Espanha

Feliz temporada velha

Como que por encanto, Riga e Geijo pareciam formar uma dupla de ataque poderosa. Courtois jogava como se fosse um maestro do meio-campo. Os zagueiros Álvaro e Serrano não deixavam o ataque adversário passar. Em suma, o Levante parecia um time razoavelmente forte, que conseguia impor seu jogo e construir a vitória por 2 a 1 com naturalidade. Considerando que os levantistas têm 19 pontos em 26 jogos, claramente não é o caso. Mais fácil achar que o adversário, no caso, o Zaragoza, é que era fraco demais.

É difícil entender como os zaragocistas conseguiram chegar a essa situação. Na temporada passada, o time aragonês brigou por uma vaga na Liga dos Campeões até as últimas rodadas. Acabou com a vaga na Copa da Uefa, mas dava a impressão de que, em longo prazo, o trabalho daria bons resultados. Assim, a diretoria manteve a base e o técnico. O roteiro foi seguido, mas o time despencou a ponto de, a mais de três meses do fim da temporada, já foi eliminado da competição continental, da copa nacional e luta para fugir do rebaixamento na liga doméstica.

Os problemas dos maños começaram ainda sob o comando de Victor Fernández. O técnico tinha o crédito da boa campanha em 2006/7, mas perdeu rapidamente o comando do elenco. Primeiro, entrou em atrito com D’Alessandro. Ainda que o meia argentino não representasse um grande desfalque (não vinha jogando bem), deu a abertura para o ambiente começar a se desgastar. Depois, não conseguiu contornar os problemas que foram aparecendo.

Logo no começo da temporada, o recém-chegado Matuzalém se contundiu gravemente no jogo contra o Barcelona. Aimar teve o mesmo destino pouco depois. Como D’Alessandro estava brigado com Fernández, o time não tinha um armador de vocação para alimentar um ataque que se sentia bem com trocas de passes rápidas. Assim, o desempenho de Ricardo Oliveira, Diego Milito e Sergio García caiu vertiginosamente. Houve lampejos de inspiração, mas nada comparável ao ataque insinuante da temporada passada.

Na defesa, a situação não era melhor. Supostamente, a saída de Gabriel Milito e Piqué foram compensadas pelas chegadas de Ayala e Pavón. Este último estava marcado pelo mau início de carreira no Real Madrid, mas a experiência do argentino poderia ajudá-lo a crescer. Nada disso ocorreu. Ayala não é em um esboço do zagueiro que foi um dos melhores da Copa 2006 e Pavón se sentiu ainda mais inseguro (ou seja, as falhas se tornaram freqüentes). Não à toa, a defesa é a segunda pior de todo o Campeonato Espanhol, com 45 gols sofridos.

A falta de comando de Fernández se acentuou, pois o experiente técnico não teve capacidade de encontrar soluções ou recuperar a motivação dos jogadores. Sobretudo Aimar. A partir daí, quem começou a se equivocar foi a diretoria, que potencializou a sensação de que não havia o menor planejamento em La Romareda.

Pedro Herrera e Miguel Pardeza, diretores técnicos do Zaragoza, já eram contestados por imprensa e torcedores. Para mostrar serviço, demitiram Fernández e contrataram Ander Garitano. O ambiente estava tão desgastado que, duas semanas depois, o treinador já havia se demitido. Chegou o experiente Javier Irureta, técnico histórico do Deportivo de La Coruña. Em seis partidas, com dois empates e quatro derrotas, o basco também deixava o comando maño. Em um mês e meio, os aragoneses viram a saída de três técnicos.

Nesta semana, a diretoria zaragocista anunciou a contratação de Manolo Villanova. O técnico tem larga história no Zaragoza, clube que defendeu como jogador e treinador. No entanto, Villanova é muito mais uma aposta em um símbolo histórico do que em um comandante que pode trazer algo novo tática ou tecnicamente. O treinador já havia encerrado a carreira e, depois de dois anos de inatividade, retornou para treinar o Huesca, time aragonês que milita na terceira divisão. Era um trabalho simples, mas que deu algum resultado (a equipe fez boas campanhas nas duas últimas temporadas) e chamou a atenção de Herrera e Pardeza.

O objetivo de Villanova é dar uma injeção de ânimo no elenco e ver se consegue compensar os buracos no time com determinação. Desse jeito, talvez seja possível evitar um vexatório rebaixamento. No entanto, isso não garante futuro tranqüilo. Afinal, a falta de planejamento desta temporada pode ser ainda mais contundente na próxima.

Agüero e árbitro salvam Real

Dois belos gols, um pênalti sofrido e a assistência para outro gol. O resumo da atuação de Agüero no Atlético de Madrid 4×2 Barcelona já deixa evidente como o meia argentino protagonizou uma das mais espetaculares atuações individuais da temporada espanhola. Parece que a semana e meia sem atuar, soma de uma contusão com uma suspensão na Copa da Uefa, permitiu ao jogador que recuperasse seu fôlego e se concentrasse para usar todo seu repertório no clássico contra os blaugranas.

Sozinho, Agüero comandou a melhor atuação dos colchoneros na temporada e deu ao time de Manzanares um novo impulso para resistir ao assédio de Espanyol, Sevilla e Racing de Santander na luta por um lugar na próxima Liga dos Campeões. O principal reflexo da atuação do argentino, porém, não diz respeito ao Atlético, e sim, ao Barcelona.

Quando Ronaldinho fez um gol de bicicleta no início do duelo do Vicente Calderón, o Barça estava se igualando ao Real Madrid na ponta da tabela. Naquele instante, os madridistas empatava com o Recreativo de Huelva e iam a 57 pontos. A derrota blaugrana permitiu que o Real voltasse a alargar a vantagem na ponta, um fato positivo importante em um momento particularmente negativo aos merengues na temporada.

Também é inegável que Agüero não foi o único a ajudar o time de Chamartín. No encontro de Huelva, a atuação do árbitro Eduardo Iturralde González foi decisiva em favor do Real Madrid. O basco confirmou um gol irregular de Raúl (estava impedido), não advertiu Heinze na troca de sopapos com Beto (o português foi expulso, o argentino não levou nem amarelo) e ainda deixou pelo caminho um pênalti não-marcado em favor dos andaluzes (a bem da verdade, esse último lance era discutível).

Ainda que o árbitro tenha expulsado – corretamente – Sergio Ramos, o balanço de sua polêmica atuação foi claramente favorável ao Real Madrid. O que não chega a ser uma novidade, considerando que a arbitragem espanhola é uma das mais fracas da Europa e tem a tendência a ter mais carinho com o clube mais tradicional.

A repercussão foi imediata. Na entrevista coletiva, o técnico madridista Schuster se negou a comentar a arbitragem na entrevista coletiva e, diante da insistência dos jornalistas andaluzes, abandonou a sala de imprensa. Uma atitude que gerou mais reclamação, pois, quando se sentiu prejudicado, no Sevilla 2×0 Real Madrid, Schuster não teve pudor em acusar o árbitro de prejudicar os merengues por ser catalão.

Outro fato que não passou batido foi que, durante a semana, Ángel Maria Villar, presidente da federação espanhola, foi fotografado com uma camisa do Real Madrid que acabara de ganhar em um evento do clube. Claramente era uma gentileza que o cartola prestava ao anfitrião, mas era uma atitude reprovável pela desconfiança que poderia despertar.

Menos mal para o Real que, na vitória contra o Recre, Robinho teve grande atuação e ofuscou um pouco o eventual favorecimento aos merengues. Aliás, o modo como o brasileiro mudou o rumo da partida reforçou a sensação de que o atual campeão espanhol depende demais da inspiração do meia.

Projetando para o futuro, o líder aumentou sua vantagem para cinco pontos, mas continua contando com alguma sorte e sem convencer. No entanto, o Barcelona também não merece tanto crédito e some nos momentos decisivos da liga. O cenário ainda é favorável aos madridistas, mas há um novo elemento a se considerar: o resultado das oitavas-de-final da Liga dos Campeões e sua possível influência no Campeonato Espanhol.

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Equipe Trivela

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