Espanha

Gullit: ‘Simeone, para mim, está entre os melhores treinadores de todos os tempos’

Ruud Gullit exalta longevidade e gestão humana do treinador argentino após vice do Atlético de Madrid na Copa do Rei

O desafio de manter a relevância em um mesmo vestiário por mais de uma década é uma das tarefas mais ingratas do futebol moderno. Para Ruud Gullit, no entanto, Diego Simeone não apenas sobreviveu a esse processo, como se tornou uma das maiores referências da história do jogo.

O craque holandês, voz autorizada por sua trajetória vitoriosa no Milan e na seleção de seu país, aproveitou sua passagem por Madri como embaixador dos Prêmios Laureus para colocar o “Cholo” em um patamar de imortalidade técnica e emocional.

A análise de Gullit não se baseia apenas em estatísticas frias, mas na observação do cotidiano e da resiliência. Para o ex-meia, a longevidade do argentino no comando do Atlético de Madrid é um fenômeno que merece ser mais valorizado pela crítica internacional

— Diego Simeone, para mim, está entre os melhores treinadores de todos os tempos. Acho que ele não recebe o crédito que merece quando alguém permanece em um clube por tanto tempo. E fazer o mesmo no Atlético é uma tarefa incrível — destacou Gullit.

O magnetismo de Simeone e a gestão de almas

Simeone durante jogo do Atlético de Madrid
Simeone durante jogo do Atlético de Madrid (Foto: Maciej Rogowski / Ball Raw Images / Imago)

O diferencial de Simeone, na visão de Gullit, transcende o desenho tático ou as linhas baixas que caracterizaram o Atleti por anos. O foco está na psicologia e no controle do grupo.

Mesmo sem terem sido contemporâneos na Itália — já que Gullit encerrava seu ciclo no Calcio quando Simeone iniciava o seu na Internazionale —, o holandês acompanhou de perto a construção da imagem do argentino como um líder nato no cenário europeu. Para ele, essa postura aguerrida e estratégica que Simeone demonstrava como jogador se transformou em uma ferramenta de elite à beira do campo.

— As coisas que ele faz em campo, e também com seus jogadores, são impressionantes. Ele é bom com as pessoas. Ele sempre sabe como motivar seu time e ele sempre sabe como motivar seus jogadores.

Essa capacidade de manter a intensidade de atletas que já conquistaram títulos na carreira, ou de integrar novos reforços a uma filosofia tão rígida quanto a do “Cholismo”, é o que sustenta a tese de Gullit. Na visão do holandês, o treinador é um mestre da natureza humana: “É por isso que, para mim, Simeone é um dos melhores treinadores que já existiram no futebol”.

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Simeone entre o altar histórico e a cobrança do presente

Simeone após vice do Atlético na Copa do Rei
Simeone após vice do Atlético na Copa do Rei (Foto: Alterphotos / Imago)

O futebol, porém, não vive apenas de reverências ao passado ou de personalidades magnéticas. Se as palavras de Gullit pintam o retrato de um técnico de elite, a realidade do Estádio Metropolitano em 2026 impõe uma moldura mais complexa e, por vezes, cinzenta.

Existe hoje um abismo incômodo entre o status de figura histórica que Simeone ostenta e os resultados imediatos que o Atlético de Madrid entrega em campo.

Cholo mudou o patamar do clube, e isso é um fato indiscutível que ninguém ousa apagar. Quando assumiu em 2011, herdou um time em baixa e o transformou em uma potência espanhola, rompendo a lógica de Real Madrid e Barcelona. Naquele momento inicial, o Colchonero era o símbolo máximo do “fazer mais com menos”. Foi assim que venceu a Liga Europa em 2011/12 e, dois anos depois, conquistou uma LaLiga histórica.

O problema é que, com o passar das temporadas, o contexto mudou drasticamente — e a entrega não acompanhou a mesma curva de crescimento. Hoje, o Atlético é um dos clubes que mais investe no cenário mundial. Simeone ostenta o título de treinador mais bem pago do planeta, e o elenco atual é profundo, caro e constantemente reforçado com peças de grife.

A derrota recente na final da Copa do Rei para a Real Sociedad não foi um “acidente isolado”, mas o reflexo de um time que parece ter batido em um teto de vidro. O clube caminha para sua quinta temporada consecutiva sem levantar um troféu de expressão — restando apenas a Champions League como a última esperança de salvar o ano, já que a equipe figura nas semifinais.

Para um projeto que se consolidou como o terceiro pilar do futebol espanhol, o rendimento atual parece aquém do investimento realizado. Por isso, a análise fria dos números contrasta com o romantismo de Gullit. Em mais de 14 anos de trabalho, o saldo de oito títulos é respeitável, mas quando se observa de perto, percebe-se que três dessas conquistas vieram em jogos únicos de Supercopas. É pouco.

A sensação que paira em Madri é a de que o time parou em algum ponto do caminho, perdendo a capacidade de se reinventar taticamente para além da motivação emocional que o holandês tanto exalta.

Foto de Guilherme Calvano

Guilherme CalvanoRedator

Jornalista pela UNESA, nascido e criado no Rio de Janeiro. Cobriu o Flamengo no Coluna do Fla e o Chelsea no Blues of Stamford. Na Trivela, é redator e escreve sobre futebol brasileiro e internacional.

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