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Governo quer comunismo no futebol espanhol (ou quase)

Obviamente, o peso das camisas e a força das marcas são preponderantes para impulsionar a supremacia de Barcelona e Real Madrid em La Liga. No entanto, se há tanta diferença entre os gigantes e os outros clubes espanhóis, ela pode ser explicada pela maneira como os direitos de televisão são vendidos no país. Assim como acontece no Brasil, as negociações acontecem individualmente. O que permite merengues e blaugranas ficarem com as maiores fatias do bolo.

Atualmente, segundo a consultoria Deloitte, o Real Madrid recebe € 199,2 milhões em direitos de transmissão, enquanto o Barcelona fatura € 179,8 milhões – 59,3% de um total de € 650 milhões arrecadado pelos clubes da primeira divisão. Uma diferença monstruosa para equipes de médio porte, como Valencia (€ 42 milhões), Málaga (€ 14,8 milhões), Espanyol (€ 17 milhões) e Athletic Bilbao (€ 17,8 milhões). E que também fica acima dos concorrentes europeus, como Chelsea (€ 139,4 milhões), Manchester United (€ 128,5 milhões) e Milan (€ 126,3 milhões).

Não à toa, o governo pretende encerrar este abismo. Não aplicando o comunismo no significado total da ideologia, mas garantindo uma distribuição de renda mais igualitária. Segundo o Secretário de Esportes da Espanha, Miguel Cardenal, a mudança virá na nova Lei do Esporte, que deverá ser votada no final do ano. A legislação incluirá uma cláusula para que os clubes sejam obrigados a negociar coletivamente os direitos de televisão.

“É um tema importantíssimo, porque é a principal fonte de financiamento das equipes de futebol e, portanto, é um tema prioritário dentro da regulamentação do futebol. A ideia é que a nova fórmula recorra à venda conjunta dos direitos. Quem compra o produto, que compre um só pacote com todas as equipes”, declarou, em entrevista à rádio Cope. Os direitos de televisão representam 36% das receitas do Real Madrid e 39% do Barcelona.

“Os clubes também precisam determinar a repartição. Essa é a chave da comercialização conjunta. Até agora, cada um vende por sua conta e é o mercado que põe um preço distinto para uns e outros. Agora, se você vende o pacote completo, ele pertence à competição em seu conjunto. O lógico é pensar a venda conjunta irá estreitar as diferenças entre os que recebem mais e os que recebem menos”, complementou Cardenal.

A lei se coloca como um caminho viável para diminuir a crise vivida pelos clubes de pequeno e médio porte do futebol espanhol. Times como Deportivo La Coruña, Racing Santander e Real Oviedo são ameaçados pela falência. E a União Europeia está de olho na forma como o governo espanhol lida com as dívidas das agremiações, que chegam a € 692 milhões apenas entre os membros das duas primeiras divisões de La Liga.

A briga pela aprovação da nova legislação, contudo, promete ser grande. Barcelona e Real Madrid não devem abrir mão tão facilmente do dinheiro que os coloca acima dos rivais domésticos e também dos continentais. Além disso, há o risco de que a Fifa questione a ação do governo, interferindo na organização do esporte. Uma briga com muitos capítulos pela frente.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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