Desafio cartográfico

Foi um grande exercício de cartografia. Em 2003, o Real Madrid contratou David Beckham para impulsionar ainda mais sua estratégia de marketing e a marca de “galáticos”. O problema é que o time já tinha Figo como meio-campista pelo lado direito. Foram realizadas diversas tentativas de jogar com todas as estrelas (ainda estavam no elenco Ronaldo, Zidane, Raúl e Roberto Carlos), mas a questão do lado direito nunca foi resolvida. O time acabou fracassando em todas as competições que disputou.
Oito anos depois, o Barcelona se depara com dilema parecido. Como ocorreu nos últimos verões europeus, o clube volta a falar na contratação de Cesc Fàbregas, uma obsessão que tem muito a ver com a qualidade do jogador, mas também um jeito de mostrar força e trazer de volta um jogador que a torcida gostaria que tivesse ficado. E, ao contrário do que ocorreu nas aberturas anteriores de mercado, dessa vez o Arsenal parece mais disposto a conversar.
A isso se soma outra especulação muito forte: a contratação de Alexis Sánchez, destaque do Chile na Copa do Mundo e da Udinese nas últimas temporadas. A campanha do time friulano foi tão boa na Serie A que o chileno se tornou um dos nomes mais desejados no mercado europeu. Para os clubes que se preocupam muito com a possibilidade de um sul-americano ter dificuldade para se adaptar ao estilo europeu, ele aparece com mais força até que Neymar. O que pode deixar Guardiola com o mesmo dilema cartográfico do Real Madrid de Carlos Queiroz.
O jornal catalão Sport publicou uma reportagem neste domingo dizendo quais seriam as ideias iniciais do técnico. O Barcelona trocaria o 4-3-3 por um 3-4-3. O meio-campo ficaria em losango (diamante), com Busquets de volante, Xavi e Iniesta um pouco mais abertos e Fàbregas na ponta da frente, como meia de armação mais próximo dos atacantes. A defesa ficaria com Daniel Alves, Puyol e Piqué. O brasileiro teria mais liberdade para subir e, quando isso ocorresse, Pedro ajudaria na cobertura do lado direito e Busquets recuaria para recompor o trio defensivo. O texto não fala de Sánchez, mas claramente ele poderia se transformar em uma alternativa a Pedro no lado direito do ataque, até porque já está acostumado a jogar em esquemas semelhantes ao 3-4-3 proposto pelo Sport (tanto pelo Chile quanto pela Udinese).
É forçar a barra demais para encaixar os jogadores em um time que já pareceu quase perfeito na temporada passada? Em parte. A solução imaginada tem seus pontos interessantes. Fàbregas precisaria de um tempo de adaptação, mas poderia ser uma figura a mais para os envolventes toques de bola do Barcelona no meio-campo. Além disso, Alexis Sánchez tem condições de se firmar como uma opção melhor que Pedro (sobretudo ofensivamente).
No entanto, esse sistema deixa várias questões no ar. Fàbregas como meia mais avançado, pelo meio, poderia embolar demais com Messi. Talvez, ao invés de um losango/diamante, o meio-campo se posicionasse de modo mais conservador, com um volante atrás (Busquets) e um trio de meias em linha. O lado direito da defesa, com Daniel Alves aprendendo uma nova posição tendo de se articular com Pedro e Busquets no esquema de cobertura, pode ficar muito vulnerável (a não ser que o brasileiro fosse para o banco…).
Por isso, a sensação é que o 3-4-3 sugerido pelo Sport seja apenas uma das opções nas quais o Barcelona poderia se organizar. Ela seria posta em prática dependendo das circunstâncias da partida e do adversário. Outra possibilidade seria manter o 4-3-3 atual, com Fàbregas ao lado de Xavi na armação e Iniesta caindo pela ponta esquerda. Villa e Messi se revezam entre lado direito e meio. Pedro perderia lugar e Alexis Sánchez já chegaria como reserva.
Claro, tudo isso é suposição, pois Fàbregas ainda é jogador do Arsenal e precisa se apresentar ao seu clube nesta segunda. Mas Guardiola já deve estar desenhando pontinhos e setas em seu caderninho de anotações. Vai ser difícil encaixar tanta gente em um time de 11.


