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É um erro pensar que o futebol espanhol foi “desmascarado”

O futebol espanhol desenvolveu um estilo de jogo nos últimos anos. Deu certo, valeu vários títulos à seleção espanhola e ao Barcelona, mudou o modo como outras equipes passaram a ver o lado coletivo do futebol. Mas muita gente não gosta. Acha chato, acha que parece futsal, acha que é uma retranca ao contrário. E a derrota acachapante do Barça para o Bayern de Munique nas semifinais da Liga dos Campeões já permite que se declare “desmascarado” esse sistema espanhol e que este estaria em decadência.

Vamos com calma. O Barcelona ainda é um dos melhores times do mundo, e a Espanha ainda é a favorita ao título da Copa das Confederações e uma das favoritas no Mundial de 2014. Mas achar que ele foi “desmascarado” é tão precipitado quanto achar que ele levaria os espanhóis a uma década inteira de domínio incontestável.

O Barcelona teve problemas específicos nos duelos contra o Bayern. Daniel Alves não vive uma boa fase, Messi está contundido, o miolo de zaga está todo desfalcado. Mas jogar nisso a responsabilidade pelos 7 a 0 do placar acumulado é ignorar as dificuldades que o time sentiu em outros momentos da temporada. E parte dessas dificuldades está no fato de que os oponentes, em todo o mundo, estão buscando formas de lidar com esse sistema de posse de bola.

As pistas do que poderia funcionar foram dadas pelo Real Madrid. Após tantos confrontos diretos com o Barcelona nas duas temporadas anteriores, os merengues puderam testar várias fórmulas para combater o rival. E encontrou um caminho no final da temporada passada. Depois de sofrerem tanto na tentativa de quebrar a troca de passes do Barça, os madridistas descobriram que a saída era deixar o adversário ter a bola, mas estar sempre pronto para ataques muito rápidos, explorando as costas dos defensores que inevitavelmente avançam. Veja só o que esta coluna publicou em 23 de abril do ano passado, após o Real fazer 2 a 1 nos blaugranas no Camp Nou e praticamente assegurar o título espanhol.

Foi uma versão aprimorada disso que o Bayern apresentou nesses dois duelos, e que o PSG já havia tentado no jogo de volta das quartas de final. Um meio-campo com muita força de marcação e saída rápida, jogadores habilidosos e rápidos para puxar os ataques e atacantes com boa leitura de jogo para se integrar à velocidade da jogada.

Talvez seja o antídoto disponível no momento, mas não é definitivo. Não significa que isso dará certo sempre, até porque o próprio Barcelona (e, numa projeção para a Copa 2014, a seleção espanhola) não vai aceitar a derrota e ficar apenas lamentando que passou o momento de glória. Eles também tentarão se adaptar, criar variações, descobrir como surpreender quem tanto o estudou.

É assim que o esporte evolui. O 3-5-2 foi criado porque o 4-4-2 ortodoxo dos anos 70/80 permitia que um time tivesse só três defensores e aumentasse o volume de jogo no meio-campo. Depois, o 4-4-2 com dois meias abertos ganhou espaço aproveitando a falta de cobertura nas laterais do 3-5-2. No meio da década passada, o 4-2-3-1 que pode ser um 4-3-3 virou moda porque aumenta a presença ofensiva sem perder a força de cobertura nos lados do campo e ainda cria uma terceira linha de marcação, aumentando a pressão na saída de bola. Certamente surgirão outros sistemas em algum momento.

Por isso, decretar o fim do grande momento do estilo espanhol com base em dois jogos é errado. Na verdade, o Barcelona elevou o nível do futebol mundial, e agora os adversários começam a alcançar esse patamar. Resta ver quem dará o próximo passo. Sem catastrofismos.

Foto de Ubiratan Leal

Ubiratan Leal

Ubiratan Leal formou-se em jornalismo na PUC-SP. Está na Trivela desde 2005, passando por reportagem e edição em site e revista, pelas colunas de América Latina, Espanha, Brasil e Inglaterra. Atualmente, comenta futebol e beisebol na ESPN e é comandante-em-chefe do site Balipodo.com.br. Cria teorias complexas para tudo (até como ajeitar a feijoada no prato) é mais que lazer, é quase obsessão. Azar dos outros, que precisam aguentar e, agora, dos leitores da Trivela, que terão de lê-las.

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