Espanha

Ilusión madridista

É comum ler ou ouvir críticas sobre a torcida do Real Madrid. Chatos, arrogantes, metidos, não sabem torcer, vão ao estádio apenas para assistir são algumas das maledicências ditas. Além, é claro, da clássica afirmação que “era o time do ditador Francisco Franco”. Tudo isso, de certa maneira, não está errado, mas é preciso pontuar algumas explicações.

Para tanto, as apresentações de Kaká e Cristiano Ronaldo no Santiago Bernabéu são emblemáticas. O brasileiro vestiu a camisa 8 do Real diante de 50 mil madridistas, enquanto o português vestirá o uniforme blanco pela primeira vez nesta segunda-feira – e são esperados 80 mil seguidores. Elas representam um sentimento comum a todos os apaixonados pelo Real Madrid: la ilusión.

Em espanhol, ilusión não pode ser traduzido simplesmente como ilusão. Representa algo maior. É quase uma utopia, algo praticamente impossível de ser alcançado, um sentimento puro, mágico. O jornalista John Carlin, no livro Anjos Brancos – que retrata os bastidores da primeira era Florentino Pérez no clube – descreve bem isso. E foi exatamente no período dos primeiro Galácticos que isso voltou a florescer em Madrid após muitos anos.

Com Figo, Zidane, Ronaldo, Beckham e cia os madridistas voltaram a ver um time como o dos anos 50 em campo, com Kopa, Di Stéfano, Puskas e Gento. Voltaram a sonhar, a ver o Real como o maior clube do mundo. Um time que não apenas vencia, mas dava espetáculo, reverenciava o futebol com belas jogadas, atletas extraordinários, partidas inesquecíveis.

Isso, naturalmente, sempre foi reforçado com a postura da capital espanhola. Centro da Espanha, conciliadora de todos os conflitos políticos no país (que são muitos), os madrilenos gostam de tudo isso. Madri é uma capital europeia, multicultural, com uma noite fantástica, museus espetaculares e muita história. Vive a cultura como poucas, mas sem perder o fervor das baladas.

A Espanha é um país muito tradicional – falo com conhecimento de causa, porque morei lá -, principalmente no interior. Outras regiões, como Andalucía, Castilla La Mancha e Asturias também valorizam demais seus costumes. Sem falar em comunidades independentistas, como País Vasco, Galicia e Cataluña (todas foram grafadas em espanhol neste parágrafo).

Por isso essa postura considerada arrogante dos madrilenos não é mero acaso. Eles são assim porque precisam ser para lutarem pelo que acreditam e buscam para seu país. Esse sentimento ser passado para o maior e mais tradicional clube da cidade é algo natural. O Atlético de Madrid não tem isso tão evidente por ser o patinho feio, o clube que não tem a maior torcida, sempre luta contra o vizinho gigante. Mas se o assunto é Madrid e a Espanha, os rojiblancos não diferem em nada dos merengues.

Em relação à Franco, pode-se afirmar que as atuais gerações são vítimas de um passado que elas não puderam escolher. O ditador espanhol gostava de um time como qualquer outra pessoa no mundo. Esse time era o Real Madrid. Tudo isso, conciliado ao que foi escrito nas linhas anteriores e a famigerada utilização do futebol com viés político, facilitaram a vida do clube nas décadas de 1950 e 60, majoritariamente.

Assim, ao longo dos anos, criou-se o conceito sobre o Real Madrid. Como eu disse no começo, não é algo mentiroso, mas antes de se criticar, é preciso compreender a dimensão social dos fatos.

Que fique bem claro: esse texto não é uma defesa pró-Real Madrid, e sim uma explanação sobre a questão futebol/história/sociologia.

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Equipe Trivela

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