Espanha

Elementar, meu caro Sandro

“É a aposta por uma profunda renovação de estruturas, de estilo e de pessoas que promete, entre outras coisas, uma significativa redução dos gastos e um notável aumento no faturamento, o que inclui até um acordo para ter propaganda nas camisas do time de futebol, o que acabaria com um tabu histórico da entidade”. Esse foi um trecho do texto do El Periódico, segundo maior jornal da Catalunha, em especial apresentação dos candidatos à presidência do Barcelona. Aliás, esse trecho é o do candidato que acabaria ganhando as eleições.

Considerando que o presidente defendia abertamente o patrocínio na camisa do Barcelona, não deixa de ser um cumprimento de promessa eleitoral o acordo que o clube fez com a Qatar Foundation, que pagará € 150 milhões por cinco anos (se você cabulou as aulas de matemática na escola, eu faço a conta: são € 30 milhões anuais) para ter seu nome na barriga dos jogadores blaugranas e divulgar seus projetos sociais pelo mundo (nenhuma ONG do mundo tem esse dinheiro, mas essa pertence a um emir do Catar e, no fundo, ele só está usando isso para promover a si próprio e a seu país). Mas não é bem assim: o texto do primeiro parágrafo foi publicado em 2003, não em 2010, e se referia a Joan Laporta, não a Sandro Rosell.

No processo eleitoral de 2003, o Barcelona estava em péssima situação financeira depois da gestão de Joan Garpart. Pelo menos dois candidatos tinham o patrocínio de camisa como plano de governo. Além de Laporta, Josep Martinez-Rovira também defendia o fim da tradição. Entre os torcedores, havia uma aceitação razoável à idéia, tida como uma necessidade maior.

Sete anos depois, o cenário não é tão melhor fora de campo. Enquanto os resultados dão motivo de alegria aos torcedores, as contas continuam no vermelho. O clube se orgulha de ter muitos jogadores formados nas categorias de base, mas isso não significa que se gaste muito dinheiro em Les Corts. Aliás, se gasta muito, e muitas vezes mal.

Laporta e Rosell concordam que o Barça deve pegar muitos de seus jogadores da base. No entanto, a quantidade de contratações caras do clube desde 2003 é muito maior do que parece (porque muitos jogadores deram errado). Olha a lista de jogadores comprados pelo Barcelona nos últimos sete anos (valores de acordo com o Transfermarkt): Ibrahimovic (€ 65 milhões), Daniel Alves (44), David Villa (40), Ronaldinho (34), Eto’o (28), Chygrynskiy (25), Henry (25), Deco (22), Mascherano (21), Gabriel Milito (21), Martín Cáceres (17), Hleb (16), Abidal (16), Keirrison (15), Zambrotta (14,5), Keita (14,5), Gudjohnsen (12,5), Adriano (10), Yayá Touré (9,5), Giuly (9), Edmílson (8,4) e Henrique (8). Só nessa lista, que ignora contratações menores de € 8 milhões, foram gastos a assustadora quantia de € 475,4 milhões. Isso porque muitos desses nomes decepcionaram (Ibra, Henry, Chygrynskiy) ou só serviram como “reservas úteis” (Milito, Gudjohnsen).

Não é de se estranhar que, a despeito dos títulos e dos craques formados em casa, o Barcelona tenha problemas de caixa. Rosell acusa Laporta de distorcer os números, transformando um prejuízo de € 80 milhões na temporada passada em lucro de € 9 milhões. Para resolver os problemas mais imediatos, o novo presidente pediu empréstimo de € 150 milhões para pagar as contas mais imediatas. A instituição que mais contribuiu nessa “ajudinha” foi La Caixa, banco que representa o orgulho catalão no mercado financeiro (como o Barça faz no futebol), patrocina o Barcelona e já foi acusado de ser excessivamente generoso ao financiar projetos do clube.

E tem mais. No último dia 22, Barcelona e Real Madrid concordaram em abaixar sua parte na divisão dos direitos de transmissão de La Liga. Os gigantes recebiam 22,5% do valor total cada, o que representou € 140 milhões para cada um na temporada 2009/10. A redução (que tem como objetivo mais que louvável dar mais condições financeiras aos clubes pequenos – o Sporting de Gijón, por exemplo, recebeu apenas € 12 milhões, uma vergonha – e melhorar o nível técnico do campeonato como um todo) para 17% significaria uma perda de € 33,75 milhões para o Barcelona (e o mesmo para o Real, claro). Perceba que o valor acertado com a Qatar Foundation cobre essa diferença quase que exatamente.

Todo o contexto levava o Barcelona a quebrar sua tradição e ter patrocínio na camisa. Já era um projeto antigo, o clube precisava de dinheiro, o acordo com a Unicef (em que o Barça pagava para divulgar a organização) quebrou o gelo e acostumou a torcida a ver a camisa blaugrana com uma marca na frente, Rosell pode dizer que foi obrigado pelos erros de seu antecessor e é um modo de tapar o buraco causado pela TV. E o clube ainda fica próximo de gente poderosa, que foi capaz de levar a Copa do Mundo de 2022 a um país do tamanho da metade do Sergipe.

Elementar, meu caro Sandro.

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