Espanha

Corpo x mente

Juande Ramos não é um gênio. Se fosse, não estaria no CSKA Moscou. Mas ele também não é um ignorante completo. Se fosse, não estaria no CSKA Moscou. Na temporada passada, durante sua passagem pelo Real Madrid, o técnico espanhol utilizou bastante o brasileiro Marcelo. Quase sempre como meia-esquerda. Quem viu Sevilla 2×1 Real Madrid, a primeira derrota merengue nesta temporada, entendeu o motivo.

Neste domingo, o ex-Fluminense ficou na lateral, sua posição de origem. Tornou-se o caminho para a vitória sevillista e, principalmente, para Jesús Navas brilhar. Diante de um marcador fraco, o meia-direita teve todo o espaço do mundo: criou jogadas, pela ponta e pelo centro, finalizou e decidiu. Por exemplo, foi ele quem abriu o marcador, antecipando-se a Marcelo para cabecear no canto esquerdo de Casillas.

Uma atuação maiúscula como a deste fim de semana deixa no ar a pergunta: “será que ele não teria espaço na seleção espanhola?”. Uma ideia que se reforça quando se percebe que o sevilhano tem apenas 23 anos e, mesmo assim, foi titular absoluto das campanhas vitoriosas de seu clube em duas Copas Uefa e ainda ajudou a transformar Luís Fabiano e Kanouté em dois dos principais atacantes do futebol espanhol.

Bem, a Espanha muitas vezes se dá ao luxo de colocar Fàbregas e Xabi Alonso no banco de reservas. Ou seja, não pode reclamar da falta de meias. Ainda assim, seria possível encaixar Navas no banco, como uma versão destra do canhoto David Silva. Foi pensando nisso que Luis Aragonés convocou o sevillista algumas vezes. Mas o jogador recusou muitos dos chamados.

Não se trata de falta de patriotismo ou atrito com os técnicos da seleção espanhola. Navas até gostaria de defender a Espanha. Ele simplesmente… não consegue. Cigano, o meia foi criado em uma pequena cidade nos arredores de Sevilha. Mesmo depois de se tornar um jogador de sucesso, ele não consegue viver longe de sua terra. Não é apenas saudade, é uma doença psicológica crônica.

Em longos períodos fora de Sevilha, o meia sofre de ataques de ansiedade e chegou a ter convulsões. Ele já fugiu de concentração e recusou-se a viajar com o clube para excursões fora da Espanha. Sua condição de saúde – problema psicológico não deixa de ser um problema de saúde – limita seu desenvolvimento, fazendo que Navas tenha momentos de baixa e, principalmente, boicote sua própria carreira.

O meia tem noção de que precisa enfrentar sua doença. Seguindo conselhos de psicólogos do Sevilla, o jogador aceitou participar da pré-temporada de seu clube nos Estados Unidos em agosto, até como forma de autodesafio. Esse esforço extra se deve ao desejo de integrar a seleção espanhola na Copa do Mundo de 2010: “eu tenho de estar calmo e tomar minhas decisões. Eu tenho de continuar dando os passos certos”.

A fase decisiva do tratamento de Navas está apenas começando. Só nos próximos meses se saberá se ele realmente controlou seus problemas para que sua carreira tenha sucesso proporcional a seu talento. Pelo que o meia mostrou contra o Real Madrid, o potencial de crescimento é grande. Marcelo e o lado esquerdo dos merengues que o digam.

Projeto sem engenheiro

Muitas vezes, certas pessoas se transformam em referências tão fortes a um grupo de trabalho que, quando saem, há um momento de desorientação. Mesmo que o resto do grupo seja basicamente o mesmo. É isso o que tem ocorrido com o Villarreal nos primeiros meses pós-Manuel Pellegrini. Comum futebol apático, o Submarino Amarillo não venceu em nenhuma das seis rodadas do campeonato, colecionando apenas três pontos e ocupando um lugar na zona de rebaixamento.

Em teoria, não há por que temer uma desgraça completa em El Madrigal. O time é forte, com o bom Diego López no gol, os eficientes Godín e Capdevila na defesa, Marcos Senna ajudando na proteção da zaga, Cazorla e Pires na armação e Giuseppe Rossi e Nilmar formando uma dupla de ataque leve e habilidosa. Se for preciso um pouco mais de peso na frente, Joseba Llorente está à disposição.

Não é muito diferente da equipe que chegou às quartas de final da Liga dos Campeões na temporada passada. Mas o futebol é completamente diferente. E aí percebe-se como o time está ainda se acostumando a ver um técnico diferente de Pellegrini no banco de reservas.

Ernesto Valverde, o atual comandante, é um técnico novo, ma que já consolida uma carreira de sucesso em equipes medianas. Em 2003/04, conduziu o Athletic Bilbao à quinta posição no Campeonato Espanhol. Três temporadas depois, comandou o Espanyol vice-campeão da Copa Uefa. E, na temporada passada, treinou o Olympiacos campeão grego. Só não seguiu em Pireu por não entrar em acordo financeiro com a diretoria do clube.

Não há por que duvidar da capacidade do extremeño manter o nível de competitividade do Villarreal. O problema é só recuperar o foco de um time que ainda sente falta de sua antiga referência no banco. Por isso, Pires considera que a parada de 15 dias, devido aos jogos das Eliminatórias da Copa, será fundamental para o clube castellonense começar, na prática, a temporada.

Mostrar mais

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo