Copa do MundoEspanha

A Espanha se arruinou a partir de suas certezas inabaláveis

Vicente Del Bosque chegou à Copa do Mundo como dono da taça. Bicampeão da Eurocopa e no comando de um time talentosíssimo, que havia dominado o futebol internacional com seu estilo de jogo marcante. No entanto, que dava sinais claros de desgaste. A classificação nas Eliminatórias teve seus percalços, minimizados pela vaga direta. E a Copa das Confederações foi o maior baque, especialmente pela forma como a Roja foi empacotada pelo Brasil no Maracanã. Alguns diziam que os espanhóis não davam a devida importância ao torneio, e por isso foram tão mal. Mentira. Eles não deram a devida importância a tudo que acontecia ao seu redor.

Espanha 0×2 Chile: E-LI-MI-NA-DO, o campeão mundial tomou um baile

Por um momento, parecia que bastava a mera incorporação de Diego Costa. Os medalhões continuavam intocáveis na equipe, assim como o discurso de que permaneceriam agarrados ao tiki-taka. A fórmula de jogo que foi eficiente por tanto tempo, mas já inoperante. Tanto por causa dos adversários, que sabiam como anulá-la, quanto por causa dos próprios espanhóis, que não tinham mais gás para mantê-la. Mesmo assim, Del Bosque foi fiel aos seus dogmas. A eliminação precoce foi a confirmação de que as certezas do treinador estavam longe de serem tão certeiras assim.

A Espanha ruiu, de verdade, contra a Holanda. A Oranje aproveitou as brechas conhecidas para vencer e, quando a Roja se abriu, para golear. A partir daquele momento, não havia mais o que sustentasse os espanhóis. Começaram as divergências no próprio vestiário, externados pela imprensa. Havia quem defendesse o tiki-taka, outros queriam a mudança. Para o jogo contra o Chile, quando a Fúria teria chance de evitar sua morte, o treinador mudou o esquema tático. Pouco pôde fazer, porém, para alterar o espírito da equipe.

Mesmo com Xavi e Piqué sacrificados, as deficiências seguiam as mesmas. Os passes em excesso, sem objetividade. A dificuldade em bloquear contra-ataques. Uma temeridade enorme contra um adversário como o Chile, que adianta sua marcação e explora muito os contragolpes. Não demorou muito para que a certeza da queda viesse. E a própria falta de vontade da Espanha era emblemática. Para deixar claro que, naquele momento, o ciclo vitorioso havia mesmo se encerrado.

A renovação, mais do que uma necessidade, será uma obrigação cobrada pelos torcedores. Casillas e Xabi Alonso, embora continuem importantes no Real Madrid, terão que refazer seus nomes com a seleção. Xavi parece mesmo acabado. Iniesta talvez seja o líder de um novo momento, mesmo muito longe de seu melhor na Copa do Mundo. Por sorte, ao menos, os espanhóis possuem bons valores entre os seus jovens jogadores. Precisarão mesmo é pensar na reinvenção. Também, se Del Bosque permanecerá à frente do time.

O pecado de Del Bosque, aliás, é muitíssimo comum entre os treinadores campeões do mundo. Se apegar aos seus campeões e ficar pelo caminho. Desde 1966, é praxe que o dono da taça volte a ficar com ela. Desde 2002, tornou-se comum ele também dar vexame. Só que França e Brasil vinham de um ciclo anterior muito bom, enquanto a Itália não havia tido sinais tão claros. A Espanha não tem essas desculpas. Pagou caro por achar que se conhecia demais. Por não respeitar quem a via de fora.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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