Demorou, mas chegou. Não foi sem motivo. O Real Madrid e o Barcelona estavam prestes a fazer alguns dos maiores investimentos da história. Os catalães resolveram sua parte cedo, mas o Real enrolou e enrolou. Até que, finalmente, bateu o recorde mundial de contratação e levou Gareth Bale à Espanha pro € 100 milhões.
Agora, sim, podemos fazer o Guia do Campeonato Espanhol sem medo de não estar falando da grande notícia da temporada. Um ano que tem Real Madrid e Barcelona como favoritos destacados (OK, nenhuma novidade nisso), mas que vê ambos vulneráveis pelas eliminações traumáticas na última Liga dos Campeões e as posteriores trocas de técnicos. Isso torna a disputa um pouco incerta no topo, e ainda pode permitir uma aproximação – aproximação, não superação – do Atlético de Madrid.
Veja o que esperar dos 20 clubes do Campeonato Espanhol:
Dos times pequenos do Espanhol, é um que pode surpreender. Vem da segunda divisão, mas soube trabalhar no mercado e contratou jogadores interessantes. Rodri já se apresenta como potencial homem-gol da equipe e Suso teve boa passagem pela seleção espanhola em categorias de base. Soriano e Pellerano são os nomes mais experientes, e referências da passagem anterior do Almería na primeira divisão.
Não se espera um Athletic Bilbao arrasador, mas é uma equipe que pode dar algum trabalho. Ernesto Valverde é um treinador competente, sobretudo para lidar com equipes de orçamento mediano e pretensões de brigar por Liga Europa. A perdas de Llorente e Amorebieta são importantes, mas os bilbaínos já jogaram a temporada passada sem o primeiro como titular e o segundo não chega a ser insubstituível. A chegada de Beñat é interessante.
Após anos se notabilizando por fazer bobagem no mercado, o Atlético vem acertando a mão nos últimos anos. E não foi diferente agora. Perdeu Falcao García porque a proposta do Monaco realmente era irrecusável. E, para seu lugar, veio David Villa, jogador que já viveu melhores momentos, mas que continua perigoso e capaz de conduzir o ataque de uma equipe que pensa grande. Diego Costa pode ganhar ainda mais espaço como homem mais fixo na frente. Alderweireld, Guilavogui e Léo Baptistão ajudam a reforçar ainda mais o elenco, sobretudo imaginando que o Atlético chega à Liga dos Campeões pensando em chegar, pelo menos, às quartas de final.
Time que se mexeu pouco, mas pode mudar muito. As saídas de Abidal, Villa e Thiago não provocam nenhum turbilhão na equipe titular, mas podem deixar o elenco ainda mais enxuto. Além disso, a entrada de Neymar e a troca de técnico pode levar a uma mudança no estilo de jogo. Ainda que Gerardo “Tata” Martino seja adepto do futebol de toque de bola, não será exatamente o carrossel promovido por Pep Guardiola e Tito Vilanova. O Barcelona pode se tornar um pouco mais direto. Isso tira dos catalães a condição de candidatos a título europeu e espanhol? Óbvio que não. Talvez até sejam mudanças necessária para um time que deu sinais de falta de opções nos grandes duelos da temporada passada.
Não é uma equipe que encha os olhos, mas o trabalho de Pepe Mel em Sevilha é elogiável. O Betis tem apresentado equipes que sabem como se adaptar às diferentes situações de cada partida, e soma pontos mesmo sem uma defesa espetacular ou um ataque arrasador. Uma figura importante nesse contexto é o atacante Rubén Castro, responsável por marcar os gols nos duelos mais apertados. Verdú chegou para ajudar a servir o atacante, já que Cañas foi um dos tantos jogadores a trocar times médios e pequenos da Espanha pela Premier League.
O Celta passou um susto enorme na temporada passada, escapando do rebaixamento na última rodada. Para evitar tantas emoções, o clube até agiu bem no mercado. Perdeu os bons Iago Aspas e Javi Varas, mas contratou os promissores Rafinha e Fontàs. Mesmo que ambos não sejam fenomenais (o primeiro ainda é muito novo e o segundo, se fosse tão bom, teria recebido mais oportunidades do Barcelona), são melhorias para uma equipe do nível do Celta. Luis Enrique trabalhou nas categorias de base blaugranas e conhece bem a dupla, o que pode ser importante. No geral, é um grupo limitado, mas que pode encontrar meios para permanecer na primeira divisão.
O Elche ficou décadas longe da primeira divisão, e retorna com ambição de recuperar o atraso. Tinha uma base interessante, que ganhou a segundona com a mão nas costas na temporada passada, e a reforçou com bons jogadores, como Del Moral, Toño, Botía e Sapunaru. Todos têm experiência em atuar por clubes que fizeram boas campanhas sem grandes orçamentos. É preciso que eles se integrem rapidamente ao grupo, mas, em princípio, não é um dos candidatos mais fortes ao rebaixamento.
Dá para ficar um pouco preocupado com essa equipe do Espanyol. Apesar da tradição de fazer campanhas seguras, de meio da tabela, sem muito dinheiro, a escassez de talento já fica acima da média histórica dos pericos. Amat, Wakaso e Verdú deixaram Cornellà-El Prat, e os reforços não são particularmente espetaculares. Javier Aguirre terá de reencontrar seus melhores momentos de Osasuna para armar uma equipe tecnicamente dura, mas muito batalhadora para conquistar os pontos necessários para ficar longe do rebaixamento.
Difícil alguém que suspire de amores pelo Getafe, clube de baixo carisma e pequena torcida (é a pior média de público de La Liga). Mas o trabalho da diretoria é bastante louvável. Novamente, os azuis souberam atuar no mercado para montar um elenco que pode até sonhar com classificação na Liga Europa. Miku, Pedro León e Lisandro López (o defensor, não o atacante ex-Lyon) são reforços bem interessantes para um time que sabe como usar a falta de pressão de torcida e imprensa para jogar solto e ficar longe de crises.
Não vamos dourar a pílula: o Granada é comandado por Giampaolo Pozzo, que é dono da Udinese e está basicamente interessado em criar condições para que sua equipe italiana tenha bons talentos para negociar. Não significa que ele não ligue para o Granada, mas o clube acaba servindo como ferramenta desse processo, sofrendo um vaivém enorme de jogadores. Lucas Alcaraz vai ter trabalho para remontar a equipe que já sofreu na última temporada para escapar do rebaixamento.
Aos poucos, o Levante vai se acomodando em sua posição histórica, que é entre a segunda metade da tabela da primeira divisão e a segunda. O time que chegou à Liga Europa na temporada passada já não tem o mesmo fôlego, e a mistura de envelhecimento de alguns jogadores com a troca natural de outros faz dos levantistas uma equipe como tantas outras. Joaquín Caparrós terá oportunidade de renovar o time lançando jogadores da base (uma de suas especialidades) e, como ainda há alguns traços da equipe combativa de duas temporadas atrás, deve ser possível se posicionar no meio da tabela. Ainda há muitas equipes piores que o Levante.
Cada jogador do Málaga merecia uma estátua em La Rosaleda depois da temporada passada. Um clube sem perspectiva, que vivia um desmanche, ficou a um minuto das semifinais da Liga dos Campeões. Mas o processo de deterioração da base que deu tantas esperanças à torcida há pouco tempo é forte. Vários jogadores importantes deixaram o elenco, assim como o técnico Manuel Pellegrini. Apesar de ainda sobrarem alguns jogadores no time andaluz, a tendência é que os malaguistas fiquem no meio da tabela.
O Osasuna quase sempre monta equipes fisicamente fortes, tecnicamente limitadas e que conseguem ficar no meio da tabela por endurecer muito os jogos em Pamplona. Mas o clube está passando do limite do razoável. Sem dinheiro, o Osasuna tem sucateado o elenco e a falta de talento se reflete nos resultados. A temporada passada quase resultou em rebaixamento. E talvez não seja diferente nessa. O início de campanha já mostra isso: três derrotas, duas delas em casa. Os experientes Álvaro Cejudo e Puñal terão trabalho para conduzir esse time.
O Rayo Vallecano não tem dinheiro, atrasa salário, vende qualquer jogador minimamente decente que aparece e não faz nenhum investimento realmente significativo. E, de algum modo, consegue chegar a sua terceira temporada seguida na elite. mérito de Paco Jémez, que monta times ousados e que não têm medo de ir ao ataque quando pouco se espera. Com tanto troca-troca de jogador, o terceiro time de Madri é uma incógnita. O rebaixamento é uma possibilidade viável, mas não seria estanho se, novamente, a equipe se instalasse no meio da tabela.
Um Real Madrid diferente. Menos direto, menos dependente de Cristiano Ronaldo. Mais cadenciado, mais distribuído. Essa é a tentativa de Carlo Ancelotti em seu início de trabalho na Espanha. Com Isco centralizando as jogadas, o Real deve trabalhar mais com a bola nos pés. Xabi Alonso, Khedira e, agora, Illaramendi um pouco atrás, isso fica ainda facilitado. No entanto, Bale e Cristiano Ronaldo têm características diferentes, gostam de arrancar com a bola. Se o italiano tiver sucesso, conseguirá montar um meio-campo com capacidade de variar rapidamente de estratégia, o que pode ser um diferencial para um clube que já está obcecado em conquistar a Liga dos Campeões pela décima vez.
A quarta posição na temporada passada parece um pouco acima do esperado para um elenco tão enxuto quanto o da Real Sociedad, mas a equipe basca mostrou muita inteligência e bom sentido coletivo. Algo que deve permanecer nesta temporada, até porque Illarramendi (a única saída significativa) não desfigura esse esquema. Xabi Prieto constrói as jogadas, enquanto Griezmann e Vela dão velocidade para a equipe que gosta tanto de explorar os contra-ataques. O Lyon, derrotado duas vezes na fase preliminar da Champions, viu bem isso.
Unai Emery terá trabalho. O Sevilla teve uma reformulação profunda em seu elenco. Pior, entre os jogadores vendidos estão várias referências do elenco. Medel era o termômetro do meio-campo, Navas era o grande desafogo no setor de criação, Negredo era o sujeito que resolvia os problemas na frente e Palop era o líder que fazia a mediação nos vestiários e com a torcida. Todos eles saíram. Contando quem ficou e quem chegou, o Sevilla tem elementos para montar um time competitivo. O novo jogador de referência é Rakitic, que deve chamar a responsabilidade enquanto o resto da equipe ainda está se formando.
É um caso parecido com o do Sevilla. No papel, a equipe não é ruim e tem condições de fazer uma campanha interessante. O problema é que essa base parte do zero (quer dizer, parte do quatro ou cinco, pois o desmanche não foi tão profundo quanto o dos sevillistas), considerando que jogadores importantes deixaram o clube. Soldado era o melhor jogador da equipe, tanto pelos gols quanto pela capacidade de se articular com Jonas e Feghouli. Tino Costa era um dos homens fortes na marcação. Hélder Postiga chegou para ser a referência no ataque e, ainda que o português tenha começado bem a temporada, é difícil acreditar que ele mantenha o nível de Soldado. Pelo menos a defesa ficou intacta, o que dá segurança de que o time consegue se segurar atrás se o ataque não funcionar.
O time é praticamente o mesmo da temporada passada. Ou seja, se repetir o mesmo desempenho, se instala no meio da tabela e escapa do rebaixamento sem sustos. Mas não seria surpreendente se a receita não funcionasse duas vezes. Juan Ignacio Martínez fez um belo trabalho, mas o elenco é tecnicamente fraco e talvez não consiga a arrancada nas 15 rodadas iniciais que deram tranquilidade para a equipe blanquivioleta navegar pelo resto da temporada. Se o Valladolid ficar muito tempo brigando na zona de rebaixamento, terá dificuldade para sair dessa parte da classificação.
Não é o Villarreal da década passada, com grandes apostas em promessas sul-americanas e condições de encarar as principais equipes da Europa. O nível de investimento do clube diminuiu, e a ambição também. De qualquer modo, é um clube que vem da segunda divisão com cara de quem está na primeira há um bom tempo. O elenco tem bons jogadores como Cani, Jonathan Pereira e Musacchio. Se a torcida continuar aparecendo e a equipe entender bem qual seu tamanho e potencial, dá para brigar por uma vaga na Liga Europa.























