Espanha

¿Habla español?

Se Oleguer Presas fosse brasileiro, certamente a imprensa diria que é um jogador “diferenciado”. Ele é articulado, estuda economia na UAB (Universidad Autónoma de Barcelona) e sempre dá boas declarações, sobretudo quando é para falar de política (tem opiniões de esquerda), sociedade ou alguma coisa que denote alguma erudição. Por exemplo, tem fortes opiniões de esquerda, se disse contra o envio de tropas espanholas ao Iraque, é contra a globalização e defende o perdão da dívida externa dos países mais pobres.

Ótimo, seria muito bom se todos os jogadores de futebol fossem inteligentes como o lateral-direito reserva do Barcelona. Independentemente de concordar ou não com o que ele diz. Nesta semana, em entrevista ao jornal argentino Olé, o lateral reclamou por ser tratado como um bicho exótico quando comenta sobre política. De acordo com o jogador, qualquer pessoa normal deve fazer isso e com ele não é diferente.

O problema é que às vezes o próprio Oleguer se perde em suas palavras. Sobretudo quando a questão é a relação da Catalunha com Madri. Na última segunda, um dia depois de ser publicada a tal entrevista ao Olé, o lateral blaugrana se negou a dar entrevista em espanhol. De acordo com ele, o catalão é um idioma oficial da Espanha e ninguém pode impedi-lo de se comunicar nesta língua. O jogador não mudou de decisão nem quando os repórteres de rádio e TV argumentaram que iam usar o áudio da entrevista em noticiários para todo o país, atingindo muitas pessoas que não sabem catalão.

Ainda que a alegação seja tecnicamente correta, a atitude é indelicada. Não com os jornalistas e com o governo de Madri, mas com os torcedores. Inclusive torcedores do Barcelona que não são catalães. Oleguer virou um personagem de si mesmo, em que cenas como esta parecem ser pensadas mais para chocar o público em geral e/ou agradar a um grupo determinado de torcedores e conselheiros do Barcelona (os ortodoxos na causa catalã).

Oleguer defende incondicionalmente a autonomia catalã. Aliás, o lateral se diz a favor da independência da região em todos os âmbitos: seleção de futebol, política e economia. Sua posição é tão forte que ele chegou a defender o terrorista Iñaki de Juana Chaos, membro do ETA detido desde 1987 que fez greve de fome em 2006 pelo direito de deixar a prisão (a lei penal espanhola prevê a saída depois de 18 anos de prisão). O jogador do Barcelona colocou em dúvida a existência de um Estado de Direito na Espanha (em tempo: o músico Manu Chao também se pronunciou a favor de De Juana).

Não é à toa que há dúvidas sobre o que ocorreria em uma eventual convocação de Oleguer para a seleção espanhola. Pela sua posição política, não faria sentido aceitá-la, mas haveria o risco de punição. Em 2006, quando foi chamado para uma semana de “convivência” com a seleção, Oleguer se apresentou (como não era data Fifa, não havia obrigação de faze-lo), mas não comentou o caso.

Atitudes e declarações como essas geraram grande antipatia da Espanha por Oleguer. E grande simpatia dos catalães. O que aumenta a crença geral de que o lateral só tem lugar no clube porque suas posições políticas agradam os dirigentes blaugranas. O jogador ficaria como franco atirador, dando declarações polêmicas e fazendo o trabalho sujo da diretoria. Faz sentido se considerarmos que Joan Laporta se aproxima cada vez mais do governo regional catalão.

A mãe de todas as decepções
Par ao jogo decisivo contra a Suécia nas eliminatórias da Eurocopa, Luis Aragonés fez o óbvio com a seleção espanhola: valorizou o talento. Montou um time com quatro meias técnicos (Fàbregas, Xavi, Iniesta e David Silva) e, para não perder poder de marcação, Albelda ficou atrás do quarteto. A decisão obrigou o time a ficar com apenas um atacante – Villa –, algo possível pelo fato de Fernando Torres ainda estar contundido e de Raúl estar fora dos planos do técnico.

Funcionou muito bem. Depois de um início titubeante, os espanhóis tomaram conta do meio-campo e foram encontrando espaço mesmo diante de um adversário bem postado em campo. A vitória veio fácil, por 3 a 0, assegurando uma classificação antecipada. Algo que nem a torcida espanhola imaginava depois de um início de campanha com duas derrotas, para Suécia e Irlanda do Norte.

Como sempre, uma boa atuação da Fúria serviu para toda a imprensa já tratar esse time como favorito ao título europeu. O que, convenhamos, não é. A equipe tem talentos, mas ainda precisa amadurecer mais e alguns jogadores continuarem sua evolução para a Espanha poder se comparar com Alemanha, Itália ou França.

É nesse deslumbre que moram as campanhas decepcionantes da Espanha. Quando Bélgica ou Suécia caem precocemente, ninguém fala em “amarelar”. Simplesmente porque não se espera grandes campanhas dessas seleções. A Espanha está neste nível, com potencial para crescer. Achar que já é uma força mundial é meio caminho para mais um desapontamento.

CURTAS

– O Barcelona processou 68 torcedores que venderam seus carnês de temporada.

– Ainda no Barça: Eto’o já treina normalmente. Mas o clube já se prepara para perder o atacante, provável convocado de Camarões para a Copa Africana de Nações.

– Na apresentação do novo uniforme da seleção espanhola, Luis Aragonés foi visto resmungando a respeito da demora no final do evento. Houve constrangimento com a Adidas e novas críticas recaíram sobre o técnico.

– Apenas Zaragoza e Sevilla protagonizaram surpresas na primeira leva de jogos da terceira fase da Copa do Rei: Valladolid 1×1 Murcia, Pontevedra 1×0 Zaragoza, Málaga 0x0 Racing de Santander, Xerez 0x1 Recreativo de Huelva, Levante 2×1 Almería, Las Palmas 2×4 Villarreal, Denia 1×1 Sevilla, Alcoyano 0x3 Barcelona e Hércules 2×2 Athletic Bilbao.

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Equipe Trivela

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