O lugar de Iker Casillas na história do Real Madrid é indiscutível. Titular do clube desde os 18 anos, vencedor em duas Ligas dos Campeões e cinco Campeonatos Espanhóis, terceiro jogador com mais partidas. Pronto para se tornar recordista? O goleiro não precisaria de muito, mas isso talvez nunca aconteça. Casillas tem sua posição outra vez em xeque no Santiago Bernabéu. Pois os questionamentos sobre sua titularidade, que pareciam ter ficado para trás desde a saída de José Mourinho, voltaram à tona com Carlo Ancelotti.
A escolha de Diego López na estreia de La Liga surpreendeu a todos – e, segundo a atônita imprensa espanhola, até mesmo ao elenco. O treinador justificou sua decisão por achar que o virtual reserva estava um pouco à frente de Casillas e afirmou que esta não passa de uma opção eventual, não necessariamente o definitivo para a temporada. De qualquer forma, soou estranho. O capitão tinha sido titular na pré-temporada e os relatos eram de que estava voando nos treinamentos.
A postura de Ancelotti, no entanto, faz parecer que o problema com Casillas vai além do mero âmbito esportivo. Conforme o jornal El País, um dos pedidos de Mourinho para permanecer em Madri, como queria o presidente Florentino Pérez, era vender a “ovelha negra”. Por uma série de outros imbróglios, o português saiu. Mas a relação entre o dirigente e o capitão, que era basicamente institucional, teria se deteriorado ainda mais.
A motivação de Casillas seria outro problema. Depois de se lesionar na temporada passada e de ser colocado de lado, o goleiro não estaria demonstrando tanta vontade para dar a volta por cima. As vaias de parte da torcida, para quem estaria agindo contra o clube ao envenenar os companheiros contra Mourinho, também pesou. Neste domingo, mesmo começando do zero com Ancelotti, o camisa 1 sequer se aqueceu quando ficou sabendo que começaria no banco, com Diego López fazendo os trabalhos com Tomás Mejías, que sequer foi relacionado.
O vestiário do Real Madrid já não é o maior exemplo de união, especialmente da cisão criada nos tempos de Mourinho entre os partidários do técnico e seus opositores. A situação melhorou no fim da temporada passada, quando a maioria se voltou contra o português, mas não significa a coesão total do grupo. Qual o papel de Casillas na estabilidade deste ambiente? Sua preponderância é evidente, mas ainda não está claro para que lado pende na avaliação de Ancelotti depois de domingo.
Capitão em xeque: a situação não é inédita

A situação, de certa forma, lembra os últimos tempos de Raúl no Bernabéu. Mourinho descartou a permanência do camisa 7 principalmente para se livrar do “dono do time”. Será que o mesmo aconteceria com Casillas? Sua qualidade técnica é inegável e, no geral, o camisa 1 é superior a Diego López. Porém, a fase de seu concorrente é excelente e, contando que a postura do capitão esteja em questionamento, apostar em Diego não é nenhuma loucura.
Aos 32 anos, Casillas tem seu nome colocado no mercado. Surgiram especulações de que o goleiro poderia ir ao Barcelona e ao Manchester United, que a princípio são absurdas. O Arsenal também surge como concorrente, em uma de suas principais carências. Pela idade, o espanhol deve ter ao menos cinco anos de carreira. E considerando que poucos goleiros no mundo chegam ao seu nível, em uma posição carente em muitos gigantes europeus, mercado não deverá faltar ao camisa 1.
Tanta imaginação pode ser falsa. Ancelotti talvez volte a dar lugar cativo a Casillas no gol do Real. Todavia, parece haver pelo menos um aviso em toda essa história. Não é porque o espanhol detém a braçadeira de capitão que será o dono do time. Precisa estar igualmente concentrado e fechado com o treinador. Superar as desconfianças não será tão fácil, mas Casillas tem experiência para tanto. Até porque, se quiser fazer ainda mais história com os merengues e não comprometer seu desempenho com a seleção espanhola na Copa do Mundo por falta de ritmo, ele depende diretamente disso.



