Como a punição da Fifa ao Barça tem frustrado o sonho de milhares de garotos na Catalunha

A punição da Fifa ao Barcelona por descumprir a legislação sobre a contratação de menores prejudicou um pouco os planos da equipe de se reforçar, com o banimento da janela de transferências, mas atingiu em cheio também um outro grupo, sob muito menos holofotes da mídia: as crianças e famílias que deixam seu país em busca do sonho de se tornar jogador de futebol. Só na Catalunha, mais de 3000 garotos estrangeiros estão impedidos de jogar por causa da adoção de regras mais estritas quanto à inscrição de jogadores do exterior em equipes de categorias de base.
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Segundo o jornal Sport, mais de 3000 garotos que já estavam na Catalunha ou que foram com suas famílias para a comunidade espanhola para jogar futebol estão impedidas de jogar por terem tido seus contratos anulados ou impedidos de ser assinados, diante da nova regulamentação da Fifa, que exige que os pais dos jogadores menores de 18 anos tenham se mudado de país por razões não ligadas ao futebol.
Para este final de semana, diversos clubes, profissionais e amadores, preparam um protesto antes de seus jogos pelos mais diversos campeonatos de categorias de base. Liderados por Tomás Desembre, presidente de uma peña barcelonista (grupo de torcedores homologado pelo clube), os times entrarão em campo e, antes do apito inicial das partidas, se sentarão no gramado.
“Chegamos a falar com o Sindicato de Greuges, porque a situação é insustentável. Calculamos que mais de 3000 garotos não podem jogar, e algo tem que ser feito, porque isso não é justo. As normas da Fifa se chocam com as leis espanholas e catalãs, e aqui ninguém faz nada. Nós, com um grupo de pais, vamos nos reunir com advogados para levar o tema às vias legais. Isso não pode continuar acontecendo. Recebi mais de 200 ligações e consultas, e enviamos mais de mil e-mails para que todos os clubes se sentem no começo das partidas, em defesa desses meninos que não podem jogar”, explica Desembre.
Segundo detalha o periódico catalão, a burocracia por trás do processo de regulamentação dos garotos é outro dos impedimentos que segue deixando inativos centenas de pequenos atletas.
A documentação precisa ser enviada para a Federação Catalã, que a encaminha para a Federação Espanhola. De lá, vai para a Fifa, que analisa detalhadamente cada caso, tendo como requisitos até mesmo os recibos de contas de luz e telefone.
Além disso, de acordo com o jornal, a entidade máxima do futebol revisa as fichas de partidas das categorias de base, procurando a presença de jogadores não regularizados. Tudo isso dificultado ainda pela demora da Fifa no processo de regulamentação. Segundo a Federação Catalã, os documentos de mais de 900 garotos já foram enviados, mas apenas 500 deles foram autorizados, e essa própria demora desencoraja diversas famílias a buscar a regularização.
“Assim não podemos continuar, porque estamos acabando com o sonho de muitos meninos. Há casos em que (as crianças e as famílias) chegam a erguer as mãos ao céu, sofrendo, e há muitos pais que estão realmente cansados porque veem que nada é resolvido. É um tema difícil e, por isso, estamos tentando mobilizar o máximo de gente possível para que isso mude”, conta Tomás Desembre.
Os clubes e as famílias buscam uma flexibilização das novas regulamentações da Fifa. Reclamam que, com todos os documentos de moradia regularizados na Espanha, é um absurdo que os meninos estejam impedidos de jogar. Se punindo o Barcelona a entidade máxima do futebol esperava passar uma lição, ela não precisava necessariamente prejudicar tanta gente que já alterou o curso de sua vida na busca de um sonho e que, em vários dos casos dessas mais de 3000 crianças, sequer está atrelada ao clube.



