Espanha

Corneta valenciana

A derrota por 3 a 0 para o Sevilla acendeu o alerta. A diretoria do Valencia interpretou o sinal e não perdeu tempo. Era noite – na verdade, madrugada – de domingo e a cúpula valencianista se reuniu para tratar da demissão de Quique Sánchez Flores. Assim, às 3h52 da manhã de segunda, o clube de Mestalla não tinha mais um técnico.

Em bom português, pode-se dizer que Sánchez Flores foi “fritado”. Desde a primeira rodada do Campeonato Espanhol – derrota por 3 a 0 para o Villarreal em casa – a torcida Che tem mostrado paciência curtíssima com o treinador. Naquela oportunidade, já houve pañolada (gesto de agitar lenços brancos como sinal de desaprovação) nas arquibancadas. Mesmo nas vitórias, os protestos seguiam. Se não era pelo mau resultado, era pelo mau futebol apresentado.

É perfeitamente possível argumentar que as reclamações da torcida foram injustas. Sánchez Flores fez um bom trabalho no clube nas últimas duas temporadas, tirando o time da bagunça que foi a passagem de Cláudio Ranieri e reorganizando o elenco. Sob seu comando, o Valencia reencontrou seu padrão de jogo, com sistema tipicamente espanhol funcionando com fluidez, externos criativos e meias internos marcadores.

Além disso, em sua passagem por Mestalla que os Davids (Silva e Villa) se mostraram como dois dos melhores nomes da atual geração espanhola. Sinal de como o Valencia redescobriu sua vocação para encontrar talento nativo a preços acessíveis e, com base neles, montar equipes competitivas internacionalmente. Lembrete: o Valencia foi o melhor time espanhol na última Liga dos Campeões, caindo diante do Chelsea nas quartas-de-final com um gol no último minuto.

Outro argumento em favor de Sánchez Flores é a situação do clube. Ao contrário do que a enxurrada de críticas pode sugerir, o Valencia está firme na luta pelo título espanhol (é quarto colocado, com apenas quatro pontos a menos que o líder Real Madrid) e a situação da Liga dos Campeões não é tão deprimente (venceu o jogo-chave contra o Schalke fora de casa e, ainda que tenha perdido as outras duas partidas, tem dois confrontos no Mestalla no returno para assegurar a classificação). Ou seja, ainda que o futebol não seja convincente, os resultados são razoáveis e pode ser questão de tempo de a equipe engrenar.

No entanto, há fatos que vão para a conta do treinador. Parte do futebol cambaleante dos ches neste início de temporada se deve às más fases de Cañizares e Villa. No gol, piora o fato de o bom reserva Hildebrand estar sentindo a falta de ritmo de jogo. Nas vezes em que entrou, o alemão também falhou mais do que o desejado. No caso de Villa, fica evidenciada a dependência do time do centroavante, já que o batalhão de bons dianteiros do Valencia não prima pelo oportunismo.

Como comandante, Sánchez Flores tem responsabilidade na dificuldade de a equipe contornar esses reveses. Isso ficou evidente no jogo contra o Sevilla. Denotando algum desespero, o técnico radicalizou e exagerou nas mudanças estranhas. Hildebrand foi titular de fato pela primeira vez (nas outras, foi pela contusão de Cañizares), Caneira ficou na lateral direita, Ângulo ganhou espaço na meia esquerda e a dupla de ataque foi Arizmendi e Zigic. Miguel, David Silva, Morientes e Cañizares esquentaram o banco. Não tinha como dar certo. O time pareceu ter absorvido tal instabilidade de seu comandante e perdeu por 3 a 0.

Vendo por esse lado, a demissão foi justificada. Sánchez Flores fazia um bom trabalho, mas não vinha suportando as críticas e isso prejudicava seu desempenho como comandante. Ele mesmo admitiu que estava aliviado ao ser demitido. Ou seja, ele mesmo sabe que era hora de partir.

Para seu lugar, o Valencia foi por um perigoso caminho. Procurou estrelões como Fabio Capello, José Mourinho e Marcelo Lippi. De acordo com as agências internacionais, a diretoria acabou acertando com o holandês Ronald Koeman. Todos esses são bons técnicos, mas têm perfil diferente do que se tornou a tradição do clube: buscar jogadores acessíveis financeiramente para montar times consistentes e ofensivos. Nesse aspecto, Koeman é a melhor opção dentro as procuradas, pois tem um perfil mais parecido com o do clube. Mesmo assim, talvez haja um período de adaptação pelo qual a torcida deve esperar.

Juande ingrato?
Era mais que sabido que Juande Ramos ia para o futebol inglês um dia. Seu trabalho no Sevilla repercutiu muito bem em toda a Europa (Inglaterra incluída) e o técnico nunca se furtou a dar entrevistas à imprensa inglesa para explicar sua filosofia. Outros sinais fortes: em tais entrevistas, o treinador fazia questão de dizer que tinha “uma visão inglesa do que era o futebol” e não quis prolongar seu contrato com o Sevilla para depois desta temporada. Aliás, até se falava no Tottenham como um destino possível para o verão de 2008, antes mesmo de o clube londrino entrar em crise.

Apesar de tudo isso, a saída de Ramos foi encarada como traição. Alguns torcedores do Sevilla acham que o técnico só deixou a Andaluzia porque o time passa por má fase e era melhor sair agora do que esperar a crise se agravar. Outros acham que ele pensou apenas em si e deixou o projeto rojiblanco pela metade. Até porque o complemento seria fazer uma boa campanha na Liga dos Campeões.

Reações apaixonadas, mas injustas. Ramos recebeu uma proposta financeriamente muito boa de um clube inglês que tem dinheiro e parece disposto a deixá-lo realizar um trabalho (clique aqui para ler mais sobre Juande Ramos no Tottenham). Se sua passagem por White Hart Lane der certo, ele pode entrar na lista de técnicos de ponta da Europa.

Além disso, o próprio Sevilla não parece ter feito muito esforço para impedir a saída do treinador. Primeiro, porque a diretoria considera que o principal mérito do crescimento sevillista não é o técnico, mas a estrutura montada no clube. Segundo, porque fala-se no pagamento de multa rescisória em um valor mais que aceitável para o Sevilla.

É lógico que, em um sistema em que os elementos se encaixam tão bem como o sevillista, a saída do técnico pode causar instabilidade. Mas era algo previsível no cenário que se desenhava e os dois lados não tinham como agir de modo diferente. É questão de ver se as apostas se pagam: a de Ramos que, no Tottenham, ele dará um salto em sua carreira e a do Sevilla que o clube tem uma estrutura mais forte que o treinador.

CURTAS

– As atuações contra Olympiacos e Deportivo de La Coruña deram crédito para Robinho com a torcida do Real Madrid. Ele precisa atuar mais vezes neste nível, mas já fez os madridistas esquecerem um pouco a balada do Rio de Janeiro.

– O governo da Catalunha preparou um vídeo didático para estudantes estrangeiros aprenderem o que é o “catalanismo” e a identidade catalã. Seria normal, não fosse um detalhe: há várias referências ao Barcelona no material e nenhuma a outros clubes catalães (Espanyol, Gomnàstic, Sabadell, Lleida…).

– A diretoria do Espanyol reclamou do que considera uma demonstração de preferência oficial do governo para o Barcelona. Daniel Sánchez Llibre, presidente perico, disse que é uma propaganda de uma empresa (FC Barcelona) e representa um apartheid futebolístico.

– A secretaria da Educação da Catalunha retirou o vídeo de circulação e disse que iria reformula-lo para acrescentar outros clubes. O Espanyol não aceita, pois acha que, se for colocado todos os clubes da Catalunha, o vídeo terá duas horas. Ou seja, eles já imaginam que o Barça continuaria predominando. A proposta espanyolista é simplesmente tirar o futebol do material.

– A reclamação espanyolista vem um mês depois de o Atlético de Madrid pedir à administração do metrô de Madri a tirar de circulação um vídeo em que o torcedor do Real era retratado como distinto usuário do metrô e o atlético era um irritadiço e mal educado motorista.

– No fundo, os dois casos denotam uma indisfarçável preferência do poder espanhol por Real Madrid e Barcelona. O caso da Catalunha é muito claro, com empresas estatais da região ajudando a financiar o Barça. Em um momento de crescimento do Espanyol, cria-se um movimento de resistência.

– Veja a seleção Trivela da 9ª rodada do Campeonato Espanhol: Cobeño (Almería); Daniel Alves (Sevilla), García Calvo (Valladolid), Acasiete (Almería) e Crespo (Sevilla); Guti (Real Madrid), Borja Valero (Mallorca), Robinho (Real Madrid) e Óscar Serrano (Racing de Santander); Sergio García (Zaragoza) e Dady (Osasuna).

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Equipe Trivela

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