Espanha

Jeitinho brasileño

A torcia do Benfica não tinha entendido nada. A imprensa criticava. Era 2010 e o clube havia gasto € 8,5 milhões para contratar o goleiro Roberto, segundo reserva do Atlético de Madrid que havia feito meia temporada como titular no Zaragoza, para onde havia sido emprestado. O espanhol não foi bem em Lisboa e parecia mais um investimento furado da diretoria encarnada. Até que, no final de julho, o Zaragoza contratou o jogador por € 8,6 milhões. E a confusão começava.

O Zaragoza tem dívidas de mais de € 100 milhões e passa por processo de intervenção para defender o direito de seus credores. A CMVM (Comissão do Mercado de Valores Mobiliários) de Portugal desconfiou do negócio e pediu mais esclarecimentos aos benfiquistas (o clube tem ações na bolsa e precisa prestar esse tipo de esclarecimento). O valor era mesmo o anunciado? Qual a origem do dinheiro? O Zaragoza teria condições de pagar o valor acertado?

O Benfica informou que o clube aragonês havia pago apenas € 86 mil. Todo o restante vinha de uma “sociedade de direito espanhol situada a um nível mais elevado da cadeia de domínio da Real Zaragoza”. A CMVM aceitou a explicação encarnada e aprovou a transação. Quem não gostou da história foram os espanhóis.

O modelo de negócio é muito semelhante ao praticado no Brasil. Um grupo de investidores levantou o dinheiro e fez a contratação. O Zaragoza tem os “derechos federativos” (deixei como a imprensa espanhola tem usado para enfatizar as semelhanças), enquanto que os investidores detêm os “derechos económicos”. Caso Roberto seja vendido com lucro, parte desse valor fica com os maños. Sim, é o mesmíssimo esquema de Traffic, Sondas e afins com os clubes brasileiros. Só que há um agravante: um dos membros do grupo de investidores é Agapito Iglesias, presidente do Zaragoza. Um evidente conflito de interesses.

Ao contrário do que ocorre aqui, tal manobra não foi bem digerida na Espanha. A AFE (associação de jogadores) reprovou publicamente o artifício criado. A LFP (Liga de Fútbol Profesional) afirmou que, pela primeira vez na história, não aderiria ao consórcio de credores que tenta negociar a dívida zaragocista. O clube diz não estar preocupado com isso, defendendo que sua ação é legal.

No entanto, o debate não é apenas sobre o que a lei prevê. É sobre evitar ou não que se crie um precedente. Há um risco de clubes médios e pequenos da Espanha adotarem esse tipo de medida, o que deixaria quase todo o futebol espanhol nas mãos de investidores sem compromisso com os clubes e seus torcedores. O brasileiro sabe bem os riscos disso, e já vê como os clubes aos poucos tentam recuperar sua autonomia diante de tais “parceiros”. A liga espanhola não precisa passar pelo mesmo processo.

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Equipe Trivela

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