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Diego Carlos mudou sua história na final e encerrou de maneira brilhante sua grande temporada pelo Sevilla

Entre os principais nomes de uma temporada marcante ao Sevilla, Diego Carlos precisa ser um dos primeiros mencionados. O zagueiro foi um dos melhores jogadores rojiblancos em 2019/20, oferecendo muita firmeza no miolo de zaga. A reta final da Liga Europa, entretanto, colocou em xeque esta importância do brasileiro: não bastasse ter cometido pênaltis nas quartas de final e na semifinal, ele também entregaria o primeiro tento à Internazionale nesta decisão em Colônia. O defensor não merecia o papel de vilão. Pois a volta por cima guardaria o mais inesquecível dos atos heroicos: um gol de bicicleta no fim do jogo, que valeu a vitória dos andaluzes por 3 a 2 e as merecidas lágrimas de alegria do camisa 20.

Diego Carlos ajuda a simbolizar este Sevilla. O zagueiro de 27 anos nunca desfrutou de grande badalação ao redor de sua carreira, mas soube aproveitar o momento e brilhar no Nervión. O paulista de Barra Bonita não viu sua trajetória decolar no Brasil. Defendeu nas categorias de base o Desportivo Brasil e o São Paulo, passando também por Paulista e Madureira. As portas se abririam em Portugal, levado ao Estoril e cedido para o Porto B em 2014. Apareceu bem na filial dos portistas, em tempos nos quais o time principal era dirigido por Julen Lopetegui, mas seria aproveitado na temporada seguinte pelo Estoril.

A partir de então, a afirmação de Diego Carlos aconteceu rapidamente. O zagueiro fez uma boa temporada como titular do Estoril e atraiu a atenção do Nantes. Seria levado em 2016 à França, por €1,3 milhão. E o valor se tornou uma pechincha à maneira como o brasileiro se firmou na Ligue 1. Manteve-se como intocável na zaga dos Canários por três temporadas, se colocou entre os principais defensores do campeonato e acabou contratado pelo Sevilla em 2019 por €15 milhões. Os andaluzes montavam uma nova dupla de zaga, com Jules Koundé comprado junto ao Bordeaux por €25 milhões. O preço agora é incalculável, ante a importância de ambos na temporada.

O reencontro com Lopetegui foi positivo a Diego Carlos. O brasileiro esteve em campo 35 vezes por La Liga, sempre como titular. Encabeçou a terceira melhor defesa da competição e figuraria entre os melhores de sua posição. Virtual candidato ao G-4, o Sevilla conquistou a classificação à Champions com uma tranquilidade maior do que poderia se prever. E a Liga Europa se tornou um grande bônus aos rojiblancos, por mais que o caminho fosse difícil e outros clubes acabassem cotados à sua frente na lista de favoritos. A resposta veio dentro das quatro linhas, superando Roma, Wolverhampton e Manchester United, até a decisão contra a Inter.

Diego Carlos se saiu muito bem contra a Roma, mas os pênaltis cometidos contra Wolves e United colocavam em dúvida sua unanimidade. Para seu alívio, os companheiros definiram a classificação. E a situação poderia piorar na final contra a Inter, quando o camisa 20 provocou um penal um tanto quanto infantil em Romelu Lukaku. Teria o jogo inteiro para segurar seu psicológico e dar a volta por cima. Defensivamente não foi uma partida fácil a Diego Carlos, que viu os rojiblancos virarem, mas cometeu uma falta na intermediária e logo depois não conseguiu acompanhar Diego Godín pelo alto, no empate por 2 a 2 da Inter. Também teria uma reclamação de pênalti contra si, embora evitasse uma chance clara de Roberto Gagliardini. No fim das contas, algo maior estaria guardado.

Aos 29 do segundo tempo, a bola sobrou para Diego Carlos no ataque. Três minutos antes, o jogador precisou enfaixar sua coxa por conta de uma lesão. Com espaço, ele resolveu tomar a decisão não tão óbvia a quem estava no limite físico: emendou a bicicleta dentro da área. Talvez a bola não fosse em direção ao gol, mas a infelicidade de Lukaku ao meter o pé também provocaria a reviravolta gloriosa ao brasileiro. Seus desleixos ficariam para trás, com um tento enorme, especialmente numa final continental. O camisa 20 seguiria lutando para manter a vitória até os 41 minutos, quando saiu, substituído por Nemanja Gudelj. Não segurou as lágrimas no banco, num misto de sentimentos por tudo aquilo que viveu.

É possível que a passagem de Diego Carlos pelo Sevilla seja curta. O zagueiro tem propostas de outros clubes e a Premier League é um dos possíveis destinos. O defensor tem pontos a melhorar, sobretudo por alguns apagões que viveu nesta reta final de temporada, mas sua força física e a maneira como joga com a bola no chão pesam a seu favor. Talvez Koundé seja um negócio mais seguro, considerando sua idade e seu próprio desempenho nesta reta final de Liga Europa, inclusive na final. Mas o brasileiro também possui suas virtudes e sua estrela, de quem faz um gol de bicicleta na decisão.

Os erros na noite em Colônia poderiam ofuscar a grande temporada de Diego Carlos no Sevilla. O gol de bicicleta muda essa história e permite um reconhecimento maior ao que o zagueiro jogou. Um ano bastou para ficar marcado entre os campeões com a camisa rojiblanca. Continue por lá ou não, este tento é mais um para ser recontado entre os grandes momentos dos rojiblancos na Liga Europa. E valendo a taça.

Diego Carlos e a taça da Liga Europa (FRIEDEMANN VOGEL/POOL/AFP via Getty Images/One Football)

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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