Espanha

Filho da Tragédia

O pai de Pedro Berruezo – que também se chamava Pedro – era jogador de futebol. Defendia o Sevilla quando, em 1973, teve um ataque cardíaco durante um Sevilla x Pontevedra e morreu. Detalhe: o filho ainda estava na barriga da mãe e nem chegou a conhecer o pai. Curiosamente, anos depois, Pedro filho passou por cima da história do pai e se tornou jogador profissional. A história lembra à de Puerta, morto recentemente em um jogo do Sevilla e que também tinha a mulher grávida.

A Trivela conversou com Pedro Berruezo, atualmente, um jogador de 34 anos do Ceuta, time de um enclave espanhol na costa marroquina que disputa a terceira divisão da Espanha, de carreira discreta, com passagens por clubes como Granada e Linares. O meio-campista contou os cuidados com a saúde que toma por causa do caso de seu pai e de como teve de vencer a resistência em casa para se tornar atleta.

Pelo ocorrido com seu pai, você teve resistências para se tornar jogador de futebol?
Minha mãe não queria que eu virasse jogador. No entanto, eu ainda estava na barriga da minha mãe quando meu pai morreu. Essa história eu só conheci de me contarem, eu não vivenciei. Com isso, não conseguia ver o esporte como algo ruim, não relacionava o futebol a algo que levou meu pai à morte. Hoje, devo tudo ao futebol. Foi por meio dele que conheci minha mulher, com quem tenho dois filhos.

O caso dele faz você tomar mais cuidados que o normal?
Claro que sim. Além dos exames programados pelos clubes, eu sempre procuro um médico particular para fazer exames complementares. Na média, um na pré-temporada e, eventualmente, outro em dezembro. Sei que há um alto grau de fatalidade nisso. Meu pai e Puerta fizeram vários exames e, ainda assim, morreram. Não quero que o mesmo ocorra comigo e faço o possível para reduzir esse risco, ainda que saiba que nem sempre dá para evitar uma fatalidade

O que você sente quando vê um jogador morrendo em campo como ocorreu com seu pai?
Sinto muita raiva e impotência, porque são esportistas de vida saudável e, ainda assim, deixam de existir. Também fico pensando se o excesso de atividades esportivas não pode ser a causa desses problemas.

Você já tem 34 anos. Pensa no final da carreira?
Eu vou continuar jogando enquanto sentir que meu corpo agüenta. Acho que ainda estou bem. Só sei que, no futuro, a única ligação que terei com o futebol será como torcedor de Barcelona e Sevilla. É um meio muito hipócrita, com muita falsidade, e não quero estar no meio dele depois que deixar de ser jogador.

FICHA

Nome: Pedro Berruezo Bernal
Nascimento: 01/05/1973 em Sevilha, Espanha
Clube: Ceuta – ESP
Carreira: Ceuta, Linares, Cartagonova, Granada.

Foto de Ubiratan Leal

Ubiratan Leal

Ubiratan Leal formou-se em jornalismo na PUC-SP. Está na Trivela desde 2005, passando por reportagem e edição em site e revista, pelas colunas de América Latina, Espanha, Brasil e Inglaterra. Atualmente, comenta futebol e beisebol na ESPN e é comandante-em-chefe do site Balipodo.com.br. Cria teorias complexas para tudo (até como ajeitar a feijoada no prato) é mais que lazer, é quase obsessão. Azar dos outros, que precisam aguentar e, agora, dos leitores da Trivela, que terão de lê-las.

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