Espanha

Finalmente, Fúria campeã

A Holanda encantou nos jogos contra Itália e França. A Rússia encantou no jogo contra a Holanda. Portugal impressionou contra a República Tcheca. A Alemanha deu pinta de campeã contra Portugal e Turquia. E nenhum deles ganhou a Eurocopa, porque não mantiveram o bom desempenho sempre. Melhor para a Espanha, que não encantou, mas praticou um futebol competitivo e técnico do começo ao fim da competição.

Não houve muitas contestações à conquista espanhola. Tanto que até causou surpresa como o time impôs sempre seu estilo de jogo, deixando para trás a fama de “amarelona” ou de sempre ser eliminada nas quartas-de-final. Isso porque os ibéricos tiveram pela frente Itália e Alemanha, duas equipes conhecidas por praticarem um futebol objetivo, que cresce nos momentos decisivos.

A vitória sobre os alemães na final mostrou muito bem o que foi a Espanha campeã européia. Taticamente, o time veio diferente. A contusão de Villa obrigou Aragonés a mudar o sistema de jogo. Saiu o 4-4-2 (que, para ser cri-cri, era um 4-1-3-2) e entrou o 4-1-4-1, com Fàbregas formando uma linha de quatro armadores no lugar do atacante do Valencia.

A nova formação reforçou ainda mais a principal qualidade desse time espanhol: o toque de bola no meio-campo. Com Fàbregas fazendo companhia a Iniesta, Xavi e David Silva, a Fúria teve um setor de armação muito rápido e móvel, que manteve a posse de bola e trocou passes com fluidez. Foi com esse sistema de jogo que os ibéricos arrancaram nas eliminatórias. E só não foi mantido porque, na hora de começar a Eurocopa, Aragonés teve pudor em ter de escolher entre Villa e Fernando Torres.

Para dar mais força ao quarteto, Marcos Senna foi supremo na marcação, correndo incansavelmente para que o quarteto de armação tivesse mais liberdade para trabalhar. Esse conjunto foi fundamental para tornar a Espanha um time mais consistente no duelo de meio-campo contra a Alemanha de Schweinsteiger, Frings e Ballack, um trio que pode deixar qualquer meio-campo encorpado.

Os alemães só tiveram a superioridade por 10 minutos, os iniciais. O Nationalelf adiantou a marcação e os espanhóis acusaram algum nervosismo. Depois de uma jogada de Iniesta pela esquerda, que desviou em um zagueiro alemão e obrigou Lehmann a fazer uma grande defesa, a partida foi toda espanhola.

O meio-campo foi dominado e só não resultou em mais gols porque houve menos concentração na hora de finalizar que o desejado. O estilo de jogo de Fernando Torres, mais adepto de arrancadas em velocidade, não encaixa tão bem com a função de único homem de ataque. Assim, ele tinha um pouco de dificuldade quando precisava “trombar” com os zagueiros alemães. Seus momentos mais perigosos, como o gol, ocorreram quando veio de trás.

Na outra ponta do campo, a Alemanha também se via impotente. Puyol e Marchena não são zagueiros de dar inveja a muita gente, mas estiveram concentradíssimos na partida (aliás, em toda a Euro), antecipando todas as jogadas e tirando qualquer espaço de Klose, Podolski, Kuranyi e Mario Gomez. Nas laterais, o espaço também estava fechado. Sergio Ramos mostrou que é um dos melhores do mundo em sua posição quando deixa o miolo de zaga e vai para a lateral direita. Capdevila não tem tanto talento na marcação, mas soube conter a vocação ofensiva e ficou mais atrás, ocupando seu setor.

No final das contas, o 1 a 0 final não reflete a superioridade técnica e tática da Espanha sobre a Alemanha. Um título justo para quem sempre manteve um futebol bem jogado e técnico, da vitória por 4 a 1 sobre a Rússia na estréia até a conquista da taça. Talvez tenha faltado um pouco de contundência ofensiva contra Suécia, Itália e Alemanha. Mas, fora isso, a Espanha foi a melhor. Sem amarelar.

Já virou grande?

Depois de décadas e décadas ficando pelo caminho, ameaçando dar o salto, mas sempre caindo, a Espanha é campeã de uma competição de primeiro nível. Nada de Jogos Olímpicos, Mundial Sub-21, Europeu Sub-21 ou Europeu Sub-17. Era o que faltava para ser grande?

Respondendo rápido, não. A Espanha ainda precisa caminhar um pouco para ser grande. Por exemplo, ter mais consistência no topo e fazer uma grande Copa do Mundo. Mas o primeiro passo foi dado, porque os espanhóis jogaram sem temor e, principalmente, porque a geração atual ainda tem tempo para crescer (só três jogadores do time titular, Puyol, Capdevila e Marcos Senna estão na casa dos 30 anos). E, com um título de Eurocopa no currículo, o peso do passado de derrotas não a acompanhará no futuro próximo.

O símbolo do potencial de crescimento espanhol é o meio-campo. O quarteto Xavi, Fàbregas, Iniesta e David Silva tem muito tempo para desenvolver seu talento. Xavi tem 28 anos, Iniesta está com 24, Silva, com 22 e Fàbregas, com 21. Ou seja, é uma base que pode estar junta até a Copa de 2014. Considerando que, em 2008, eles já mostraram maturidade para carregar a responsabilidade de ditar o ritmo da equipe, fica a sensação de que podem crescer ainda mais nos próximos anos.

O ataque é outro setor com situação parecida. Raúl saiu e nem fez muita falta. Fernando Torres (24 anos) ainda está em crescimento. Villa tem 26 e parece estar perto de seu auge, mas tem fôlego para o futuro. Ambos foram oscilantes na Eurocopa, mas não fugiram da responsabilidade quando foi preciso. Algo que se cobrava muito de Raúl.

Nos próximos anos, a Espanha não será mais olhada como “aquele time que sempre amarela”. Ou seja, já será vista com mais respeito. Se souber trabalhar com os talentos que tem à disposição, a Fúria pode seguir nessa evolução. E, em médio prazo, realmente virar uma das grandes forças mundiais.

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Equipe Trivela

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