí veio o Brasileiro, 38 rodadas pela frente, é difícil se motivar novamente. O Renato chegou e passou confiança para o grupo.
Como foi sua saída do Guarani?
Não foi muito legal, tive que sair na Justiça. Assinei um contrato em 2004 até 2005. Fui vice-artilheiro da Série B, o Guarani foi muito bem. Só que eu vi coisas muito erradas, eles acabaram não sendo muito corretos comigo.
Esse seu início de carreira foi na gestão do ex-presidente José Luiz Lourencetti, certo?
Isso, na gestão Lourencetti. O processo se arrastou por uns quatro ou cinco anos, e no final o juiz deu ganho de causa pra mim. Mas não ganhei nada de dinheiro! Não quis tirar dinheiro do Guarani. Aí fui para o Santos, o pessoal ficou um pouco furioso. Eu até queria ficar, estava tudo certo, mas não vi a oportunidade de assinar um contrato longo.
O que você viu de errado no clube?
Tinha contrato em branco… Certa vez eu pedi uma cópia do meu contrato, um direito de qualquer jogador, e eles não quiseram me dar. Quando fui ver o contrato mudaram várias coisas que tinham dito…
No Santos você sofreu com lesões. Acha que poderia ter estourado para o futebol nacional mais cedo se tudo isso não tivesse acontecido?
Eu não tive base nenhuma. Fiquei um ano nos juniores e fui para o profissional. Fiquei praticamente só sete meses nos profissionais do Guarani. Fui para o Santos, fiz cinco jogos e estourei os ligamentos do joelho. Acho que a parte muscular não estava pronta. Era o Vanderlei que estava no Santos nessa época, ele gostava muito de mim. Fiquei seis meses parado, tinha assinado contrato de dois anos e já faltava um. Eles queriam renovar comigo, mas aí veio a proposta do Grêmio e houve um acordo.
Acha que o Grêmio se arrependeu de não ter colocado uma cláusula de rescisão maior no seu contrato? Ou isso foi um pedido seu?
Tenho um carinho muito grande pelo Grêmio. Ninguém sabia da multa! Meu irmão nunca revelou para ninguém. A minha intenção era renovar com o Grêmio, eu ia até aceitar uma multa maior, um contrato longo, como o do Victor, para eles gerenciarem minha carreira. Só que no início de 2011 sentamos para conversar, eles fizeram uma proposta, conversamos para outra e aí o Valencia chegou. E como eu já disse, eu tinha um plano de carreira pra mim. Não foi por dinheiro, tanto que fui conversar com o Renato Gaúcho e expliquei isso, falei que eles nem precisavam buscar mais dinheiro pra mim porque não era isso que eu queria, não precisavam ficar correndo atrás. Era um projeto meu. Tanto que ninguém nem da imprensa sabia da multa, e eu podia ter jogado na impresa isso, ia virar leilão. Quando acertei, aceitei ceder um pouco no salário e o Grêmio cedeu na multa para clubes do exterior. Hoje todos sabem o valor, 1,250 milhão de euros, e isso foi uma aposta minha. Aí eu estourei, fui bem no Brasileiro. Se não, se eu tivesse ido mal, esse valor seria até alto hoje em dia.
E aquela história criada pelo jornal Mundo Deportivo de “pior atacante do mundo”, por causa daquele seu gol perdido, lembraram dela quando você chegou à Espanha?
Não falaram. O bom foi que como eu fui muito bem no ano passado, essa história acabou. Até porque não seria muito legal ficar com esse rótulo, né? (risos) Acho que um ou dois jornais vieram falar comigo, mas já diziam que eu fui muito bem depois. Claro que na época fiquei chateado, mas provei em campo o contrário.
Sobre seu início de carreira, quando você decidiu abandonar a faculdade e tentar a sorte no futebol, se lembra da manhã seguinte? Quando você acordou como jogador.
Lembro porque minha família é muito unida, todo domingo almoçávamos juntos. O Guarani já me queria, o Donizete de Lima [trabalhava nos juniores] queria que eu fosse mesmo com 20 anos. Ele queria que eu passasse um ano lá nos juniores, se fosse bem subiria para os profissionais. Tranquei o curso de Farmácia na Uniara. Morava em Araras de segunda a sexta e aí voltava para Taiuva às sextas. Pensei, 'vou tentar um ano, se não der certo eu volto'. Já tinha feito dois anos da faculdade, qualquer coisa voltava, fazia mais três e estava tudo certo.
Para finalizar: pensa em um dia retomar a carreira de farmacêutico ou quando parar de jogar vai voltar para o interior e cuidar de outros negócios?
Farmácia nem pensar. Fiz o curso mais no embalo do meu irmão do meio, que é farmacêutico, tinha uma farmácia quando eu estava no terceiro colegial. Eu sou o mais novo, meu irmão mais velho é advogado. Pretendo fazer outro curso, talvez Administração, mas a área de Saúde nunca mais.



