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Entenda por que o futebol espanhol pode entrar em greve

Depois de tantos anos de discussão, a Espanha enfim chegava ao desfecho pelo qual todos esperavam: na semana passada, o governo aprovou uma lei que muda o processo de venda dos direitos de televisão, teoricamente tornando La Liga mais equilibrada. Fim da polarização entre Real Madrid e Barcelona? Um campeonato mais balanceado e imprevisível? Talvez para a primeira divisão, porque o novo decreto não só não resolve todos os problemas como também cria outros. E é por isso que o futebol espanhol está ameaçando entrar em greve na reta final desta temporada.

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Para começar a entender a confusão, vamos aos nomes envolvidos na briga. De um lado, a favor do decreto, estão o governo e a Liga, e do outro, a Federação Espanhola e a AFE (Associação de Futebolistas Espanhóis), que convocaram a greve pela revogação da nova lei. Mas por que a entidade e os jogadores não gostariam de algo que apenas diminuiria a distância entre os clubes? Simples: a mudança aumenta ainda mais a desigualdade entre clubes da primeira e das outras divisões.

Até agora, assim como acontece no Brasil, os clubes da Espanha negociavam seus direitos de televisão separadamente, o que implicava em parte significativa das verbas (aproximadamente 33%) indo para Real Madrid e Barcelona. Com a nova lei, aprovada pelo Conselho de Ministros da Espanha, a Liga passa a negociar os direitos em nome das agremiações, havendo também uma mudança na divisão da renda, que agora será distribuída baseado em critérios como posição no campeonato e audiência na TV. Tudo isso cria uma situação de maior equilíbrio dentro do Campeonato Espanhol, mas a proporção entre as divisões é absurda: enquanto 90% das verbas vão para clubes da primeira divisão, apenas 10% são reservados para times das divisões restantes.

É especialmente este o ponto que fez os jogadores espanhóis juntarem-se à federação nesta briga. Para eles, essa divisão apenas cria um espaço ainda maior entre os craques de La Liga e os atletas mal pagos das outras divisões. Em um cenário já difícil financeiramente para os clubes menores da Espanha, o anúncio da mudança não seria recebido sem protesto. Nas redes sociais, jogadores de equipes modestas, como Javi Selvas, do Castellón, e Javi Casares, do Hércules, celebraram a ação da AFE. “Os jogadores mais modestos precisam de você, AFE, porque vocês estão lutando por nossos direitos”, disse Selvas.

No comunicado oficial em que anunciava a greve, a Federação Espanhola afirmou que sempre expressou seu apoio à lei e que seus pedidos mais importantes nunca afetaram negativamente os benefícios econômicos que o novo processo de divisão da renda de TV renderia aos clubes e à Liga. O modo como teria sido deixada de escanteio na tomada de decisão de alguns detalhes, no entanto, é o que incomodou a entidade, que classificou como “falta de respeito” a atitude do governo.

Javier Tebas, presidente da Liga, considerou o posicionamento da Federação Espanhola uma afronta e cobrou mãos firmes do governo espanhol para manter a decisão. “Uma loucura, uma ousadia e uma irresponsabilidade da instituição de Ángel María Villar, que não sabe o rumo que deve tomar o futebol profissional. É um desafio à Liga e só diz respeito a um interesse pessoal. Peço ao governo que mantenha e não mexa em uma vírgula do decreto real. Se tiver que haver greve, que haja, e se querem suspender a competição, entrarão de férias mais tarde, mas não vamos nos submeter à chantagem da Federação. Se o governo se submeter a essa chantagem irresponsável, daremos um passo para trás na regeneração do futebol espanhol”, afirmou, em declaração publicada pelo El País.

Se seguir adiante, a greve afetará as duas rodadas finais do Campeonato Espanhol, que serão essenciais para a definição do título, já que tanto Barcelona quanto Real Madrid têm confrontos difíceis, sobretudo na penúltima rodada, quando o Barça pega o Atlético de Madrid e o Real enfrenta o Espanyol. Além da reta final da liga, a decisão da Copa do Rei, entre Barcelona e Athletic Bilbao, também precisaria ser adiada por causa da greve. Embora pareça extrema, a movimentação da Federação e dos jogadores é forte, e a possibilidade de que a greve vá em frente existe. O que falta no momento é que todas as partes envolvidas sentem-se para conversar e pensar em uma solução que diminua os danos a todas as partes envolvidas. E isso pode ser mais complicado do que parece.

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Leo Escudeiro

Apaixonado pela estética em torno do futebol tanto quanto pelo esporte em si. Formado em jornalismo pela Cásper Líbero, com pós-graduação em futebol pela Universidade Trivela (alerta de piada, não temos curso). Respeita o passado do esporte, mas quer é saber do futuro (“interesse eterno pelo futebol moderno!”).

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