0-1-0-0-5-0-0-1-3-1-3-2-4-1-4-2-0-0-0-0-0. Não, esse não é um esquema tático maluco inventado por algum visionário como Rinus Michels, Pep Guardiola ou Israel de Jesus. Também não é o código de barras de algum congelado no supermercado. Tampouco o código de alguma conta, do CPF ou do cartão de crédito de alguém. Ah, e claro que não é um número cabalístico que aparece recorrentemente na vida de várias pessoas perdidas em uma ilha após sobreviverem a um acidente aéreo.

Esses números são os sofridos pelo Atlético de Madrid a cada rodada do Campeonato Espanhol 2011/12. Percebe-se alguns padrões: um começo com números baixos (tirando um “5” lá no meio, e não precisa ser Nostradamus para adivinhar que foi o duelo contra o Barcelona), um período de oito jogos sem que o ataque adversário passasse em branco e, finalizando, cinco zeros seguidos.

O quinteto de zeros está diretamente ligado à chegada de Diego Simeone. Desde a entrada do técnico argentino no lugar de Gregório Manzano, o Atlético não sofreu gols. Com isso, venceu três jogos, empatou dois (e foram dois complicados, fora de casa com o Málaga e em casa com o Valencia) e já encostou no pelotão que disputa pela quarta vaga espanhola na Liga do Campeões (está na setima posição, com 30 pontos, dois a menos que o Levante, quarto colocado). E o ex-volante não fez nada de genial: apenas estabeleceu uma linha defensiva titular e a protegeu melhor.

Com Gregório Manzano, o Atlético foi um laboratório avanç de experiências defensivas. Trocou esquemas táticos e como se a coisa fosse funcionar do dia para a noite, encontrando o grupo defensivo perfeito. Não é assim. O método de tentativa e erro é até viável para muitas ciências, mas no futebol, excesso de erros vão limitar as futuras tentativas.

Em 16 jogos sob o comando do ex-técnico, o Atlético alcançou a façanha de não repetir a defesa nenhuma vez. Isso mesmo: NENHUMA. Quer dizer, repetiu uma vez (contra Mallorca e Athletic), mas teve esquemas táticos diferentes nesses jogos. No primeiro teve apenas um volante. No segundo, ficou com dois. Ou seja, o sistema defensivo como um todo não foi repetido.

Veja a defesa do Atlético em cada jogo com Manzano (entre parênteses, o esquema tático que os colchoneros utilizaram)

Osasuna (4-3-3): Silvio, Perea, Domínguez, Filipe Luis
Valencia (4-3-3): Silvio, Miranda, Dominguez, Filipe Luis
(4-2-3-1): Perea, Miranda, Dominguez, Filipe Luis
Sporting (4-3-3): Silvio, Miranda, Dominguez, Filipe Luis
Barcelona (4-3-3): Perea, Miranda, Godín, Antonio López
Sevilla (4-2-3-1): Silvio, Godín, Dominguez, Filipe Luis
Granada (4-3-3): , Miranda, Dominguez, Filipe Luis
Mallorca (4-1-4-1): Silvio, Miranda, Godín, Filipe Luis
Athletic (4-2-3-1): Silvio, Miranda, Godín, Filipe Luis
Zaragoza (4-2-3-1): Silvio, Godín, Dominguez, Filipe Luis
Getafe (4-2-3-1): Antonio López, Godín, Dominguez, Filipe Luis
Levante (4-2-3-1): Silvio, Miranda, Dominguez, Filipe Luis
Real Madrid (4-2-3-1): Perea, Godín, Dominguez, Filipe Luis
(4-3-3): Perea, Miranda, Dominguez, Filipe Luis
Espanyol (4-2-3-1): Perea, Miranda, Godín, Filipe Luis
Betis (4-3-3): Juanfran, Godín, Domínguez, Filipe Luis

Dá para levantar umas estatísticas interessantes. Foram utilizados quatro laterais-direitos (média de um a cada quatro jogos): Silvio, Perea, Antonio López e Juanfran. Foram escaladas também quatro duplas defensivas: Perea-Domínguez, Miranda-Domínguez, Miranda-Godín e Godín-Domínguez. O máximo de jogos seguidos que um lateral-direito fez foram três, com Silvio (rodadas 9 a 11). E o máximo de jogos seguidos que uma dupla de zaga fez também foram três, com Miranda-Godín (rodadas 3 a 5).

Obs.: lembrando que o campeonato começou na 2ª rodada (a 1ª havia sido adiada e foi disputada após a 19ª)

Uma boa defesa se faz com bons defensores, mas apenas nomes não resolvem. Não adianta nada um time ter um monstro sagrado na zaga se o outro zagueiro ficar dispersivo e mal posicionado, se o lateral não souber quando deve avançar ou não, se o volante não fizer a cobertura, se o meio-campo permitir que a bola chegue limpa no homem de armação do adversário, se o goleiro não orienta bem os companheiros.

Por isso, o trabalho defensivo é uma arte. Os jogadores precisam se coordenar corretamente, ocupar espaços, antecipar movimentos dos adversários, estar atento em todo momento. O Atlético já não conta com uma defesa de arregalar os olhos pelos nomes. Então, precisa mais ainda contar com esse trabalho em conjunto.

Assim que assumiu, Simeone foi direto ao ponto. Logo de cara, o argentino definiu uma defesa. Veja como os colchoneros jogaram nas últimas cinco partidas:

Málaga (4-2-3-1): Perea, Godín, Domínguez, Filipe Luis
Villarreal (4-2-3-1): Juanfran, Godín, Miranda, Filipe Luis
Real Sociedad (4-2-3-1): Juanfran, Godín, Miranda, Filipe Luis
Osasuna (4-4-2): Juanfran, Godín, Miranda, Filipe Luis
Valencia (4-2-3-1): Juanfran, Godín, Miranda, Filipe Luis

Foram quatro jogos seguidos com a mesma dupla de zaga e com o mesmo lateral-direito (ou seja, quatro seguidos com a mesma linha defensiva, já que Filipe Luís segue absoluto na esquerda). É verdade que, contra o Osasuna, o meio-campo mudou, mas o efeito defensivo da mudança foi menor, pois o time teve dois volantes em todas as partidas (a atteração foi no ataque).

Além disso, o técnico deu mais responsabilidade defensiva aos jogadores de frente. Falcão García, Diego e Adrián são bons jogadores, mas deixavam os volantes – e, em última instância, a defesa – sobrecarregados. Agora, eles têm ajudado no primeiro combate. Nos números iniciais, a produção ofensiva até subiu um pouco (média de 1,6 gol por jogo com Simeone, contra 1,44 com Manzano), mas não há amostragem suficiente para haver um resultado confiável. O importante é como a defesa deixou de fazer água.

Após o sucesso do choque inicial, Simeone precisa lidar com os obstáculos que aparecem na trajetória de qualquer equipe. O primeiro vem nesse fim de semana, com os desfalques de Godín e Miranda. A longa série de jogos com a mesma linha defensiva será interrompida. A torcida do Atlético espera que o futebol consistente continue o mesmo.