Ex-craque, atual corneta

Cruyff foi um gênio. Não apenas como jogador. Ele foi um pensador do futebol. Refletiu sobre tática e filosofia em cima do esporte como manifestação cultural e de trabalho coletivo, mostrou como o jogo transcende o que ocorre nas quatro linhas. Por isso, merece a reverência de torcedores, sobretudo da Holanda e do Barcelona. No entanto, esse Cruyff já está ficando para trás. Hoje, o que se vê é uma figura que se transformou em personagem de si próprio, misturando ser contestador com ser rabugento. Em suma, um corneteiro.
O holandês parece ter sempre uma vuvuzela de prontidão para pegar no pé das coisas que cercam o Barcelona. Nesta semana, chegou ao limite do caricato. Deu a entender que parte da culpa da entrada violentíssima que Messi sofreu de Ujfalusi no último Atlético de Madrid x Barcelona foi do time catalão. Como? “Se o Barcelona marcasse o terceiro gol, ou De Gea não estivesse tão inspirado, Messi não teria deixado o Calderón na maca. O Atlético teria tirado o pé do acelerador.”
O raciocínio é bastante simplista, até porque dá a entender que o Barcelona poderia fazer o terceiro gol quando bem entendesse. Não é assim. Jogava fora de casa contra uma equipe forte, que, inclusive, havia sido responsável pela única derrota catalã na edição passada de La Liga. Além disso, vários fatores levam uma partida a ficar mais acirrada que o normal. O placar apertado é apenas um deles.
Esse comentário segue uma linha lógica. Atualmente, Cruyff defende a ofensividade e o futebol bonito de modo mais que utópico. E cobra o Barcelona como se tivesse em campo a seleção brasileira de 1970 e o adversário fosse o Leganés. O problema é que o holandês, pelo seu passado, ainda é muito influente em Les Corts. Suas palavras são levadas muito a sério por torcedores, sócios e conselheiros e acabam desestabilizando o clube.
Cruyff foi um dos pivôs do rompimento de Sandro Rosell, atual presidente do clube, com Joan Laporta, seu antecessor. Laporta, com a devoção de um fã declarado*, passou a tratar o ex-craque como principal conselheiro. Rosell, vice-presidente à época, sentiu-se desprestigiado e começou a se desligar do antigo aliado. Não à toa, uma das primeiras medidas do atual mandatário barcelonista, ao assumir, foi tirar do holandês o título de presidente de honra do clube.
*Importante citar que Laporta trabalha também como advogado pessoal de Cruyff.
Não se pode tirar o mérito de Cruyff como jogador e técnico por suas declarações de hoje. Mas é preciso ter em mente que o Cruyff de hoje é outra pessoa. E que suas declarações não devam ter tanto espaço. Muitas delas são cornetadas sem muito sentido. Infelizmente.
Sobre o lance Messi-Ujfalusi
Nada justificava o modo como Ujfalusi tentou transformar o tornozelo de Messi em farofa. A jogada estava no meio-campo, o Atlético precisava que a bola continuasse rolando para buscar o empate – contundir um adversário só faz a bola ficar parada – e nada indica que o argentino tenha provocado o adversário a ponto de receber uma retaliação. Mas o tcheco não teve pudor em arrebentar o barcelonista e dar início à polêmica.
A previsão do Barcelona é que Messi retorne em um período entre 10 e 15 dias. Se a informação for confirmada, o argentino pode se dar por satisfeito, pois as consequências poderiam ser piores. Ainda assim, a pressão de torcedores catalães e da imprensa sobre Ujfalusi é grande. O tcheco recebeu cartão vermelho direto, com o agravante de contundir o oponente. Pelo código disciplinar do Comitê de Competição da RFEF (federação espanhola), tal ação é passível de punição de 4 a 12 partidas.
Não há dúvida que uma suspensão severa é justa. O zagueiro do Atlético argumenta que não teve intenção de acertar o tornozelo de Messi, mas o fez porque o argentino foi rápido. Contou ainda que entrou em contato com o barcelonista para pedir desculpas e se disse aliviado por saber que a contusão aparentemente não foi tão grave.
Difícil acreditar na versão de acidente, e a conversa com a vítima depois não elimina o fato de que o tcheco teve uma atitude impensada e colocou o colega em sério risco. “O calor do momento” não serve de atenuante, pois, entre suas obrigações, o jogador de futebol precisa ter controle mental. Faz parte de sua profissão.
Se é verdade que Ujfalusi foi maldoso e merece uma punição considerável, também é verdade a argumentação do Atlético de Madrid. A de que tanta comoção – que motiva a Justiça a pensar no tamanho da suspensão – só ocorre porque a vítima é Messi. La Liga construiu sua imagem em torno dos grandes craques, e a necessidade de tê-los em campo é fundamental para legitimar o campeonato. O mesmo não ocorre, por exemplo, na Inglaterra, onde o jogo mais ríspido – ainda que limpo – é aceito, pois o modo como as partidas mobilizam as cidades é que dão base ao torneio.
Quique Sánchez Flores, técnico colchonero, diz esperar que Ujfalusi receba uma pena compatível com a de outras entradas semelhantes ocorridas recentemente no Campeonato Espanhol. Ele compara a contusão de Messi com a de Agüero, que entrou no sacrifício na última partida – e deve desfalcar na próxima – devido a uma contusão sofrida contra o Athletic Bilbao na segunda rodada. Na oportunidade, Gurpegui recebeu apenas um cartão amarelo e não houve pedido da imprensa para punição adicional ao basco. E o exemplo de Agüero não é o único, claro.
De qualquer modo, cada caso é um caso, e precisa ser tratado com justiça. Um eventual erro na avaliação de Gurpegui não significa que Ujfalusi deva escapar de punição.



